O presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre (União-AP), tem sido o pivô de um impasse significativo na tramitação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que visa pôr fim à escala de trabalho 6×1 no Brasil. A PEC 221 de 2019, que também propõe a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas e a garantia de dois dias de descanso remunerado, encontra-se retida na Mesa Diretora da Casa, sem ser despachada para a crucial Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Essa paralisação levanta questionamentos sobre as prioridades legislativas e a influência de fatores econômicos e políticos, especialmente em um ano eleitoral, gerando debates acalorados entre governistas e oposição sobre o futuro dos direitos trabalhistas no país.
A paralisação da proposta 6×1
O papel de Davi Alcolumbre e as reações no Senado
A tramitação da PEC do fim da escala 6×1 tem sido marcada pela inércia na Mesa Diretora do Senado, sob a presidência de Davi Alcolumbre. O texto, de grande impacto social e econômico, ainda não foi encaminhado à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), etapa fundamental para sua análise e deliberação. O senador Otto Alencar (PSD-BA), presidente da CCJ, confirmou não ter recebido qualquer informação sobre a data de envio da proposta à comissão, e uma reunião agendada com Alcolumbre para discutir o tema foi desmarcada unilateralmente pelo presidente do Senado. A ausência de comentários por parte da assessoria de Alcolumbre sobre o assunto tem alimentado especulações e frustrações entre os parlamentares.
Ainda no plenário, Alcolumbre havia se comprometido a discutir a tramitação da PEC em uma reunião de líderes, um encontro que, habitualmente semanal, também não foi agendado. Essa postura tem gerado pressão por parte de senadores governistas, que buscam celeridade na aprovação da medida. A PEC 221 de 2019 não apenas institui a obrigatoriedade de dois dias de descanso remunerado para os trabalhadores por semana, mas também propõe a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, pontos que representam um avanço significativo nos direitos laborais brasileiros.
O senador Veneziano Vital do Rêgo (PSB-PB) e a líder do PT no Senado, senadora Teresa Leitão (PT-PE), são algumas das vozes que publicamente cobraram a prioridade da PEC. Vital do Rêgo destacou a urgência de sua aprovação “o mais breve possível, quiçá bem antes, até o final deste mês, das conclusões do nosso primeiro semestre, no dia 17 de julho”. Teresa Leitão reiterou que o tema é uma “prioridade do país, que se pretende grande, civilizado e desenvolvido, por trabalho digno e valorização dos trabalhadores e trabalhadoras assalariados”, clamando para que o Senado priorize a PEC que institui a escala 5×2.
Estratégias e impasses políticos
Preocupações econômicas e a tramitação de PECs alternativas
A estratégia de adiar a definição sobre a PEC 221/2019 reflete preocupações subjacentes, conforme analisado pela cientista política e professora da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Luciana Santana. Segundo Santana, o adiamento se deve a inquietações sobre os potenciais impactos econômicos e a resistência, principalmente por parte dos setores empresariais, em relação à redução da jornada de trabalho. Em um ano eleitoral, a gestão do tempo de discussão de um tema com tamanha repercussão social torna-se uma prioridade para as lideranças, que preferem evitar “assumir cursos políticos imediatos”.
Estudos sobre os impactos da PEC na economia têm apresentado resultados divergentes quanto às consequências para a inflação, o Produto Interno Bruto (PIB) e o nível de emprego. A postergação da discussão sugere que Alcolumbre ainda não tomou uma decisão política definitiva sobre a tramitação, mas isso não implica uma rejeição ao mérito da proposta. Luciana Santana enfatiza que “a simples existência de apoio social não garante a tramitação. O presidente da Casa possui os instrumentos para poder definir a prioridade e o ritmo da agenda. Ele está mantendo esse tema sob o controle dele, como presidente do Senado, enquanto as negociações mais amplas continuam nos bastidores”.
Enquanto a PEC do fim da escala 6×1 permanece paralisada, Alcolumbre despachou para a CCJ uma Proposta de Emenda à Constituição alternativa, apresentada pela oposição. Essa PEC mantém a atual escala de trabalho no Brasil e permite a contratação por hora trabalhada, configurando uma linha completamente oposta à proposta original e evidenciando as polarizações no debate legislativo.
A oposição, por sua vez, apresenta visões diversas. O senador Hermes Klann (PL-SC) criticou a PEC que reduz a jornada, argumentando que a proposta “reduz a jornada de trabalho sem apresentar solução para compensar os custos dessa mudança. A conta não desaparece, alguém vai pagar. E, como sempre, quem paga é a própria população.” Em contraste, o senador Romário (PL-RJ), também da oposição, defendeu a medida, discursando na tribuna que “será sempre favorável a qualquer medida que vise a garantir mais direitos aos nossos trabalhadores”.
Prioridades legislativas em debate
Contraste na agenda do Senado: do piso dos garis ao Fundo do Pré-sal
O posicionamento de Davi Alcolumbre em relação à PEC do fim da escala 6×1 ganha um contorno ainda mais complexo quando comparado com outras iniciativas legislativas sob sua gestão. Em um momento de cobrança para pautar o projeto que estabelece um piso salarial de R$ 3 mil para garis, feita pelo senador Fabiano Contarato (PT-ES), Alcolumbre reagiu argumentando que possui “31 projetos que tratam de jornada de trabalho, que tratam de piso de remuneração de muitas categorias”. Ele alegou que não poderia ser seletivo, pois, se pautasse o projeto dos garis, teria que pautar os de outras categorias profissionais, o que seria “complexo votar projetos que aumentem gastos em ano de eleição”, pois “o que eu botar para votar, todo mundo vai votar ‘sim’ por conta da eleição, e vai ter que arrumar dez brasis para pagar”.
No entanto, em um movimento que gerou controvérsia, o Senado aprovou, sob sua condução, o Projeto de Lei (PL) 5.122/2023, que prevê o uso do Fundo Social do Pré-sal para financiar dívidas do agronegócio. Este projeto, relatado pelo senador Renan Calheiros (MDB-AL), estima um custo fiscal de R$ 140 bilhões em 10 anos. O Ministério da Fazenda havia solicitado mais tempo e alterações no PL devido ao impacto sobre os cofres públicos. Alcolumbre justificou a votação pela existência de um acordo com os senadores, afirmando que, embora respeitasse a posição do governo de cautela com matérias que impactam o orçamento, havia feito um “acordo com os senadores e senadoras, com os deputados em várias ocasiões”.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, informou que o governo tentará alterar o texto do PL 5.122/2023 na Câmara e, caso não obtenha sucesso, poderá recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF) sob o argumento de descumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal. Durigan ressaltou o objetivo de ajudar agricultores que comprovem perdas e problemas com dívidas, e não “fazer uma espécie de nova linha que atenda quem não precisa”, após a aprovação do PL no Senado.
A indefinição dos direitos trabalhistas e o jogo político no Senado
A dinâmica atual no Senado Federal, sob a presidência de Davi Alcolumbre, revela um cenário de intensa disputa política e de prioridades legislativas conflitantes. Enquanto a PEC do fim da escala 6×1, de grande apelo social e impacto nos direitos trabalhistas, permanece em compasso de espera, outras propostas, como o PL do Fundo Social do Pré-sal para o agronegócio, avançam rapidamente. Essa disparidade evidencia a complexa teia de negociações, interesses econômicos e estratégias eleitorais que moldam a agenda do legislativo. O futuro da jornada de trabalho no Brasil e a valorização dos trabalhadores permanecem em aberto, sujeitos às movimentações e decisões políticas que ocorrem nos bastidores do Congresso Nacional, gerando incerteza sobre qual será o desfecho dessas importantes discussões.
Perguntas frequentes (FAQ)
O que é a PEC que busca o fim da escala 6×1?
A PEC 221 de 2019 é uma Proposta de Emenda à Constituição que visa instituir dois dias de descanso remunerado por semana para os trabalhadores brasileiros. Além disso, propõe a redução da jornada de trabalho semanal de 44 para 40 horas, buscando melhorar as condições de trabalho e vida dos empregados.
Por que a tramitação da PEC está travada no Senado?
A tramitação da PEC está paralisada porque o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, manteve o texto na Mesa Diretora da Casa, sem despachá-lo para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). A cientista política Luciana Santana aponta que o adiamento reflete preocupações com impactos econômicos, resistência empresarial e estratégias políticas em um ano eleitoral.
Quais são os principais pontos de divergência sobre a PEC?
Os pontos de divergência giram em torno dos impactos econômicos da redução da jornada e do fim da escala 6×1. Enquanto defensores destacam os benefícios sociais e a valorização do trabalho, críticos, como o senador Hermes Klann, levantam preocupações sobre os custos para as empresas e a economia, sem uma clara indicação de quem arcará com esses valores.
Existe uma PEC alternativa sendo discutida?
Sim, uma PEC alternativa foi apresentada pela oposição e despachada para a CCJ. Essa proposta diverge significativamente da PEC 221/2019, pois busca manter a atual escala de trabalho no Brasil e permite a contratação por hora trabalhada, apresentando um caminho legislativo oposto em relação aos direitos trabalhistas.
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