A 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), que encerrou em Ulaanbaatar, Mongólia, deixou um sentimento de frustração e decepção entre organizações ambientais e especialistas. A expectativa por um acordo global para enfrentar as secas foi adiada, resultando em um “sabor amargo” para muitos. A falha em estabelecer um mecanismo multilateral robusto para o combate à seca é vista como um revés significativo, especialmente em um momento de crescente número de desastres hídricos em diversas partes do globo. Essa ausência de consenso deixa comunidades e economias vulneráveis, pagando o preço da inação coletiva.
O impasse global e suas consequências iminentes
Falha em Ulaanbaatar e o adiamento de decisões cruciais
A Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17) terminou com um resultado amplamente classificado como “frustrante” e “inacreditável” por organizações ambientais e especialistas. A principal decepção reside no adiamento de qualquer decisão substancial sobre um acordo global para o enfrentamento das secas. Rafael Giovanelli, especialista, expressou o “sabor amargo” deixado pela conferência, que transferiu as discussões cruciais para a COP18, a ser realizada no Egito. Essa procrastinação é particularmente alarmante dado o cenário global. Richard Lee, da Wetlands Internacional, destacou que a falta de consenso ocorre justamente quando os desastres relacionados à seca atingem picos históricos.
Em 2022, a Europa enfrentou uma seca sem precedentes, com rios vitais em níveis mínimos. Nos Estados Unidos, o Rio Colorado registrou quedas recordes, comprometendo o abastecimento de milhões de pessoas. Além disso, o fenômeno “Super El Niño” projeta riscos de secas devastadoras que podem afetar desde o Sul da África até a vastidão da Amazônia. Esse quadro de emergência climática deveria, na visão dos especialistas, forçar os governos a uma ação imediata e decisiva. No entanto, a realidade mostrou o contrário. O adiamento da decisão sobre o combate à seca por mais dois anos não é apenas uma questão de tempo; representa um custo imenso para comunidades e economias em todo o mundo, que continuarão a pagar o preço da inação.
A perspectiva dos vulneráveis e o dissenso entre as nações
A proposta de criar um mecanismo multilateral para enfrentar as secas de forma coordenada é uma demanda antiga, defendida por nações africanas há pelo menos três conferências. O continente africano é historicamente um dos mais afetados pela escassez hídrica e seus impactos socioeconômicos. Esses países argumentam que um acordo robusto demandaria ajuda financeira direcionada para que as nações mais vulneráveis pudessem se antecipar aos eventos extremos e se recuperar de forma eficaz. Eles apontam que instrumentos internacionais existentes, como o Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF), embora importantes, são estruturados sob o tema mais amplo da degradação das terras, não abordando a especificidade e a urgência das secas de maneira adequada.
Contrariamente, os países mais ricos demonstram relutância em se comprometer com um acordo obrigatório, preferindo a adesão voluntária a iniciativas e financiamentos. A União Europeia, por exemplo, enfrenta suas próprias crises de seca em seu território e não demonstra interesse em assumir compromissos financeiros externos que considerem onerosos. Esse dissenso entre a necessidade urgente dos países mais impactados e a cautela fiscal das economias desenvolvidas perpetua o impasse, dificultando a construção de uma resposta global unificada e eficaz diante de uma crise climática que não respeita fronteiras.
Iniciativas paralelas e um caminho incerto
Esforços pontuais em meio à frustração global
Apesar da ausência de um acordo global abrangente na COP17, algumas iniciativas paralelas foram lançadas na tentativa de mitigar os efeitos das secas. Um dos destaques foi o Mecanismo de Investimento para Resiliência à Seca (DRIF), uma plataforma de financiamento pioneira dedicada exclusivamente a este tema. Criada pela Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD) em colaboração com Luxemburgo e com o apoio da Aliança Internacional para a Resiliência à Seca (IDRA), o DRIF almeja mobilizar até US$ 400 milhões em recursos provenientes de setores públicos e privados.
Os investimentos previstos para o DRIF serão direcionados para áreas críticas, incluindo a segurança hídrica, a promoção da agricultura sustentável, o desenvolvimento de soluções baseadas na natureza e a recuperação de terras degradadas. Essas ações são vitais para construir a capacidade de comunidades e ecossistemas de resistir e se adaptar a períodos de escassez de água. Embora promissora, a iniciativa opera como um esforço isolado em um panorama que clama por uma resposta global coordenada, levantando questões sobre sua capacidade de escala e impacto em face da magnitude do problema.
Ferramentas de avaliação e monitoramento para a resiliência
Outra novidade apresentada durante a COP17 foi a segunda fase do Observatório Internacional de Resiliência à Seca (IDRO). Este observatório lançou o primeiro Índice de Resiliência à Seca (DRI), uma ferramenta inovadora com o potencial de revolucionar a forma como os países abordam a gestão da seca. O DRI foi concebido para auxiliar as nações a avaliar e compreender sua capacidade atual de antecipar, preparar-se e adaptar-se aos períodos de escassez hídrica.
Ao fornecer dados e métricas concretas, o índice permite que os governos identifiquem pontos fracos e fortalezas em suas estratégias de resiliência, facilitando o desenvolvimento de políticas mais eficazes e o direcionamento de investimentos para onde são mais necessários. Contudo, Christine Colvin, especialista em políticas de água da WWF Global, alerta que, embora iniciativas como o DRIF e o IDRO sejam valiosas, elas não são suficientes por si só. A colaboração conjunta de governos, sociedade civil e instituições financeiras é fundamental para que o combate às secas alcance progresso significativo. A “profunda frustração” expressa por Colvin reflete a percepção de que, sem uma base forte de ambição e um acordo global vinculativo, os esforços permanecerão fragmentados e aquém do necessário.
O futuro da resiliência à seca
A 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17) evidenciou a urgência de um acordo global para enfrentar as secas, mas também a persistência de um impasse que adia soluções cruciais. Enquanto os impactos da seca se intensificam em escala planetária, a falta de consenso sobre mecanismos multilaterais e financiamentos obrigatórios impede uma resposta coordenada e eficaz. As iniciativas paralelas, embora valiosas, não substituem a necessidade de uma ação global unificada. O futuro da resiliência à seca dependerá da capacidade dos líderes mundiais de superar as diferenças e priorizar a proteção de comunidades e ecossistemas, transformando a frustração da COP17 em um catalisador para decisões substanciais nas próximas conferências.
FAQ
Qual foi a principal decepção da COP17?
A principal decepção da COP17 foi o novo adiamento do acordo global para enfrentar as secas e os impactos que isso trará sobre as comunidades, transferindo as discussões para a COP18.
Por que é difícil alcançar um acordo global sobre o combate à seca?
É difícil devido à relutância dos países mais ricos em se comprometer com um acordo obrigatório e gastos externos, preferindo adesão voluntária, enquanto os países mais vulneráveis necessitam de ajuda financeira estruturada.
Quais iniciativas paralelas foram lançadas durante a COP17?
Duas iniciativas notáveis foram o Mecanismo de Investimento para Resiliência à Seca (DRIF), uma plataforma de financiamento, e a segunda fase do Observatório Internacional de Resiliência à Seca (IDRO), que lançou o Índice de Resiliência à Seca (DRI).
Quais são os riscos do adiamento das decisões sobre seca para as comunidades?
O adiamento das decisões globais sobre seca coloca comunidades e economias em todo o mundo em risco de sofrerem maiores impactos, como perdas agrícolas, escassez de água e deslocamentos populacionais, sem mecanismos adequados de antecipação e recuperação.
Mantenha-se informado sobre os desdobramentos das políticas climáticas e exija ações concretas dos seus representantes para um futuro mais resiliente.

