Mulheres de minorias raciais praticam menos atividade física no lazer

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Um estudo longitudinal pioneiro revela que mulheres de minorias raciais, incluindo pretas, pardas, amarelas e indígenas, com menor nível de escolaridade, são as que menos praticam atividade física no lazer. A pesquisa, que acompanhou um grupo de quase mil indivíduos ao longo de uma década, evidencia que o acesso ao exercício físico recreativo é, em grande parte, um privilégio de grupos socialmente mais favorecidos, como homens brancos com maior grau de instrução. Embora a prática de atividade física tenha aumentado na população paulistana entre 2014 e 2024, este crescimento beneficiou desproporcionalmente os segmentos mais abastados, aprofundando as desigualdades existentes. Este cenário complexo aponta para barreiras sistêmicas que vão além da escolha individual.

As raízes da desigualdade na atividade física

A prática de atividade física durante o tempo livre, essencial para a saúde e o bem-estar, não é distribuída de forma equitativa na sociedade. A pesquisa em questão, conduzida por especialistas, demonstrou cientificamente que fatores socioeconômicos e raciais são determinantes na frequência com que indivíduos se engajam em exercícios recreativos. Durante um período de dez anos, o acompanhamento de um grupo representativo da população revelou que a capacidade de destinar tempo e recursos para atividades físicas é fortemente influenciada pela posição social.

O cenário de uma década em São Paulo

Entre 2014 e 2024, a cidade de São Paulo observou um aumento geral na adesão à atividade física. No entanto, o estudo meticuloso aponta para uma dinâmica preocupante: esse incremento foi significativamente mais acentuado entre os grupos já considerados socialmente favorecidos. Isso significa que, em vez de diminuir, o abismo entre aqueles que podem se exercitar no lazer e aqueles que não podem se expandiu. A persistência e até mesmo o agravamento dessas desigualdades ao longo de uma década são um alerta para a necessidade de abordagens mais inclusivas. Uma pesquisadora envolvida no estudo, especialista em nutrição, enfatiza que a atividade física não é meramente uma escolha pessoal; ela reflete as intrínsecas desigualdades sociais. A prática de exercícios no lazer, ela explica, depende fundamentalmente de ter tempo livre, acesso a locais apropriados e seguros, recursos financeiros e, crucialmente, oportunidades concretas para se exercitar. Quando esses pré-requisitos não são atendidos, a barreira para a participação se torna intransponível para muitos.

Gênero, acesso e o papel das políticas públicas

Além das disparidades socioeconômicas e raciais, a questão de gênero emerge como um fator preponderante na determinação dos níveis de atividade física no tempo livre. As mulheres, em particular aquelas de minorias raciais e com menor escolaridade, enfrentam desafios adicionais que limitam drasticamente sua capacidade de se dedicar a atividades de lazer.

A jornada tripla e o desafio do tempo livre

Um dos resultados mais contundentes do estudo destaca a sobrecarga imposta às mulheres por múltiplas responsabilidades. A acumulação de jornadas duplas ou até triplas de trabalho, que incluem o emprego remunerado, o cuidado com o lar e a criação dos filhos, consome a maior parte do seu tempo disponível. Essa carga desproporcional reduz drasticamente o tempo livre das mulheres, inviabilizando a prática regular de atividade física recreativa. Para muitas, o lazer é um luxo inatingível, e o tempo dedicado a si mesmas é constantemente sacrificado em função de outras prioridades. Esta realidade sublinha como o papel social atribuído às mulheres as coloca em desvantagem no que diz respeito à saúde e bem-estar.

A necessidade de espaços seguros e acessíveis

A desigualdade também se manifesta no acesso a espaços públicos adequados para a prática de exercícios físicos. Regiões mais vulneráveis da cidade frequentemente carecem de infraestrutura de qualidade, como parques bem cuidados, academias ao ar livre seguras ou centros esportivos acessíveis. Mesmo quando existem, a segurança desses locais pode ser uma preocupação, especialmente para mulheres, que muitas vezes enfrentam barreiras adicionais relacionadas ao assédio e à violência em espaços públicos. A pesquisadora ressalta que as políticas públicas têm um papel crucial na mitigação desse abismo. Ela defende que o acesso a espaços seguros e gratuitos para a prática de atividade física é fundamental para reduzir as desigualdades. É imperativo que tais locais estejam presentes, e sejam bem mantidos e acessíveis, principalmente nas áreas mais carentes da cidade, atendendo não apenas às mulheres, mas também aos idosos e a outras populações desfavorecidas. A existência de uma infraestrutura que contemple as necessidades específicas desses grupos é um passo essencial para promover a equidade em saúde.

Atividade física por necessidade versus lazer

Os dados da pesquisa também revelam uma nuance importante ao analisar a prática de exercício físico associada ao transporte urbano. Quando a atividade física se manifesta na forma de caminhadas para deslocamento, a diferença entre os grupos sociais é menos pronunciada. No entanto, esta aparente similaridade esconde uma distinção fundamental: para os grupos socialmente mais desfavorecidos, caminhar para se locomover não é uma escolha consciente para promover a saúde ou o lazer. É, em vez disso, uma necessidade imposta pela falta de acesso a transporte público eficiente ou pela inviabilidade de outros meios de mobilidade urbana. Contrastando com grupos mais privilegiados que podem optar por caminhadas recreativas ou usar a bicicleta como parte de um estilo de vida saudável, para muitos, essa “atividade física” é uma consequência da carência e não uma expressão de autonomia ou bem-estar. Essa distinção ressalta a importância de entender o contexto por trás das práticas de atividade física para desenvolver intervenções eficazes.

A busca por equidade na atividade física

Os resultados deste estudo fornecem uma análise profunda e multifacetada das desigualdades que permeiam a prática de atividade física no lazer. Eles reforçam que a saúde e o bem-estar não são meras responsabilidades individuais, mas reflexos complexos das estruturas sociais, econômicas e de gênero. A pesquisa destaca que, apesar de um aumento geral na atividade física na última década, as disparidades persistiram e se acentuaram, particularmente para mulheres de minorias raciais com baixa escolaridade. A compreensão de que fatores como tempo livre, acesso a espaços seguros, recursos financeiros e oportunidades são pilares para a prática regular de exercícios é vital. Diante desse cenário, a necessidade de políticas públicas abrangentes e inclusivas, que visem democratizar o acesso à atividade física e mitigar as barreiras sistêmicas, torna-se uma prioridade inadiável para a promoção de uma sociedade mais justa e saudável.

Perguntas frequentes (FAQ)

Qual é a principal conclusão do estudo sobre a atividade física?
A principal conclusão é que mulheres de minorias raciais, com baixa escolaridade, são as que menos praticam atividade física no tempo livre, evidenciando que o exercício no lazer é um privilégio de grupos socialmente mais favorecidos, como homens brancos com maior escolaridade.

Quais fatores contribuem para a desigualdade na prática de atividade física?
Diversos fatores contribuem, incluindo a falta de tempo livre, o acesso limitado a espaços adequados e seguros para exercícios, a escassez de recursos financeiros e a falta de oportunidades. Questões de gênero, como jornadas de trabalho duplas ou triplas para mulheres, também são determinantes.

Que papel as políticas públicas podem desempenhar para reduzir essas desigualdades?
Políticas públicas eficazes podem reduzir essas desigualdades garantindo o acesso a espaços seguros e gratuitos para a prática de atividade física, especialmente em regiões mais vulneráveis. É crucial que esses espaços sejam bem cuidados e acessíveis para mulheres, idosos e populações desfavorecidas.

Como a atividade física ligada ao transporte se diferencia da atividade física de lazer?
Para grupos desfavorecidos, a atividade física associada ao transporte (como caminhadas para o trabalho) é frequentemente uma necessidade devido à falta de acesso a outros meios de transporte, e não uma escolha para promover a saúde ou o lazer, como pode ser para grupos mais privilegiados.

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Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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