Em meio a operações policiais em áreas como os complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, a retórica utilizada por governadores alinhados ao governo fluminense tem gerado debates acalorados. A criação do “Consórcio da Paz”, um projeto de integração entre estados para combater o crime organizado, é vista com ceticismo por especialistas.
O sociólogo Ignacio Cano, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), critica a escolha do nome do consórcio, considerando-o uma inversão da realidade, especialmente após uma operação que resultou em 121 mortes. “Os governadores erraram no nome. Deveria se chamar Consórcio da Morte, porque é isso que eles estão propondo. Certamente não é a paz”, afirma Cano. Ele argumenta que o termo não terá boa aceitação e que o uso constante da expressão trará à tona a lembrança do elevado número de mortes associadas a essas ações.
O “Consórcio da Paz” é composto por sete governadores, incluindo representantes de São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Goiás e Distrito Federal.
Outro ponto de controvérsia é o uso do termo “narcoterrorismo” por alguns governadores para se referir a facções criminosas. Jacqueline Muniz, antropóloga e cientista política da Universidade Federal Fluminense (UFF), considera essa terminologia um equívoco que prejudica a atuação policial e a compreensão da sociedade. “Isso, na verdade, oculta incompetências, incapacidades e oportunismos políticos”, diz Muniz. Ela argumenta que o uso do termo pode levar a um aumento de poder e recursos sem a devida prestação de contas.
Ignacio Cano também critica o uso do termo “narcoterrorismo” do ponto de vista conceitual, argumentando que o terrorismo está associado a objetivos políticos, enquanto o narcotráfico visa o lucro. A legislação brasileira classifica facções de tráfico de drogas como organizações criminosas, e o governo federal tem adotado essa postura.
A pressão internacional também influencia o debate. Governos como os da Argentina e do Paraguai já classificaram organizações criminosas brasileiras como terroristas, e os Estados Unidos sugeriram que o Brasil adotasse a mesma postura. Especialistas em segurança pública veem essa pressão como uma forma de alinhamento político com forças externas, transferindo o debate para o campo geopolítico e aumentando o risco de interferências internacionais.
Outra categoria semântica utilizada pelas autoridades é a de “guerra” contra o crime. Cientistas políticos e sociólogos são contrários a essa terminologia, devido às consequências simbólicas e materiais que ela pode gerar. “Quando você pauta o debate na ideia de guerra, você valida ações que barbarizam todo um território”, afirma Jonas Pacheco, coordenador de pesquisa da Rede de Observatórios da Segurança.
“Segurança pública é para gerar segurança, não é para matar”, complementa. Ele ressalta a importância de respeitar as normativas legais e de fiscalização para garantir a preservação da vida.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

