A literatura brasileira ganha uma obra de profunda relevância com o lançamento de “Escreviventes”. O livro é fruto de um encontro marcante entre duas das mais proeminentes vozes contemporâneas, Conceição Evaristo e Eliana Alves Cruz. Lançado durante a 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), onde as autoras participaram de eventos que atraíram grande público, a publicação transcende a simples narrativa. “Escreviventes” mergulha em diálogos enriquecedores que abordam temas cruciais como literatura, memória, racismo, maternidade, envelhecimento e amizade. A obra ressalta como as vivências pessoais das autoras permeiam e moldam sua produção literária, oferecendo ao leitor uma visão íntima sobre o processo criativo e a profundidade de suas reflexões, consolidando seu papel vital no cenário cultural.
A gênese de Escreviventes: um diálogo sobre a vida e a arte
“Escreviventes” nasceu de uma série de conversas intensas e reveladoras entre Conceição Evaristo e Eliana Alves Cruz. Gravado ao longo de dois dias na Kaza 123, um significativo quilombo urbano situado em Vila Isabel, no Rio de Janeiro, o diálogo das autoras se transformou em um registro vivo de suas trajetórias e pensamentos. A escolha do local não foi aleatória, adicionando uma camada de profundidade e representatividade à obra, conectando a narrativa a um espaço de resistência e memória.
Os encontros exploraram uma vasta gama de temas que se entrelaçam na vida e na escrita de Evaristo e Cruz. A literatura, como campo de expressão e combate, foi um pilar central, permitindo que ambas compartilhassem suas visões sobre o fazer literário e seu impacto social. A memória, tanto individual quanto coletiva, emergiu como um território fértil, onde as autoras discutiram a importância de resgatar e preservar narrativas frequentemente marginalizadas. O racismo foi abordado com a franqueza e a dor de quem o vivencia e o denuncia através da arte, enquanto a maternidade e o envelhecimento trouxeram à tona reflexões sobre o corpo, o tempo e as transformações da vida. A amizade entre as duas, evidente em cada troca, serviu como um fio condutor que humaniza e enriquece o debate, demonstrando a força do apoio mútuo entre mulheres negras no campo intelectual. O livro, portanto, não é apenas um compêndio de ideias, mas um testemunho da capacidade das experiências vividas de se converterem em arte e reflexão.
Escrevivência: a trama entre memória, ficção e realidade
Um dos pilares conceituais do trabalho de Conceição Evaristo, e que permeia o livro “Escreviventes”, é o conceito de “escrevivência”. Esta palavra, criada pela própria autora, vai além do mero relato autobiográfico ou da recuperação de memórias. Conceição Evaristo reitera que a escrevivência envolve um processo criativo intenso, no qual a ficção e a realidade se entrelaçam de forma indissociável. Para ela, “só escreve ficção quem conhece a realidade”, uma máxima que ela atribui ao autor angolano Pepetela, ressaltando a ideia de que a vivência e o conhecimento profundo do mundo são as bases para a construção de narrativas ficcionais robustas e impactantes.
A capacidade de elaborar ficção, segundo Evaristo, advém da experiência do mundo, permitindo não apenas narrar o que se viveu, mas também ficcionalizar memórias que não são estritamente pessoais. Ela exemplifica essa ideia ao citar “Um Defeito de Cor”, romance de Ana Maria Gonçalves, que narra a saga de uma mulher africana em busca do filho perdido no Brasil. A protagonista, Kehinde, embora ficcional, é inspirada em mulheres negras reais, como a ativista Luiza Mahin, forçada a vir da África. Este processo de criar memória, de preencher lacunas históricas e emocionais através da ficção, é a essência da escrevivência. É a forma como Evaristo e outras autoras negras transformam a experiência coletiva e individual em literatura que educa, emociona e provoca reflexão, dando voz a narrativas silenciadas e construindo um legado de resistência e resiliência.
O legado da literatura negra e os desafios da representação
O lançamento de “Escreviventes” ocorre em um momento profundamente simbólico para a literatura e para as próprias autoras. Em 2026, Conceição Evaristo celebrará seus 80 anos de vida, e Eliana Alves Cruz comemorará seus 60 anos, marcando décadas de contribuições inestimáveis para a cultura brasileira. O livro, que inaugura a coleção “Memórias Brasileiras”, já se posiciona como um documento fundamental na história da literatura nacional, ao registrar e valorizar o percurso de duas escritoras negras cujas obras são essenciais para a compreensão do Brasil contemporâneo.
Conceição Evaristo destaca a importância deste registro, afirmando que a história da literatura brasileira é “devedora das mulheres escritoras, e é principalmente devedora dos escritores negros, homens e mulheres”. Esta obra busca, em parte, saldar essa dívida histórica, preenchendo lacunas e conferindo o devido reconhecimento a vozes que por muito tempo foram marginalizadas. Além do livro, o projeto “Escreviventes” se estenderá a um documentário homônimo, dirigido por Estevão Ribeiro, com previsão de estreia em festivais em 2027. Esta expansão para o formato audiovisual demonstra o desejo de ampliar o alcance da mensagem das autoras, levando suas ideias e suas histórias para diferentes plataformas e públicos, garantindo que suas vozes ressoem ainda mais longe.
A luta por visibilidade no audiovisual e o registro de vozes ancestrais
Eliana Alves Cruz enfatiza a necessidade premente de registros detalhados sobre a vida e obra de autores negros. Ela observa uma carência significativa de material sobre figuras cruciais como Lélia Gonzalez, cujo legado intelectual e ativista é imenso, mas pouco documentado em profundidade. “A gente sabe da importância , a gente celebra, tem livro publicado, mas não os registros “, ressalta Eliana, sublinhando que qualquer oportunidade de registrar essas trajetórias deve ser aproveitada. O projeto “Escreviventes”, nesse sentido, é uma iniciativa “linda, um pouco feita na garra”, que busca contrapor essa lacuna.
No entanto, a autora lamenta profundamente as dificuldades enfrentadas para que projetos relacionados à história e à memória negra sejam adaptados ao formato audiovisual. “E aqui vai um pouco um protesto, porque eu acho que não é surpresa para ninguém. Essa democratização da literatura é algo muito recente no Brasil. E muito se deve à tecnologia, à chance de ter livros, e-book. Mas, no audiovisual, a gente tem um cenário bem difícil”, declara Eliana. Sua observação aponta para uma disparidade notável: enquanto a tecnologia facilitou o acesso à literatura e a publicação de vozes diversas, o setor audiovisual ainda impõe barreiras significativas, tornando a representação da história e da cultura afro-brasileira um desafio contínuo. Essa luta por visibilidade e pelo registro fiel de suas narrativas persiste, evidenciando a necessidade de maior investimento e reconhecimento das produções que celebram e documentam a riqueza da experiência negra no Brasil.
A importância perene de Escreviventes
“Escreviventes” transcende a definição de uma mera publicação; ele se estabelece como um marco cultural e literário. A obra é um testamento vibrante da resiliência, sabedoria e potência criativa de Conceição Evaristo e Eliana Alves Cruz. Ao tecerem juntas suas experiências e reflexões, as autoras oferecem um panorama profundo e multifacetado sobre a vida, a arte e os desafios de ser mulher e negra no Brasil. O livro, e o futuro documentário, não apenas enriquecem o cânone literário, mas também provocam um diálogo essencial sobre a memória, a identidade e a luta por representatividade. Representa um passo crucial na reparação de uma dívida histórica da literatura brasileira, ao dar centralidade a vozes que moldaram e continuam a moldar a paisagem cultural e social do país. A relevância de “Escreviventes” se perpetuará, inspirando novas gerações a reconhecer a força das narrativas marginalizadas e a celebrar a riqueza da diversidade brasileira.
Perguntas frequentes
O que é o livro Escreviventes?
“Escreviventes” é um livro que surgiu de diálogos entre as autoras Conceição Evaristo e Eliana Alves Cruz. Ele aborda temas como literatura, memória, racismo, maternidade, envelhecimento e amizade, sendo um registro importante das vivências e pensamentos dessas escritoras.
Qual o conceito de “escrevivência” de Conceição Evaristo?
“Escrevivência” é um conceito criado por Conceição Evaristo que se refere à escrita que entrelaça memória e ficção. Ela não se limita a relatos autobiográficos, mas utiliza a realidade e a experiência do mundo para elaborar a ficção e até mesmo “ficcionalizar uma memória que a gente não tem”.
Por que o lançamento de Escreviventes é considerado simbólico?
O lançamento é simbólico porque antecede importantes datas comemorativas para as autoras: os 80 anos de vida de Conceição Evaristo e os 60 anos de Eliana Alves Cruz, ambos em 2026. Além disso, a obra inaugura a coleção “Memórias Brasileiras” e antecipa um documentário homônimo, reforçando seu papel no registro da literatura negra.
Quais os desafios na representação audiovisual da história e memória negra?
Eliana Alves Cruz aponta que, apesar da democratização da literatura via tecnologia, o cenário audiovisual ainda apresenta grandes dificuldades para adaptar e produzir projetos relacionados à história e à memória negra, o que gera uma carência de registros sobre figuras importantes como Lélia Gonzalez.
Conheça a profundidade e a relevância de “Escreviventes” e deixe-se tocar pelas poderosas vozes de Conceição Evaristo e Eliana Alves Cruz. Adquira o livro e fique atento ao documentário para uma experiência completa.

