Luto no candomblé: Luiz Bangbala, ogan mais antigo, morre Aos 106 anos

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O Brasil se despede de uma de suas mais emblemáticas figuras religiosas e culturais. Luiz Ângelo da Silva, conhecido carinhosamente como Ogan Bangbala, o ogan mais antigo do país, faleceu no último domingo (15) no Rio de Janeiro, aos 106 anos de idade. Sua partida encerra mais de oito décadas de dedicação ininterrupta ao candomblé, deixando um legado imensurável para a religiosidade e a identidade afro-brasileira. A notícia de seu falecimento, após internação por infecção renal no Hospital Municipal Salgado Filho desde 31 de janeiro, ecoou profundamente na comunidade religiosa e cultural, marcando o fim de uma era de sabedoria, ritmo e tradição encarnadas em um único homem. Seu corpo foi sepultado no Cemitério Jardim Mesquita, na Baixada Fluminense, nesta terça-feira (17), em uma cerimônia que reuniu devotos e admiradores de sua vasta contribuição.

A trajetória de um mestre

Das origens à vocação religiosa

Nascido como Luiz Ângelo da Silva em 21 de junho de 1919, na cidade de Salvador, Bahia, Ogan Bangbala trazia em sua essência as raízes profundas da cultura afro-brasileira. Foi na capital baiana que, ainda jovem, iniciou sua jornada no Candomblé, sendo consagrado como ogan. A função de ogan, um título de grande prestígio e responsabilidade dentro das casas de Candomblé, é fundamental para a condução dos rituais. O ogan é o músico responsável por tocar os atabaques, instrumentos de percussão sagrados, e por comandar o ritmo das cerimônias de recepção dos orixás. Sua maestria não se limita apenas à técnica musical; ele é o guardião dos toques específicos para cada divindade, da cadência que invoca e acalma, e da energia que move os fiéis durante as celebrações. Bangbala, com sua longevidade e dedicação, personificou essa vocação, tornando-se uma referência viva da tradição oral e musical do candomblé. Sua experiência e sabedoria eram incomparáveis, e sua presença nos terreiros era sinônimo de autenticidade e profundo conhecimento dos ritos. Posteriormente, ainda jovem, ele se mudou para a cidade de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, onde viveu e exerceu sua fé com paixão e comprometimento até o fim de seus dias.

Legado musical e cultural

A contribuição de Ogan Bangbala transcendeu os limites dos terreiros. Sua influência se estendeu amplamente pela cultura afro-brasileira, especialmente no Rio de Janeiro. Ele foi um dos fundadores do afoxé Filhos de Gandhy no Rio de Janeiro, uma manifestação cultural que une elementos do candomblé com a tradição dos blocos carnavalescos, promovendo a cultura africana e a religiosidade afro-brasileira em espaços públicos. A fundação de um afoxé tão importante demonstra seu engajamento ativo na difusão e valorização de suas raízes. Além disso, a voz e o toque de Bangbala foram eternizados em dezenas de álbuns de cânticos de candomblé, gravados em língua iorubá. Esses registros fonográficos são de valor inestimável, não apenas como expressões artísticas, mas como importantes documentos etnográficos e históricos. Eles servem para preservar a riqueza dos cânticos tradicionais, garantindo que as futuras gerações de praticantes e estudiosos do candomblé possam ter acesso à pureza e à originalidade dos toques e rezas. Sua discografia representa um elo vital com o passado, mantendo viva a memória ancestral e a complexidade rítmica e poética da tradição iorubá no Brasil.

Reconhecimento e despedida

Honrarias e homenagens

A relevância de Ogan Bangbala para a cultura nacional foi amplamente reconhecida. Em 2014, ele recebeu a prestigiada Ordem do Mérito Cultural, uma comenda concedida pela Presidência da República do Brasil a personalidades e instituições que se destacam por suas contribuições ao desenvolvimento cultural do país. Esta honraria sublinhou o status de Bangbala não apenas como um líder religioso, mas como um tesouro cultural vivo. Suas contribuições também foram celebradas em outros palcos: em 2020, foi homenageado pela escola de samba Unidos do Cabuçu, que dedicou parte de seu desfile à sua vida e legado, levando sua história e a do candomblé para a Avenida. Mais recentemente, em 2024, sua vida e obra foram tema de uma exposição organizada pelo Centro Cultural Correios, evidenciando a perenidade de sua influência e a importância de seu testemunho para a história e a arte brasileiras. Essas homenagens são um testamento da sua capacidade de transcender barreiras, levando a riqueza da cultura afro-brasileira e do candomblé a públicos diversos e ampliando o reconhecimento de sua importância.

O adeus e a perspectiva da ancestralidade

A notícia do falecimento de Ogan Bangbala foi comunicada por sua esposa, Maria Moreira, em uma emocionante mensagem nas redes sociais. “Hoje o candomblé perdeu uma das figuras mais importantes, o Comendador Ogan Bangbala, o mais velho ogan do Brasil, o mestre dos mestres. Meu coração sangra de tanta dor, vá em paz meu amor, meu orgulho, meu mestre”, escreveu a viúva, expressando a profunda dor e o respeito por sua figura. A comunidade do candomblé e os admiradores de sua trajetória também se manifestaram. O babalorixá Ivanir dos Santos, uma das vozes mais respeitadas do movimento negro e religioso no Brasil, definiu Ogan Bangbala como “o grande griot das nossas tradições, não só dos ritos dos orixás, mas também dos ritos fúnebres”. O termo “griot”, de origem africana, designa os contadores de histórias, poetas, músicos e guardiões da memória e da história oral de seus povos. Para Santos, a partida de Bangbala não representa um fim, mas uma transformação: “Ele nos deixou, mas vai sempre continuar presente aos nossos afazeres, no dia-a-dia dessas práticas. Agora ele também é um ancestral nosso. Que continua nos iluminando e sendo presente nas nossas ações dentro das casas de candomblé, dos blocos afros, dentro dessa cultura tão vasta que marca a identidade do povo afro-brasileiro”. Essa perspectiva ressalta a crença na imortalidade espiritual e na perpetuação da influência dos grandes mestres, que, mesmo após a morte física, continuam a guiar e inspirar sua comunidade.

A imortalidade de um ancestral

A partida de Ogan Bangbala deixa um vazio inegável no cenário religioso e cultural do Brasil, mas seu legado é robusto demais para ser contido pelo fim da vida física. Ele não foi apenas o ogan mais antigo do país; foi um elo vivo com as tradições ancestrais africanas, um guardião incansável do ritmo e da fé, e um propagador da rica identidade afro-brasileira. Suas gravações, suas fundações culturais e as inúmeras homenagens que recebeu são testemunhos da profunda marca que deixou em gerações de brasileiros. Bangbala transcendeu o papel de líder religioso para se tornar um ícone cultural, um griot que narrou a história de seu povo através do som dos atabaques e da sabedoria de sua existência. Sua vida centenária é um exemplo de devoção, resiliência e a força da fé que continua a ecoar, inspirando e iluminando o caminho daqueles que preservam e celebram a essência da cultura afro-brasileira.

Perguntas frequentes sobre Ogan Bangbala

1. Quem foi Ogan Bangbala?
Ogan Bangbala, cujo nome de batismo era Luiz Ângelo da Silva, foi uma das figuras mais proeminentes do Candomblé no Brasil. Nascido em Salvador (BA) em 1919, ele foi reconhecido como o ogan mais antigo do país, dedicando mais de oito décadas de sua vida à religião e à cultura afro-brasileira.

2. Qual a importância de um ogan no candomblé?
No candomblé, o ogan é um membro de grande respeito, responsável por tocar os atabaques durante as cerimônias religiosas. Ele comanda o ritmo e os toques específicos que invocam e saúdam os orixás, sendo fundamental para a condução dos rituais e a manutenção da tradição musical e espiritual.

3. Que honrarias Ogan Bangbala recebeu em vida?
Ogan Bangbala recebeu diversas honrarias, destacando-se a Ordem do Mérito Cultural, concedida pela Presidência da República em 2014. Ele também foi homenageado pela escola de samba Unidos do Cabuçu em 2020 e foi tema de uma exposição no Centro Cultural Correios em 2024, atestando sua relevância cultural.

Para aprofundar-se na rica tapeçaria da cultura afro-brasileira e compreender o impacto de figuras como Ogan Bangbala, continue explorando o legado desses importantes guardiões da tradição.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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