Moradores de favelas adoecem em meio a facções e operações policiais

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A população de favelas no Rio de Janeiro enfrenta uma “bomba invisível” de traumas e problemas de saúde decorrentes da violência e das operações policiais. Segundo o professor José Claudio Sousa Alves, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), operações como a “Contenção”, que resultou em ao menos 121 mortes nos complexos do Alemão e da Penha, deixam marcas profundas e duradouras.

O impacto dessas ações se manifesta em diversas formas: pânico generalizado, comércio fechado, escolas e postos de saúde interrompidos, vias interditadas, transporte público alterado e corpos expostos nas ruas. As consequências para a saúde física e mental são alarmantes.

Um estudo do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec) revelou que moradores de favelas mais expostas a tiroteios têm um risco duas vezes maior de desenvolver depressão e ansiedade, além de quadros de insônia (73%) e hipertensão arterial (42%). Muitos relataram sudorese, falta de sono, tremor e falta de ar durante os confrontos.

Raimunda de Jesus, dirigente sindical e moradora, expressou sua indignação durante um protesto contra a Operação Contenção: “A forma que aconteceu aqui não acontece na Zona Sul… O Estado não pode nos ver como inimigos.” Liliane Santos Rodrigues, que perdeu seu filho em uma ação policial, compartilhou a dor de outras mães: “Estou sentindo a dor dessas mães… Tem três dias que eu não sei o que é dormir direito.”

Os complexos do Alemão e da Penha são considerados redutos do Comando Vermelho, abrigando lideranças de diversas localidades, conforme a Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro. Carolina Grillo, da UFF, ressalta que as operações policiais, embora visem a desestruturar o crime organizado, afetam principalmente a população, gerando traumas permanentes.

O Comando Vermelho, surgido nos presídios do Rio, expandiu sua atuação para 24 estados e o Distrito Federal, com conexões internacionais no tráfico de drogas. Uma pesquisa do Geni e Instituto Fogo Cruzado apontou que a facção aumentou seu controle territorial no Grande Rio, ultrapassando as milícias e dominando 51,9% das áreas controladas por criminosos.

A vulnerabilidade social facilita a instalação do crime organizado. Para Carolina Grillo, “há uma oferta quase inesgotável de mão de obra para o trabalho criminoso, devido às muito precárias oportunidades oferecidas aos jovens no Brasil.”

As operações policiais não são a solução mais eficaz, segundo especialistas. Apesar das apreensões de drogas, o secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, reconheceu que o tráfico representa apenas uma parte do faturamento das facções. A exploração econômica do território, incluindo serviços e extorsão, se tornou uma fonte de renda importante.

José Claudio Sousa Alves e Carolina Grillo defendem outras estratégias, como o desmantelamento de estruturas financeiras do crime organizado, sem o uso da violência. Eles citam a operação Carbono Oculto como exemplo. A oferta de oportunidades para jovens em áreas vulneráveis é outra medida crucial.

Carolina Grillo destaca o Pronasci Juventude, que visa prevenir a violência e a criminalidade associadas ao tráfico de drogas, oferecendo apoio para estudos, capacitação e inserção no mercado de trabalho.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

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