O Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) decidiu que o major Rafael Cambuí Mesquita Santos, da Polícia Militar Rodoviária (PMRv), enfrentará um júri popular pela morte de Luan dos Santos, de 32 anos. A vítima foi fatalmente atingida por um tiro no tórax durante uma abordagem policial enquanto estava na garupa de uma motocicleta na Rodovia Anchieta (SP-150), no trecho de descida para Santos, litoral paulista. A decisão da 11ª Câmara de Direito Criminal acolhe um recurso do Ministério Público de São Paulo (MPSP) e reverte a sentença de primeira instância, que havia desclassificado o caso para homicídio culposo, sem intenção de matar. Agora, há indícios suficientes para que o crime seja julgado como homicídio qualificado.
O caso: abordagem e morte de Luan dos Santos
A tragédia que levou à morte de Luan dos Santos ocorreu em 16 de fevereiro de 2024. Segundo o boletim de ocorrência inicial, uma equipe da Polícia Rodoviária realizava patrulhamento quando avistou duas motocicletas que, supostamente, trafegavam em alta velocidade e realizavam manobras perigosas na pista. A suspeita inicial dos policiais era de uma tentativa de roubo contra uma moto BMW que seguia à frente.
Os agentes afirmam ter emitido sinais luminosos e sonoros para os motociclistas, os quais teriam sido ignorados. Já na pista central, um dos policiais teria percebido que Luan, que estava na garupa de uma das motos, olhou para trás e sinalizou para o condutor, que, em seguida, acelerou bruscamente e tentou fugir. A PM Rodoviária alega que uma ordem de parada foi desobedecida.
Durante a abordagem que se seguiu, os policiais sustentam que Luan fez um movimento interpretado como uma tentativa de sacar uma arma. Neste momento, um dos agentes apontou a pistola. Após uma frenagem brusca dos veículos, um disparo foi efetuado. A corporação, na época, descreveu o tiro como acidental. Luan foi atingido no tórax, socorrido e levado ao Hospital Modelo de Cubatão, mas não resistiu aos ferimentos.
As versões divergentes
A narrativa dos fatos apresenta pontos de vista conflitantes entre os policiais envolvidos e o piloto da moto em que Luan estava. Na versão oficial dos policiais, o agente que realizou o disparo relatou ter visto Luan colocar a mão no bolso do moletom, um gesto que foi interpretado como a tentativa de sacar uma arma, motivando a reação. Após o tiro, a motocicleta percorreu alguns metros antes de parar. O relato policial ainda indica que Luan teria jogado um objeto no rio antes de se sentar no chão. Contudo, nada de ilícito foi encontrado com a vítima. O homem que conduzia a moto BMW se identificou como policial civil e afirmou ser amigo da dupla.
Por outro lado, o piloto da moto que transportava Luan contestou veementemente a versão dos militares. Ele afirmou que não houve resistência à abordagem policial e que o disparo fatal ocorreu com os veículos já parados. Segundo seu depoimento, Luan teria descido da moto “tranquilamente” no momento em que foi atingido pelo projétil. Uma perícia foi solicitada para o local dos fatos, e ambas as motocicletas envolvidas foram liberadas após a ocorrência. A arma de fogo do policial que efetuou o disparo foi apreendida e encaminhada para análise pericial. A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) registrou o caso como morte decorrente de intervenção policial na Central de Polícia Judiciária (CPJ) de Santos, com a investigação sendo posteriormente encaminhada ao 5º Distrito Policial (DP).
A decisão do tribunal e o caminho para o júri
A 11ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) acolheu o recurso interposto pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) e determinou que o major Rafael Cambuí Mesquita Santos seja submetido a júri popular. Esta decisão representa uma reviravolta significativa no processo, uma vez que a primeira instância havia desclassificado o caso para homicídio culposo, que implica ausência de intenção de matar.
Os desembargadores que analisaram o recurso entenderam que há indícios suficientes para que o caso seja julgado pelo Tribunal do Júri, que é o responsável por julgar crimes dolosos contra a vida. A relevância desta mudança de classificação é profunda, alterando o escopo da acusação e as possíveis consequências legais para o oficial envolvido.
Homicídio qualificado vs. culposo
A distinção entre homicídio qualificado e culposo é central neste caso e no sistema jurídico brasileiro. O homicídio culposo ocorre quando não há intenção de matar, mas a morte resulta de imprudência, negligência ou imperícia. A punição para este tipo de crime é geralmente mais branda, e o julgamento não é feito por júri popular, mas sim por um juiz singular.
Já o homicídio qualificado, pelo qual o major agora responderá, é uma forma de homicídio doloso, ou seja, com intenção de matar ou com assunção do risco de produzir o resultado morte (dolo eventual), e agravado por certas circunstâncias que o tornam mais grave, como, por exemplo, o motivo fútil, recurso que dificulte ou torne impossível a defesa da vítima, ou o emprego de veneno, fogo, explosivo, asfixia, tortura ou outro meio insidioso ou cruel. A qualificação implica penas mais severas e, crucialmente, a competência do Tribunal do Júri para o julgamento, onde a decisão é proferida pelos cidadãos comuns. A reversão da desclassificação indica que o TJSP viu elementos de dolo ou dolo eventual no comportamento do major, ou que há incerteza sobre a intenção que deve ser dirimida pelo júri.
Desdobramentos e expectativas
A decisão de submeter o major a júri popular marca uma nova fase no processo judicial. Com a aceitação do recurso do MPSP, a justiça reconhece a necessidade de uma análise mais aprofundada das circunstâncias que levaram à morte de Luan dos Santos. O Tribunal do Júri será o palco onde as diferentes versões dos fatos serão apresentadas e debatidas, e onde os jurados populares decidirão sobre a culpa ou inocência do oficial, bem como a qualificação do homicídio. Este é um passo fundamental para o esclarecimento completo do caso, garantindo que todas as provas e depoimentos sejam rigorosamente avaliados por um corpo de jurados.
FAQ
O que é júri popular?
O júri popular é um órgão colegiado do Poder Judiciário brasileiro, composto por um juiz presidente e 25 jurados leigos, sorteados entre cidadãos comuns. Sua função é julgar crimes dolosos contra a vida, decidindo sobre a materialidade e autoria do crime, e, em caso de condenação, o juiz estabelece a pena.
O que significa homicídio qualificado?
Homicídio qualificado é um tipo de homicídio doloso , agravado por circunstâncias específicas previstas em lei, como motivo fútil, meio cruel, uso de recurso que dificulte a defesa da vítima, entre outros. Essas qualificadoras resultam em uma pena maior e a competência para julgamento pelo Tribunal do Júri.
Qual a situação atual do major Rafael Cambuí Mesquita Santos?
Com a decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo, o major Rafael Cambuí Mesquita Santos será submetido a júri popular, onde responderá pela acusação de homicídio qualificado. Ele aguarda o agendamento da sessão do Tribunal do Júri para que seu caso seja julgado pelos cidadãos.
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Fonte: https://g1.globo.com

