Cordão da Mentira e mães de Maio relembram Crimes de Maio na

0

Avenida Paulista, no coração de São Paulo, foi palco neste sábado (16) de um ato significativo que marcou os 20 anos dos Crimes de Maio. Essa série de eventos, que remonta a 2006, teve início com ataques orquestrados pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) e culminou em uma massiva retaliação policial, resultando na morte de mais de 500 pessoas em todo o estado. Muitos desses óbitos apresentavam indícios de execuções sumárias praticadas por agentes de segurança. Com um ambiente vibrante de batuque e música, a manifestação foi promovida pelo Movimento Mães de Maio e pelo Cordão da Mentira, um bloco carnavalesco com raízes na denúncia contra violações de direitos humanos. Além de clamar por justiça para as vítimas dos Crimes de Maio, o ato também se solidarizou com a causa palestina, que lamentou os 78 anos da Nakba, a catástrofe que resultou no deslocamento forçado de palestinos.

O ato na Paulista e a memória dos crimes de maio

Vinte anos de impunidade e o massacre urbano

O ato deste sábado na Avenida Paulista não foi apenas uma lembrança, mas um grito contínuo por justiça diante da impunidade que cerca os Crimes de Maio. O episódio, ocorrido em maio de 2006, é considerado um dos maiores massacres urbanos da história do Brasil, com um saldo de pelo menos 564 pessoas mortas, conforme detalhado no relatório “Análise dos Impactos dos Ataques do PCC em São Paulo em maio de 2006”, do Laboratório de Análises da Violência da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Este documento revela que 505 das vítimas eram civis e 59 agentes públicos. Grande parte dos civis mortos era composta por jovens, negros e pobres. O relatório aponta suspeitas da participação de policiais em pelo menos 122 dessas execuções, um dado que sublinha a gravidade da violência estatal e a necessidade de responsabilização.

Thiago Mendonça, diretor de cinema e um dos coordenadores do Cordão da Mentira, enfatizou a importância simbólica dos Crimes de Maio. “São mais de 500 jovens assassinados em duas semanas. Esse é um dos maiores massacres urbanos da história do país”, declarou Mendonça. Ele ressaltou ainda a presença de mais de 60 mães de vítimas de violência de todo o Brasil no cortejo deste ano, o que para ele, transforma a luta em uma questão central para a discussão do futuro do país. A ausência de responsabilizações efetivas ao longo de duas décadas mantém viva a ferida na sociedade e reforça o compromisso desses movimentos em manter a memória ativa e exigir respostas.

A gênese do cordão da mentira e as mães de maio

O Cordão da Mentira surgiu em 2012 como um cordão carnavalesco de escracho e denúncia, buscando questionar as violações de direitos promovidas pela ditadura civil-militar e as violências estatais que perduram. Tradicionalmente, o bloco desfila em 1º de abril, o “Dia da Mentira” que sucedeu o golpe de 64, para trazer à tona a memória da repressão. No entanto, em um gesto extraordinário, o Cordão decidiu ir às ruas novamente este ano, especificamente para assinalar os 20 anos dos Crimes de Maio e a contínua falta de justiça.

“Nosso cortejo é denúncia, é memória viva, é grito coletivo contra o esquecimento e a injustiça. Porque lembrar é enfrentar e ocupar as ruas e romper com a mentira”, dizia um comunicado divulgado nas redes sociais sobre o ato. Thiago Mendonça explicou a origem do Cordão: “Ele começou numa roda de samba, quando vários sambistas começaram a perceber que várias pessoas que participaram da repressão participavam de seus espaços”. Desde o seu início, o Cordão da Mentira sempre contou com a presença e a força do Movimento Mães de Maio, fundado pelas mães das vítimas dos Crimes de Maio. Mendonça as descreve como as “madrinhas do Cordão” que “puxam o ato” e estão “sempre à frente”. Para ele, as Mães de Maio representam “um dos movimentos de direitos humanos mais importantes do país”. A aliança entre o Cordão e as Mães de Maio simboliza a união da arte e da memória na luta contra a impunidade e a violência do Estado.

Conexões entre lutas: da violência de estado à solidariedade palestina

Unificação de pautas e a bala que mata em todo lugar

Este ano, o Cordão da Mentira e as Mães de Maio decidiram unificar o ato com a luta palestina, em um gesto de solidariedade internacional e de reconhecimento de pautas comuns. A manifestação também serviu para protestar contra a Catástrofe Palestina, conhecida como Nakba, que completou 78 anos e se refere ao deslocamento forçado de palestinos durante a criação do Estado de Israel. A decisão de unificar as causas reflete uma percepção de que as estruturas de repressão são interligadas. “Resolvemos unificar o ato pensando que a estrutura toda de repressão de Israel se reflete também nessa máquina de moer gente que é a polícia brasileira”, justificou Thiago Mendonça.

Débora Maria da Silva, fundadora do Movimento Mães de Maio e mãe de Edson Rogério Silva, jovem morto pela polícia durante os Crimes de Maio, esteve presente no ato e ressaltou a importância dessa conexão. “O Cordão da Mentira é a alma do Movimento Mães de Maio. É através dele que a gente consegue ter combustível para seguir a luta o ano inteiro. O Cordão nos abraça. E ele escracha o que a gente vem denunciando. Ele também serve para a gente ter consciência de que a ditadura não acabou”, afirmou Débora. Ela reforçou a solidariedade à causa palestina, traçando um paralelo doloroso: “Também estamos aqui pela causa palestina porque a bala que cai lá também cai aqui. A bala que mata lá também mata aqui, na nossa periferia”. Essa visão ampla da violência de Estado, tanto doméstica quanto internacional, fortalece o caráter universal da luta por direitos humanos e justiça.

O percurso do ato e seu significado cultural

O ato teve início em um ponto simbólico da cidade: no Parque Trianon, em frente ao Museu de Arte de São Paulo (Masp), na Avenida Paulista. De lá, os manifestantes seguiram em caminhada até o Al Janiah, um renomado restaurante e centro cultural palestino localizado na região do Bixiga, no centro da capital paulista. Este percurso, que atravessa um dos eixos mais movimentados e simbólicos de São Paulo, não apenas garantiu visibilidade à manifestação, mas também conectou geograficamente e culturalmente as pautas defendidas. A escolha do Al Janiah como ponto final reforçou a solidariedade à causa palestina e serviu como um espaço de acolhimento e continuidade para as discussões e trocas entre os participantes.

A persistência da memória e a busca por justiça

O ato na Avenida Paulista, promovido pelo Cordão da Mentira e pelas Mães de Maio, transcende a mera celebração de uma data. É uma reafirmação contundente da persistência da memória, da recusa em aceitar a impunidade e da busca incansável por justiça. Ao lembrar os 20 anos dos Crimes de Maio e ao estabelecer um elo com a luta palestina, os movimentos evidenciam que a violência estatal é um fenômeno global, cujas raízes e consequências exigem atenção e combate constantes. A união de diferentes pautas e a força do ativismo popular demonstram que a cidadania ativa e a solidariedade são ferramentas essenciais para a construção de uma sociedade mais justa e democrática, onde a história não seja esquecida e os responsáveis por crimes contra a humanidade sejam devidamente responsabilizados.

Perguntas frequentes

O que foram os Crimes de Maio?
Os Crimes de Maio referem-se a uma série de ataques do PCC e a subsequente e massiva retaliação policial que ocorreram em São Paulo em maio de 2006, resultando na morte de mais de 500 pessoas, muitas delas civis e com indícios de execução por agentes do Estado.

Qual o papel do Cordão da Mentira no ato?
O Cordão da Mentira é um bloco carnavalesco de denúncia que tradicionalmente critica a violência estatal e a impunidade. No ato, ele serviu como uma plataforma para relembrar os 20 anos dos Crimes de Maio e amplificar o grito por justiça, atuando como “memória viva” da repressão.

Por que a causa palestina foi incluída na manifestação?
Os organizadores decidiram unificar o ato com a causa palestina em solidariedade à Nakba (catástrofe palestina) e para traçar paralelos entre a estrutura de repressão israelense e a violência policial no Brasil, percebendo uma conexão entre as diferentes formas de violência de Estado.

Para saber mais sobre a luta por memória, justiça e verdade, siga os movimentos sociais engajados e participe das próximas manifestações.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

Compartilhar.
Deixe Uma Resposta

Olá vamos conversar!
Exit mobile version