Obras em hospital municipal de SP geram alertas de riscos à saúde

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As obras em andamento no Hospital do Servidor Público Municipal (HSPM), na capital paulista, têm sido alvo de intensas denúncias sobre a falta de segurança e os potenciais riscos à saúde de pacientes e trabalhadores. A situação, que já perdura por meses, é grave e preocupa a representação dos empregados, que aponta para intervenções realizadas “sem as proteções necessárias”. Entre as irregularidades destacadas, está o isolamento precário de áreas críticas, como o centro cirúrgico, delimitadas apenas por plástico preto e fita crepe. A prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal da Saúde (SMS), reconhece as obras como parte de um plano de modernização, mas as contestações indicam falhas significativas nos protocolos de segurança e gerenciamento de riscos, colocando em xeque a integridade do ambiente hospitalar.

As denúncias e a falta de segurança nas obras

As reclamações sobre as condições das obras no Hospital do Servidor Público Municipal (HSPM) são contundentes e revelam uma série de deficiências que comprometem a segurança no ambiente hospitalar. A representação dos trabalhadores tem reiterado que a segurança e o gerenciamento de riscos ocupacionais não estão sendo adequadamente considerados em pelo menos nove intervenções simultâneas nas instalações do hospital. A entidade enfatiza que o diálogo com os trabalhadores e a pactuação de cronogramas ou ajustes nos fluxos assistenciais foram ignorados, contrariando inclusive as normas internas da própria instituição.

Isolamento inadequado e descumprimento de normas

A principal evidência da precariedade é o isolamento de áreas sensíveis. A obra iniciada no meio do centro cirúrgico, por exemplo, permanece delimitada apenas por plásticos pretos presos com fita crepe, uma situação que persiste meses após a primeira denúncia. A secretária de trabalhadores da saúde de uma entidade sindical comparou a situação do HSPM com a de hospitais privados, onde, segundo ela, um empreendimento que tocasse obras dessa maneira “estaria fechado”. Em hospitais do setor privado, os planos de contingência para obras incluem o deslocamento de setores inteiros para espaços alternativos, permitindo a reforma completa e segura antes do retorno. A ausência de um plano de contingência bem estruturado no HSPM é um ponto de crítica fundamental, especialmente por realizar múltiplas intervenções de uma só vez.

As normas técnicas são claras sobre como reformas devem ser conduzidas em unidades de saúde. A Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) 50/2002 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) estabelece requisitos rigorosos para planejamento e execução de projetos em Estabelecimentos Assistenciais de Saúde (EAS). Especificamente em salas de cirurgia, a Norma Brasileira Regulamentadora (NBR-7256, da ABNT), citada na RDC da Anvisa, exige barreiras herméticas para isolamento. A falta dessas barreiras adequadas e a desorganização em relação à agenda de procedimentos podem contaminar o ambiente, superfícies e materiais estéreis, elevando drasticamente o risco de infecções hospitalares.

Riscos de contaminação e impacto na saúde

Os riscos à saúde decorrentes das obras mal planejadas no HSPM são multifacetados e potencialmente graves. A poeira gerada pela construção é um dos principais vetores de contaminação, podendo causar problemas respiratórios sérios e aumentar a suscetibilidade a infecções. O uso de materiais e técnicas inadequadas na contenção do pó agrava a situação, já que o instrumental hospitalar prevê alternativas como o uso de drywall em determinados setores ou serras elétricas com sistemas de água para reduzir a dispersão de partículas. No entanto, a realidade observada é de plásticos, madeirite e fita crepe.

Poeira, fungos e problemas respiratórios

A denúncia detalha que a poeira no ambiente hospitalar pode carregar o Aspergillus, um gênero de fungo amplamente presente no ambiente. A inalação dos esporos desse fungo pode levar a infecções respiratórias graves, conhecidas como aspergilose. O Ministério da Saúde alerta que o ambiente hospitalar está diretamente ligado à transmissão da aspergilose em indivíduos imunocomprometidos, podendo levar ao óbito. A transmissão ocorre pela inalação de esporos presentes em sistemas de ventilação contaminados, uso de chuveiros, contato direto com roupas ou objetos contaminados e, crucialmente, ar contaminado por obras ou reformas no ambiente hospitalar. A falta de barreiras adequadas permite que essa poeira se espalhe, contaminando equipamentos e áreas estéreis.

Ruído excessivo e reincidência de problemas

Além da contaminação por poeira e fungos, as reclamações incluem o ruído excessivo. A ausência de contenção acústica permite que o barulho das obras atinja áreas sensíveis onde pacientes estão internados, como enfermarias, pediatria e Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) pediátricas. Fotografias apresentadas mostram obras ocorrendo com a pediatria e UTI pediátrica ao fundo, evidenciando a proximidade e o impacto direto nos pacientes, especialmente os mais vulneráveis. Trabalhadores relatam a presença de pó e ruído, levantando a preocupação com o risco de contaminação em ambientes como a UTI.

A situação não é isolada. Em abril, incidentes semelhantes já haviam sido registrados, incluindo um grande vazamento de água pelo teto e pelos elevadores, alagando o terceiro andar do hospital. Na ocasião, o sindicato descreveu trabalhadores da reforma sem saber o que fazer, pacientes desviando da água, servidores do andar utilizando rodos para conter o fluxo e a paralisação de quatro dos sete elevadores, com macas transportando pacientes em meio à água. Uma denúncia formal sobre a situação foi encaminhada ao Centro de Vigilância Sanitária (CVS) ainda em abril, evidenciando a reincidência e a persistência dos problemas.

Respostas das autoridades e recomendações

Diante das denúncias, tanto a Secretaria Municipal da Saúde (SMS) quanto o Centro de Vigilância Sanitária (CVS) do Estado de São Paulo emitiram posicionamentos sobre a situação no Hospital do Servidor Público Municipal (HSPM), cada um abordando a questão sob sua perspectiva e responsabilidades.

A posição da prefeitura e da vigilância sanitária

A Secretaria Municipal da Saúde (SMS), responsável pela gestão do HSPM, informou que o hospital está passando por um “amplo conjunto de obras para a modernização de suas antigas instalações”, com previsão de conclusão até o final deste ano. A secretaria garantiu que os serviços são “constantemente acompanhados pelas equipes de Engenharia, Segurança do Trabalho e Controle de Infecção Hospitalar do HSPM”. Essa declaração visa tranquilizar sobre a supervisão interna das intervenções, embora não aborde diretamente as falhas apontadas nas denúncias.

Por sua vez, o Centro de Vigilância Sanitária (CVS) do Estado de São Paulo confirmou ter realizado uma inspeção no HSPM. A vigilância identificou que as obras ocorrem em áreas de circulação interna da unidade. Durante a vistoria, foram observadas “medidas de controle para mitigação de riscos já adotadas pela instituição”. No entanto, a CVS também emitiu “novas recomendações para o reforço das ações de controle de poeira, isolamento das áreas em obras, sinalização de segurança, limpeza e gerenciamento de riscos”, com o objetivo explícito de “garantir a segurança de pacientes, profissionais e demais usuários”. Além disso, a vigilância sanitária recomendou o acompanhamento das intervenções pelo Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST) para monitorar os riscos ocupacionais durante a execução das obras, indicando que as medidas existentes, embora presentes, podem ser insuficientes e necessitam de aprimoramento e fiscalização externa contínua.

Considerações finais

A complexidade das obras de modernização em um ambiente hospitalar em funcionamento, como o HSPM, exige um rigoroso planejamento e execução, pautados pela segurança e pela saúde de todos. As denúncias sobre a falta de isolamento adequado, a exposição a poeira e ruídos, e os riscos de contaminação por agentes como o fungo Aspergillus, revelam a urgência de uma revisão profunda nos protocolos adotados. Enquanto a prefeitura afirma o monitoramento interno, as recomendações adicionais da Vigilância Sanitária e a necessidade de acompanhamento pelo CEREST sublinham que há um caminho a ser percorrido para assegurar que as obras não comprometam a assistência e a integridade de pacientes e profissionais. A modernização do hospital é essencial, mas ela não pode ocorrer em detrimento dos padrões de segurança e higiene que são fundamentais em qualquer unidade de saúde.

FAQ

Quais são os principais riscos apontados nas obras do HSPM?
Os principais riscos incluem contaminação por poeira e fungos (como o Aspergillus), ruído excessivo que afeta pacientes e trabalhadores, e a inobservância de normas de segurança que exigem isolamento hermético de áreas de obras em ambientes hospitalares, especialmente em centros cirúrgicos.

Qual a posição da prefeitura sobre as denúncias?
A Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal da Saúde (SMS), informou que as obras fazem parte de um plano de modernização do HSPM, com previsão de conclusão para o final do ano. A SMS afirma que os serviços são acompanhados por equipes internas de Engenharia, Segurança do Trabalho e Controle de Infecção Hospitalar.

Que órgãos reguladores foram acionados e quais suas recomendações?
O Centro de Vigilância Sanitária (CVS) do Estado de São Paulo realizou uma inspeção e, embora tenha observado algumas medidas de controle, fez novas recomendações para reforçar o controle de poeira, isolamento das áreas, sinalização de segurança, limpeza e gerenciamento de riscos. O CVS também recomendou o acompanhamento das obras pelo Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST).

Como as obras deveriam ser realizadas, segundo as normas?
De acordo com a RDC 50/2002 da Anvisa e a NBR-7256 da ABNT, intervenções em ambientes de saúde, especialmente centros cirúrgicos, exigem planejamento rigoroso e o uso de barreiras herméticas para isolar completamente as áreas de obra, prevenindo a dispersão de poeira e a contaminação.

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Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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