Povos e comunidades tradicionais do Cerrado, considerados pilares da sustentabilidade no bioma, enfrentam turbulências em suas vidas devido a conflitos agrários intensificados pela expansão da fronteira agrícola brasileira. A disputa por terras acarreta impactos profundos, alterando a dinâmica social e ambiental dessas populações.
No Vão do Uruçu, região a 300 quilômetros de Balsas, no Maranhão, mais de 20 famílias se veem pressionadas a abandonar as terras que ocupam, em meio a um cenário de tensões fundiárias. Balsas é um dos polos do agronegócio nacional, onde a pressão pela expansão das áreas de cultivo é constante.
O posseiro Osmar Paulo da Silva Santos, de 65 anos, expressa o temor e a insegurança vividos pela comunidade. “Antes desse povo chegar por aqui, nós todos vivíamos sossegados. E hoje a gente vive tão coagido por causa deles”, relata. As famílias são coagidas a aceitar a redução de suas áreas de trabalho para 50 hectares ou a deixarem a região. Os moradores suspeitam que o grupo interessado nas terras seja composto por grileiros, visando a futura produção de soja.
Os moradores do Vão do Uruçu relatam ameaças, incluindo disparos de armas de fogo nas proximidades de suas residências. “Nós temos corrido medo de uma bala variada acertar na gente. Tem dia que a gente escuta as balas passar zunindo por cima de casa”, desabafa o agricultor Osmar.
Segundo os posseiros, uma empresária identificada como Sheila Lustosa Parrião, representante da empresa Castelo Construtora, Incorporadora e Reflorestadora, passou a cobrar pelas terras na região desde 2020. Em 2023, o Ministério Público do Maranhão a acusou de ordenar que funcionários derrubassem uma ponte pública que ligava comunidades no Vão do Uruçu. A reportagem tentou contato com a empresária, mas não obteve resposta após o anúncio de que o caso seria encaminhado ao setor jurídico da empresa.
O Maranhão lidera o ranking de conflitos por terra e água no Brasil, de acordo com a Comissão Pastoral da Terra (CPT). No ano passado, foram registrados 420 conflitos no campo no estado. Para tentar reverter esse quadro, o governo estadual priorizou a regularização fundiária e lançou o Programa Paz no Campo em 2023.
De acordo com o presidente do Instituto de Colonização e Terras do Maranhão (Iterma), Anderson Pires Ferreira, o programa já entregou 18 mil títulos de propriedade e regularizou 27 comunidades quilombolas. “Só existe uma forma de pacificar o campo, a zona rural: é regularizando. Dessa forma a gente pacifica o estado”, afirma.
Apesar dos esforços, o representante do estado reconhece que a expansão da agropecuária no Cerrado tem ampliado o número de conflitos fundiários. “À medida que a agropecuária vai se expandindo, aparecem essas matrículas frágeis que não têm geolocalização. Quanto mais aumentam as áreas de produção, mais essas áreas vão encontrar posseiros, agricultores familiares e comunidades tradicionais”, explica Anderson Pires, que também informou que o Iterma registrou 300 mil hectares de terras devolutas e retomou 150 mil hectares de terras griladas.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

