A rede municipal de ensino do Rio de Janeiro embarca em uma iniciativa transformadora, visando integrar a literatura indígena e o vasto conhecimento dos povos originários em seu ambiente educacional. Os projetos “Lá Vem História” e “Formação Antirracista”, sob o tema “O Futuro é Agora”, retornam à cidade para enriquecer a experiência pedagógica de milhares de estudantes. A estreia ocorreu nesta quinta-feira, na Escola Municipal Barão de Itacurussá, na Tijuca, marcando o início de um percurso ambicioso que contemplará mais de cinco mil alunos em 28 instituições de ensino da capital fluminense. Esta ação busca não apenas a valorização da cultura ancestral, mas também a formação de uma nova geração mais consciente e respeitosa com a diversidade e as profundas raízes históricas do Brasil, ampliando significativamente os horizontes educacionais através da riqueza das narrativas dos povos originários.
A força da narrativa ancestral na formação escolar
A proposta central dos projetos “Lá Vem História” e “Formação Antirracista” é forjar um novo caminho educacional, onde a riqueza das culturas e os saberes dos povos originários sejam pilares fundamentais na formação de crianças e jovens. O projeto “Lá Vem História”, agora em seu terceiro ano de atividades, transcende a mera introdução de livros, promovendo uma imersão cultural por meio de experiências artísticas multifacetadas, que ocorrem tanto dentro quanto fora do ambiente escolar. Parte essencial dessa iniciativa é a ampliação dos acervos das bibliotecas municipais, com a doação de obras infantis de autores indígenas consagrados. Entre os nomes que enriquecerão as estantes das escolas estão Daniel Munduruku, um dos mais prolíficos escritores indígenas do Brasil, conhecido por sua habilidade em traduzir os mitos e a sabedoria de seu povo para o universo infantil; Yaguarê Yamã, cujas histórias encantam pela conexão com a natureza e a cultura amazônica; e Eliane Potiguara, uma pioneira na literatura indígena brasileira, que aborda temas de ancestralidade e resistência com profunda sensibilidade. A previsão para o ano de 2026 é a distribuição de 600 novos livros, garantindo que o acesso a essas narrativas seja amplo e contínuo.
Ampliando horizontes e promovendo o respeito
Para além da doação de livros, o programa “Lá Vem História” incorpora uma série de atividades complementares projetadas para tornar o aprendizado vibrante e interativo. Mediações de leitura estimulam a compreensão e a reflexão sobre os textos, enquanto oficinas de artes visuais, teatro, música e dança são inspiradas diretamente em referências culturais indígenas. Personalidades como Ailton Krenak, renomado pensador, líder indígena e ambientalista, e Antonio Bispo, filósofo e quilombola, servem de inspiração para a concepção dessas oficinas, conectando a teoria à prática e promovendo uma vivência cultural profunda. A coordenadora e idealizadora do projeto, Lêda Fonseca, enfatiza o compromisso com a formação humana e cultural das crianças. Segundo Fonseca, o livro infantil possui uma força singular ao falar diretamente com a imaginação dos pequenos, permitindo-lhes explorar outros mundos e perspectivas sem a formalidade de uma aula tradicional. “Ela vive a experiência da história, das imagens, da linguagem poética, e, muitas vezes, é aí que nasce o interesse, a curiosidade e o desejo por conhecer mais, saber mais sobre o mundo, sobre as pessoas”, destaca Fonseca.
A apresentação da literatura indígena às novas gerações é percebida como uma ferramenta essencial para a ampliação de horizontes e o fomento de valores cruciais como o respeito à natureza, o diálogo e o cuidado. Nos saberes originários, a arte, a natureza e a vida cotidiana são elementos indissociáveis. Ao levar a literatura em conjunto com a música, o teatro, a dança e as artes visuais, a iniciativa busca criar uma experiência de aprendizado holística e completa. As crianças não apenas escutam histórias, mas também cantam, dançam, desenham, encenam e experimentam, tornando o processo educacional muito mais vivo e significativo. O projeto “Formação Antirracista”, por sua vez, atua como um pilar complementar, fornecendo o arcabouço teórico e prático para que alunos e educadores possam desconstruir preconceitos e entender a importância da diversidade étnico-racial no contexto brasileiro, promovendo uma educação verdadeiramente inclusiva e equitativa.
Parceria universitária e o papel dos mediadores de leitura
Esta edição dos projetos também celebra um marco importante: dois anos de uma frutuosa parceria entre a iniciativa e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Essa colaboração é fundamental para a sustentabilidade e a excelência das atividades, concentrando-se na formação de mediadores de leitura capacitados para atuar diretamente nas escolas públicas municipais. Atualmente, 22 bolsistas universitários são selecionados e treinados para essa função crucial. Eles recebem uma bolsa mensal de R$ 1 mil, um incentivo importante que reconhece o valor de seu trabalho e lhes permite dedicação plena às atividades.
Cultivando novos leitores e multiplicadores de conhecimento
Os mediadores de leitura são a ponte entre as histórias e as crianças, desempenhando um papel vital na construção de um ambiente literário rico e estimulante. Sua atuação se estende desde a educação infantil até o quinto ano do ensino fundamental, abrangendo as fases mais formativas da vida escolar. Com visitas programadas duas vezes por semana a cada escola contemplada, esses bolsistas conduzem rodas de leitura, contação de histórias, jogos e outras atividades interativas que promovem o engajamento com os livros e a cultura indígena. A capacitação oferecida pela UFRJ dota esses mediadores de ferramentas pedagógicas e conhecimentos aprofundados sobre a literatura e a cultura dos povos originários, garantindo que as atividades sejam conduzidas com sensibilidade e competência. Eles não apenas leem para as crianças, mas as inspiram a explorar, questionar e se conectar com as narrativas de forma autônoma e prazerosa. Essa interação regular com figuras jovens e engajadas no universo da leitura cria um modelo positivo e estimula a curiosidade, transformando o ato de ler em uma aventura. A parceria universitária não só beneficia as crianças e as escolas, mas também oferece aos bolsistas uma experiência prática valiosa, conectando o saber acadêmico com a realidade social e educacional, formando futuros profissionais mais conscientes e preparados para atuar em diversas áreas.
Conclusão
A integração da literatura e dos conhecimentos indígenas na rede municipal de ensino do Rio de Janeiro representa um avanço significativo para a educação brasileira. Por meio dos projetos “Lá Vem História” e “Formação Antirracista”, milhares de crianças estão sendo expostas a um universo de narrativas e saberes que historicamente foram marginalizados. Essa iniciativa não apenas enriquece o acervo bibliográfico e cultural das escolas, mas também fomenta o respeito à diversidade, a desconstrução de preconceitos e a valorização das raízes ancestrais do país. A parceria com a UFRJ, ao formar mediadores de leitura dedicados, assegura que o impacto desses projetos seja profundo e duradouro, cultivando uma nova geração de leitores conscientes e cidadãos mais engajados com a cultura e a história do Brasil. O tema “O Futuro é Agora” ressoa com a urgência de construir uma sociedade mais justa e inclusiva, começando pela educação de suas crianças.
Perguntas frequentes
Qual o principal objetivo dos projetos “Lá Vem História” e “Formação Antirracista”?
Os projetos visam levar a literatura produzida por autores indígenas e a valorização dos conhecimentos e das culturas dos povos originários para as escolas da rede municipal de ensino do Rio de Janeiro, promovendo uma formação cultural e antirracista.
Quantas escolas e alunos serão beneficiados com esta iniciativa?
Mais de cinco mil estudantes de 28 escolas da rede municipal do Rio de Janeiro serão contemplados pelos projetos.
Como a literatura indígena contribui para a formação das crianças?
A literatura indígena expande a imaginação das crianças, permite que elas conheçam outras perspectivas de mundo de forma não formal, e estimula o interesse, a curiosidade e o desejo por novos conhecimentos. Ela também ensina valores como o respeito à natureza, ao diálogo e ao cuidado, integrando arte, natureza e vida cotidiana.
Qual o papel da parceria com a UFRJ nos projetos?
A parceria com a UFRJ é fundamental para a formação de mediadores de leitura. 22 bolsistas universitários são treinados para conduzir atividades literárias e culturais nas escolas, atuando como ponte entre as histórias e as crianças, do ensino infantil ao quinto ano.
Conheça mais sobre a riqueza das culturas originárias e explore as obras de grandes autores indígenas. Sua leitura contribui para a valorização de um legado cultural inestimável e para a construção de um futuro mais justo e consciente.

