O Haiti vive um momento crucial com o encerramento do mandato de dois anos do Conselho Presidencial de Transição (CPT) neste sábado, 7 de julho. A decisão ocorre sob forte influência e, em certa medida, ameaça dos Estados Unidos, que exigiram a manutenção do gabinete do primeiro-ministro Alix Didier Fils-Aimé para evitar um vácuo de poder na nação caribenha. Em cerimônia na capital Porto Príncipe, o presidente do CPT, Laurent Saint-Cyr, assegurou que a saída do Conselho do poder Executivo não deixará o país em instabilidade, prometendo continuidade através do Conselho de Ministros. Esta transição é mais um capítulo na complexa jornada política haitiana, marcada por anos de turbulência e a ausência de eleições desde 2016, com a nação buscando um caminho para a estabilidade e a democracia.
A complexa transição e o papel do CPT
A formação do Conselho e seus objetivos
Desde o assassinato do presidente Jovenel Moïse em julho de 2021, o Haiti mergulhou em um período de instabilidade política e social ainda mais profunda. A renúncia do então primeiro-ministro Ariel Henry, que esteve no poder desde a tragédia, abriu caminho para a formação do Conselho Presidencial de Transição (CPT). Empossado em abril de 2024, o CPT foi concebido como uma ponte para a normalização democrática. Composto por nove conselheiros oriundos de diversos setores da sociedade civil e política haitiana, o Conselho assumiu a árdua tarefa de preparar o terreno para eleições gerais, as quais não ocorrem no país desde 2016.
Além disso, uma de suas prioridades cruciais era a retomada do controle de vastas áreas da capital, Porto Príncipe, que haviam caído sob o domínio de gangues armadas, impondo um regime de terror à população. Durante seu breve mandato, houve discussões sobre a possível nomeação de um presidente para atuar ao lado do primeiro-ministro na liderança do Estado. Contudo, essa questão permaneceu sem consenso, refletindo as profundas divisões e os desafios inerentes à governança no Haiti, que continua a lutar contra a fragmentação do poder e a ausência de um líder legitimado pelo voto popular.
O adeus do CPT e a mensagem de continuidade
Em uma cerimônia formal em Porto Príncipe, o presidente do Conselho Presidencial de Transição, Laurent Saint-Cyr, marcou o fim do mandato da entidade. Em seu discurso, Saint-Cyr fez questão de frisar que a saída do CPT do Executivo não representa um vácuo de poder. Pelo contrário, assegurou que a continuidade da governança será garantida pelo Conselho de Ministros, sob a liderança do primeiro-ministro Alix Didier Fils-Aimé.
A mensagem de Saint-Cyr foi clara: “A palavra de ordem é segurança, diálogo político, eleições e estabilidade”. Ele expressou sua consciência tranquila e a convicção de ter tomado as decisões mais justas para o país durante o período de transição. Esta declaração busca tranquilizar uma nação exausta por crises sucessivas, sinalizando um caminho a seguir que, apesar dos desafios persistentes, busca estabelecer pilares de estabilidade para futuras administrações. O foco em segurança é vital, dada a predominância das gangues, enquanto o diálogo político e as eleições são vistos como a única rota para a legitimação de um novo governo.
Ameaça e intervenção diplomática dos Estados Unidos
A tentativa de destituição do primeiro-ministro
Às vésperas do término de seu mandato, o Conselho Presidencial de Transição (CPT) gerou um novo foco de tensão ao anunciar sua intenção de destituir o primeiro-ministro Alix Didier Fils-Aimé. Fils-Aimé havia sido nomeado pelo próprio CPT com a expectativa de conduzir o poder Executivo até as eleições prometidas, que estão previstas para ocorrer entre outubro e novembro do corrente ano.
A manobra, que visava substituir o primeiro-ministro antes da conclusão do mandato do CPT, foi interpretada por muitos como uma tentativa de último minuto de influenciar a composição do governo pós-transição. Especialistas em política haitiana apontam que o primeiro-ministro demonstrou uma capacidade de articulação que talvez não agradasse a todos os membros do Conselho, o que teria motivado a tentativa de golpe político, visando a escolha de um sucessor mais alinhado aos seus interesses e, possivelmente, mais maleável às ambições dos conselheiros que se despediam do poder.
A resposta de Washington e a Operação Lança do Sul
A iminente destituição de Alix Didier Fils-Aimé provocou uma resposta imediata e contundente do governo dos Estados Unidos. Em uma demonstração clara de sua posição, Washington enviou três navios de guerra para a Baía de Porto Príncipe: o USS Stockdale, o USCGC Stone e o USCGC Diligence. Essas embarcações chegaram como parte da “Operação Lança do Sul”, uma iniciativa que, segundo a embaixada dos EUA no Haiti, reflete o “compromisso inabalável” do país norte-americano com a segurança, a estabilidade e a construção de um futuro melhor para a nação caribenha.
A representação diplomática de Washington em Porto Príncipe foi explícita ao advertir que qualquer tentativa do CPT de alterar a composição do governo seria percebida como uma ameaça à estabilidade regional, prometendo que os EUA tomariam “as medidas adequadas em conformidade”. Essa postura firme sublinhou a determinação americana em preservar a estrutura de poder estabelecida, garantindo que o plano de transição prosseguisse conforme o esperado e sem surpresas de última hora. A presença naval americana serviu como um poderoso lembrete da influência e da capacidade de intervenção dos EUA na política haitiana.
Desafios de segurança e o caminho para eleições
A situação de segurança e a atuação das gangues
Desde o trágico assassinato do presidente Jovenel Moïse em 2021, o Haiti tem sido palco de uma escalada de violência e desordem, com gangues armadas dominando vastas áreas do país, incluindo setores estratégicos da capital Porto Príncipe. A situação de segurança tem sido o calcanhar de Aquiles para qualquer tentativa de estabilização e governança. O professor aposentado de relações internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Ricardo Seitenfus, um dos mais renomados especialistas em Haiti no Brasil, oferece uma perspectiva mais otimista.
Após uma recente visita de dez dias ao país para o lançamento de seu novo livro, Seitenfus observou melhorias significativas na segurança. Ele destacou que o governo tem conseguido retomar o controle de territórios que antes estavam sob o domínio das gangues, indicando um progresso gradual, porém notável. “Circulei por toda parte. Os bairros, pouco a pouco, estão sendo liberados das gangues, que vão, em algum momento, se refugiar em outros lugares. Isso está correndo bastante bem”, avaliou o especialista. Essa melhora, embora ainda frágil, é um passo fundamental para qualquer avanço político e social, mas a ameaça das gangues permanece um desafio constante.
Esforços internacionais e a importância das eleições
Diante da gravidade da crise de segurança, o governo haitiano tem buscado ativamente apoio internacional. Um dos passos mais significativos foi o acordo para a formação de uma missão internacional de policiais, liderada pelo Quênia, com o objetivo de auxiliar a fragilizada Polícia Nacional do Haiti. No ano passado, esse esforço ganhou ainda mais robustez com a aprovação, pelo Conselho de Segurança da ONU, da criação de uma Força Multinacional de Repressão a Gangues, que absorveu e ampliou a missão inicialmente proposta pelo Quênia.
Paralelamente, em um esforço para conter a onda de criminalidade, o governo haitiano também recorreu à contratação de mercenários estrangeiros para combater as gangues armadas, uma medida controversa, mas que reflete o desespero da situação. Para o professor Ricardo Seitenfus, embora os esforços de segurança sejam cruciais, o foco principal deve ser a realização de eleições. “Tem que ter eleição é o mais rápido possível. Porque as eleições não resolvem tudo, mas sem eleições nada será resolvido”, concluiu o analista, enfatizando que a legitimidade e a estabilidade de longo prazo do Haiti dependem diretamente de um processo democrático renovado e da voz de seu povo.
O futuro incerto da governança haitiana
O encerramento do mandato do Conselho Presidencial de Transição marca um momento decisivo na conturbada história recente do Haiti. Sob a sombra da intervenção diplomática e militar dos Estados Unidos, que assegurou a continuidade do gabinete de Alix Didier Fils-Aimé, o país tenta evitar um novo vácuo de poder. Apesar das declarações de continuidade e dos progressos na segurança, conforme observado por especialistas, os desafios persistem. A necessidade premente de realizar eleições, ausentes desde 2016, emerge como a principal demanda para restaurar a legitimidade democrática e pavimentar o caminho para a estabilidade. A comunidade internacional, através de missões de segurança e apoio, desempenha um papel crucial, mas a solução definitiva para a crise haitiana reside na capacidade de suas instituições e de seu povo de forjar um futuro mais seguro e democrático, superando as intrincadas teias da violência das gangues e da instabilidade política.
Perguntas frequentes sobre a transição haitiana
O que foi o Conselho Presidencial de Transição (CPT) do Haiti?
O CPT foi uma entidade governamental de transição formada em abril de 2024, composta por nove conselheiros. Sua missão era liderar o Haiti após a renúncia do primeiro-ministro Ariel Henry, preparando o país para eleições gerais e trabalhando para combater as gangues armadas que controlam vastas áreas do território.
Por que os Estados Unidos intervieram na transição do Haiti?
Os Estados Unidos intervieram para garantir a permanência do primeiro-ministro Alix Didier Fils-Aimé no cargo. A intervenção ocorreu após o CPT anunciar sua intenção de destituir Fils-Aimé, o que Washington considerou uma ameaça à estabilidade do Haiti e da região. Como demonstração de sua seriedade, os EUA enviaram três navios de guerra para a Baía de Porto Príncipe.
Qual a situação de segurança atual no Haiti?
A situação de segurança no Haiti tem mostrado algumas melhorias recentes. Especialistas indicam que o governo conseguiu retomar o controle de parte dos territórios que estavam sob o domínio de gangues armadas. Contudo, a violência e a atuação das gangues ainda representam um desafio significativo, e o país conta com o apoio de forças internacionais, incluindo uma missão liderada pelo Quênia e uma Força Multinacional de Repressão a Gangues aprovada pela ONU.
Quando o Haiti deve realizar novas eleições?
Após anos sem um processo eleitoral, as eleições gerais no Haiti estão atualmente previstas para ocorrer entre outubro e novembro deste ano. A realização dessas eleições é considerada crucial para restaurar a legitimidade democrática do país e estabelecer um governo eleito pelo povo, essencial para a estabilidade de longo prazo.
Para se manter atualizado sobre os desdobramentos da política e segurança no Haiti, acompanhe nossas próximas análises e reportagens.

