No próximo dia 19 de agosto, completam-se 50 anos de um dos mais notórios atos de violência política que tentaram sufocar as vozes democráticas durante a ditadura militar brasileira (1964-1985): a explosão de uma bomba na sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no centro do Rio de Janeiro. Para marcar essa data histórica e reafirmar o compromisso com a liberdade de expressão, a instituição lançou uma edição especial de seu Boletim, que se aprofunda nos detalhes do atentado e em seu contexto. O ataque de 1976 à ABI simboliza a resistência da imprensa em um período de intensa repressão e serve como um lembrete contundente da importância da vigilância contra a censura e a violência política, um tema ainda relevante para as democracias contemporâneas.
O atentado à sede da ABI em 1976
O ataque ocorreu em 19 de agosto de 1976, no sétimo andar do icônico edifício de 13 andares da ABI, localizado na Rua Araújo Porto Alegre, número 71. Este prédio, inaugurado em 1938, é considerado um marco da arquitetura moderna brasileira e, até hoje, permanece como a sede da Associação. A explosão, embora potente, não causou feridos, mas resultou em danos significativos à estrutura.
Os danos e a repercussão imediata
A bomba destruiu completamente dois banheiros localizados próximos à sala da presidência da entidade, que à época era ocupada pelo jornalista Barbosa Lima Sobrinho. Além disso, houve estragos consideráveis em salas vizinhas, no sistema de elevadores e em outros dois andares do edifício. A publicação especial elaborada pela Associação, editada pelo conselheiro Geraldo Cantarino, resgata fotografias da época que ilustram a extensão da destruição, oferecendo uma visão visceral do impacto do atentado.
Para aprofundar a narrativa e o entendimento desse episódio, a publicação foi fundamentada em documentos históricos e relatórios antes confidenciais. Uma das principais fontes foi a edição de julho-agosto de 1976 do Boletim da ABI, divulgada logo após o evento. Além disso, a Associação teve acesso a documentos produzidos pelos próprios órgãos de informação da ditadura militar, como um informe confidencial do Serviço Nacional de Informações (SNI) de setembro de 1976, disponibilizado pelo projeto Memórias Reveladas, do Arquivo Nacional. A análise desses registros do SNI revela um impressionante grau de detalhamento sobre as atividades, reuniões e movimentações da entidade, dimensionando o vasto aparato de vigilância política que operava durante aquele período.
Contexto político e a autoria do atentado
O atentado à sede da Associação Brasileira de Imprensa não pode ser compreendido isoladamente. Ele foi um ato inserido em um contexto de crescente tensão e violência política no Brasil, em que a ditadura militar se confrontava com movimentos que clamavam por maior abertura e liberdade. A ABI, como instituição centenária e defensora ferrenha da liberdade de imprensa e dos direitos humanos, naturalmente se tornou um alvo para os setores mais radicais do regime e grupos paramilitares.
A Aliança Anticomunista Brasileira e a “primeira advertência”
A autoria do atentado foi assumida pelo grupo paramilitar de extrema-direita Aliança Anticomunista Brasileira (AAB). Em um panfleto deixado no prédio após a explosão, a organização acusava a Associação de estar “totalmente dominada pelos comunistas” e declarava que a entidade havia sido escolhida para receber a “primeira advertência”. Segundo o atual presidente da Associação, Octávio Costa, a ABI, “ao defender a liberdade de imprensa, os direitos humanos e a livre manifestação do pensamento, tornou-se também alvo da intolerância de grupos radicais de extrema-direita, contrários aos incipientes movimentos de abertura política – a chamada ‘distensão’ do regime ditatorial”.
À época do ataque, a instituição contava com figuras proeminentes no jornalismo e na defesa das liberdades democráticas, como o presidente Barbosa Lima Sobrinho e membros influentes como Alberto Dines, Maurício Azêdo, Marcelo Beraba e Odylo Costa Filho. A atuação desses indivíduos e da entidade como um todo representava um contraponto significativo ao autoritarismo vigente, o que a tornava um símbolo de resistência e, consequentemente, um alvo prioritário.
Uma onda de terror contra a “distensão”
O ataque à sede da Associação Brasileira de Imprensa, há 50 anos, foi apenas um episódio dentro de uma série de ações violentas e de intimidação política que buscavam frear qualquer avanço das liberdades democráticas. A lógica por trás desses atentados era clara: intimidar vozes críticas e impedir a “distensão” política, uma abertura “lenta, gradual e segura” que havia sido proposta pelo general Ernesto Geisel, então presidente da República, a partir de 1974.
Outros alvos e a impunidade dos agressores
No mesmo dia do atentado à ABI, outra bomba, atribuída à mesma organização clandestina, foi colocada na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), também no Rio de Janeiro. Felizmente, este artefato não explodiu devido a uma falha no mecanismo de detonação, poupando a instituição de um destino similar ao da Associação Brasileira de Imprensa. A onda de terrorismo prosseguiu nos dias seguintes. Em 20 de agosto, duas bombas do tipo coquetel molotov foram arremessadas de madrugada na 1ª Auditoria da 3ª Circunscrição Militar de Porto Alegre, causando um princípio de incêndio. Cerca de duas semanas depois, em 4 de setembro de 1976, uma bomba de fabricação caseira explodiu durante a madrugada no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), em São Paulo, outra instituição ligada ao pensamento crítico e à análise social.
Os registros da época corroboram a intensidade dessa campanha de intimidação. O Jornal do Brasil, um dos periódicos mais importantes do país naqueles anos, noticiou que, entre agosto e novembro de 1976, ocorreram nove atentados terroristas no Rio de Janeiro, sendo que oito deles foram assumidos pela AAB. Apesar da existência de um sofisticado aparato de inteligência e repressão por parte do Estado, os autores desses ataques jamais foram identificados e responsabilizados, o que sugere, para muitos historiadores e analistas, uma possível omissão ou até mesmo conivência das autoridades com os grupos de extrema-direita.
Legado de resistência e a memória ativa da ABI
A memória do atentado à Associação Brasileira de Imprensa permanece viva e serve como um marco importante na história da luta pela democracia no Brasil. Para garantir que esse episódio não seja esquecido e que suas lições sejam perpetuadas, a Associação realizará um ato solene no próximo dia 19 de agosto, às 17h, no sétimo andar de seu prédio-sede. Durante a cerimônia, será descerrada uma placa com uma frase de repúdio ao terrorismo e de valorização da democracia, reforçando o compromisso inabalável da entidade com os princípios democráticos. O presidente da Associação, Octávio Costa, conclui com a afirmação de que “a Casa do Jornalista permanecerá vigilante diante de qualquer ameaça ao Estado Democrático de Direito”, ecoando a resiliência e a responsabilidade histórica da instituição em defender as liberdades fundamentais.
Perguntas frequentes
O que a ABI representa no contexto do atentado de 1976?
A Associação Brasileira de Imprensa representava um bastião da liberdade de imprensa e dos direitos humanos, tornando-se um alvo de grupos radicais de extrema-direita que buscavam calar vozes democráticas e impedir a abertura política durante a ditadura militar.
Quem foram os responsáveis pelo atentado à sede da ABI?
A Aliança Anticomunista Brasileira (AAB), um grupo paramilitar de extrema-direita, assumiu a autoria do atentado, alegando que a Associação estava “dominada pelos comunistas”.
Houve outras ações semelhantes à época?
Sim, o atentado à ABI foi parte de uma onda de terrorismo. No mesmo dia, a OAB no Rio de Janeiro foi alvo de uma bomba que falhou. Outros ataques ocorreram em Porto Alegre (1ª Auditoria da 3ª Circunscrição Militar) e em São Paulo (Cebrap) no mesmo período de 1976.
Para aprofundar seu entendimento sobre a luta pela liberdade de imprensa no Brasil e o papel da ABI em momentos críticos da história, explore as publicações históricas da instituição e participe das discussões sobre a memória e o futuro da democracia.

