Santos, no litoral paulista, prepara-se para um ambicioso e inédito projeto de engenharia e financiamento que visa corrigir a inclinação de seus icônicos prédios tortos. Uma iniciativa conjunta da Prefeitura de Santos e da Associação dos Condomínios dos Prédios Inclinados (ACOPI) busca desafiar os limites da engenharia civil e da modelagem financeira para garantir a estabilidade e segurança a longo prazo dessas estruturas. Com 319 edifícios apresentando algum grau de inclinação, sendo 65 na orla, a cidade busca no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) uma nova modalidade de financiamento. Este plano, de proporções milionárias, pode transformar a paisagem urbana e assegurar o futuro dos imóveis que, embora não apresentem risco iminente, demandam atenção estrutural.
O desafio dos prédios inclinados de Santos
A imagem dos prédios inclinados da orla de Santos é uma das características mais marcantes da cidade. Embora pitorescos para alguns, eles representam um complexo desafio de engenharia e uma preocupação para milhares de moradores. São, ao todo, 319 edifícios com algum grau de inclinação, dos quais 65 estão concentrados na região da orla da praia. Atualmente, laudos técnicos emitidos a cada dois anos pela Prefeitura de Santos atestam que não há risco estrutural imediato para os moradores. No entanto, essa segurança não é garantida a longo prazo, e a inclinação progressiva pode, eventualmente, comprometer a integridade dessas construções.
A geologia particular da orla
A origem do problema remonta às décadas de 1950 a 1980, período de intensa construção na cidade, e está intrinsecamente ligada às características geológicas do solo santista. Conforme explica o engenheiro Paulo Pimenta, especialista na área, a orla da cidade possui uma camada superficial de areia com cerca de 10 metros de profundidade. Abaixo dela, encontra-se uma camada de argila marinha extremamente mole, formada pela sedimentação de materiais marinhos ao longo de milhares de anos. Essa argila, por sua natureza, deforma-se sob o peso das edificações. O solo residual e a rocha, que oferecem maior estabilidade, só são encontrados a aproximadamente 60 metros de profundidade. As técnicas de fundação utilizadas na época não contemplavam a necessidade de alcançar essas camadas mais profundas, parando na areia. Naquele período, os engenheiros previam um possível rebaixamento dos edifícios, mas não imaginavam a possibilidade de inclinação. A explicação para a inclinação é que, quando dois ou mais prédios são construídos em sequência ou próximos, a deformação do solo sob um pode “puxar” o outro, causando a inclinação mútua. Outros fatores, como a ordem de construção dos edifícios e suas interações no solo, também contribuem para o fenômeno.
Riscos e prazos de segurança
Embora os prédios não apresentem risco iminente de colapso, a inclinação constante gera esforços estruturais para os quais os edifícios não foram projetados. Essa tensão adicional sobre a estrutura pode, com o tempo, levar a uma situação de instabilidade crítica. O engenheiro Paulo Pimenta alerta que um prédio não é feito para permanecer inclinado; ele deve estar sempre no prumo. À medida que a inclinação aumenta, surgem forças para as quais a estrutura não foi dimensionada, podendo chegar a um ponto em que o edifício corre o risco de ruir. No entanto, os estudos mais recentes indicam que os prédios avaliados ainda possuem uma margem de segurança de aproximadamente 10 a 15 anos. Esse período é considerado suficiente para que os condomínios busquem financiamento, organizem-se e executem as obras de reaprumo. A urgência reside em não postergar a solução, pois, em um futuro não tão distante, um desses edifícios poderá atingir uma condição insegura, exigindo interdição e demolição.
O plano de engenharia e suas vertentes
A complexidade do problema dos prédios inclinados de Santos é vasta, mas a boa notícia é que a engenharia já demonstrou a viabilidade de sua correção. Os novos estudos e a experiência prévia são fundamentais para o plano atual.
O precedente do edifício Núncio Malzoni
A prova de que a correção é possível reside no caso do edifício Núncio Malzoni. Na década de 2000, um dos blocos do prédio, que apresentava inclinação de 2,2°, e outro, com 1,8°, foram corrigidos com sucesso. A obra, custeada com recursos dos próprios moradores na época, consistiu em “erguer” o prédio e alinhá-lo utilizando macacos hidráulicos. Enquanto a estrutura estava suspensa, uma nova fundação foi executada para garantir a estabilidade. O processo foi acompanhado por engenheiros especializados, como Paulo Pimenta, que agora está à frente dos novos estudos para outros quatro edifícios na orla. Uma das vantagens desse método, já comprovada, é que os moradores não precisaram deixar seus apartamentos durante a execução da obra, o que é um ponto crucial para a aceitação e viabilidade de futuros projetos.
Novas soluções e sua aplicabilidade
Com base em sua experiência e nos novos estudos, Paulo Pimenta elaborou quatro soluções possíveis para os prédios tortos da orla de Santos, que podem ser aplicadas individualmente ou combinadas, dependendo das características de cada edifício:
1. Estabilização da inclinação com estacas: Esta solução foca em impedir que o prédio incline ainda mais, sem, contudo, reaprumá-lo. As estacas são inseridas para estabilizar a base e impedir a progressão da deformação.
2. Construção de estrutura para transferência de carga e reaprumo com macacos hidráulicos: Semelhante à solução aplicada no bloco A do Núncio Malzoni, envolve a criação de uma estrutura sob o prédio para transferir a carga para estacas escavadas, seguida da aplicação de macacos hidráulicos para corrigir a inclinação.
3. Construção de blocos para transferência de carga, corte de pilares e reaprumo com macacos hidráulicos: Esta alternativa, similar à utilizada no bloco B do Núncio Malzoni, prevê a instalação de blocos para transferência de carga para estacas escavadas junto aos pilares, o corte dos pilares existentes e, então, o uso de macacos hidráulicos para o reaprumo.
4. Solução semelhante à anterior, mas sem estacas: Uma variação da terceira opção, aplicável em casos específicos onde a geologia ou a estrutura do prédio permitem o reaprumo sem a necessidade de estacas adicionais para a transferência de carga.
Cada uma dessas alternativas apresenta suas próprias vantagens, desvantagens e custos associados. A escolha da solução ideal dependerá de uma análise técnica aprofundada de cada edifício. A estimativa de custo para essas obras é significativa, variando entre R$ 7 milhões e R$ 10 milhões por prédio, valor que foi atualizado a partir do custo de R$ 1,5 milhão investido no Núncio Malzoni anos atrás.
O financiamento inédito: BNDES e poder público
O grande entrave para a execução das obras nos prédios inclinados sempre foi o alto custo e a dificuldade de acesso a financiamentos em larga escala para propriedades privadas. A proposta em discussão com o BNDES busca justamente superar essa barreira, com a criação de um modelo financeiro inédito.
Superando obstáculos para recursos privados
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) tradicionalmente direciona seus financiamentos para projetos de infraestrutura do setor público, empresas privadas que prestam serviços públicos, cooperativas e associações com projetos de interesse coletivo. A ideia de financiar obras em condomínios particulares de habitação representa um desafio para a modelagem financeira existente. O prefeito de Santos, Rogério Santos, destacou que o BNDES ainda não possui um modelo de financiamento para áreas particulares com intermediação pública. A “tarefa” deixada para o banco é desenvolver essa modelagem, considerando a natureza “social e urbana” da questão, que justifica o apoio do poder público municipal. A proposta é que a Prefeitura de Santos atue como “terceiro garantidor” junto ao BNDES. Isso significa que o município ofereceria uma segurança ao banco de que a dívida será quitada caso o tomador do recurso, no caso os condomínios, não consiga honrar os pagamentos. Essa é uma medida crucial para viabilizar o financiamento, pois o poder público não pode, por lei, conceder recursos diretamente a empreendimentos privados. Conforme Fábio Ferraz, secretário municipal de Governo, o apoio se daria de forma a consolidar o financiamento pelos condomínios, dada a relevância pública da questão.
Próximos passos e expectativas
A reunião de março no BNDES, onde a proposta foi apresentada, foi considerada produtiva pelas partes envolvidas. O banco aguarda agora a apresentação formal de projetos por parte da Prefeitura de Santos. Para isso, o ente público deverá detalhar aspectos cruciais como o projeto de engenharia, o orçamento previsto, o cronograma físico-financeiro e os aspectos jurídicos, incluindo a regularidade fundiária e o licenciamento ambiental. O time da prefeitura já está trabalhando nessas informações. O secretário Fábio Ferraz indicou que uma série de novas reuniões será necessária para definir a viabilidade e os termos do financiamento. Embora o foco inicial seja nos prédios associados à ACOPI, o sucesso da iniciativa abriria portas para que todos os edifícios inclinados da cidade fossem contemplados. O prefeito Rogério Santos solicitou que o tema seja tratado como agenda prioritária, demonstrando o empenho do município. A presidente da ACOPI, Eliana de Mello, expressou otimismo, enfatizando a importância de desmistificar a ideia de que os moradores da orla são todos abastados e não precisariam de apoio financeiro. O projeto é visto como uma oportunidade histórica para a cidade de Santos resolver um problema estrutural e urbanístico de grande impacto.
Perspectivas futuras para a orla de Santos
O plano para corrigir os prédios inclinados de Santos representa um marco na busca por soluções inovadoras para desafios urbanos complexos. Ao aliar expertise de engenharia, que já provou sua eficácia, com uma inédita modelagem de financiamento envolvendo o BNDES e o poder público municipal, a cidade se posiciona na vanguarda da gestão de seu patrimônio arquitetônico. A iniciativa não apenas visa garantir a segurança e a integridade estrutural de centenas de edifícios, mas também reafirma o compromisso com a qualidade de vida de seus moradores e a preservação de uma paisagem tão característica. Os próximos passos serão cruciais para a concretização dessa visão ambiciosa, que promete transformar os ícones inclinados de Santos em símbolos de inovação e resiliência.
Perguntas frequentes
Quantos prédios estão inclinados em Santos e qual o risco atual?
Atualmente, 319 prédios em Santos apresentam algum grau de inclinação, sendo 65 na região da orla. Não há risco estrutural imediato, com laudos técnicos atestando segurança a cada dois anos. No entanto, a inclinação pode gerar problemas futuros, e engenheiros estimam uma margem de segurança de 10 a 15 anos antes que alguns edifícios atinjam uma situação crítica.
Qual a principal dificuldade para o financiamento dessas obras?
A principal dificuldade reside no fato de que os condomínios são propriedades privadas e de habitação. O BNDES, tradicionalmente, financia obras de infraestrutura pública ou empresas que prestam serviços públicos. A inovação está na criação de uma nova modalidade de financiamento com a Prefeitura de Santos atuando como “terceiro garantidor” para os condomínios, superando essa barreira.
Os moradores precisarão deixar seus apartamentos durante as obras de reaprumo?
A intenção é que os moradores não precisem deixar seus apartamentos, seguindo o precedente do edifício Núncio Malzoni, onde a correção foi realizada nos anos 2000 sem a necessidade de desocupação. As soluções de engenharia propostas visam minimizar o impacto na vida dos residentes.
Qual o custo estimado para corrigir um prédio inclinado em Santos?
A estimativa de orçamento apresentada ao BNDES varia entre R$ 7 milhões e R$ 10 milhões por prédio, considerando a atualização dos valores de obras similares realizadas no passado e as particularidades de cada edifício.
Fique por dentro dos próximos desenvolvimentos e do andamento deste projeto monumental que promete remodelar o futuro de Santos.
Fonte: https://g1.globo.com

