O dia 25 de julho é uma data de profundo significado para as mulheres negras em todo o mundo. Celebrado como o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, ele também marca no Brasil o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, honrando a memória de uma líder quilombola histórica e a contínua luta por direitos e reconhecimento. Esta dupla celebração ressalta a importância de rememorar a resistência ancestral e os desafios contemporâneos enfrentados por essa parcela da população, especialmente a urgência na titulação de terras quilombolas. A figura de Tereza de Benguela emerge como um símbolo poderoso de autonomia e combate à opressão, inspirando a mobilização e a busca por justiça social e territorial que ecoam em todo o país.
O legado imortal de Tereza de Benguela
A história de Tereza de Benguela, uma líder quilombola do século XVIII, continua a inspirar e guiar a luta das mulheres negras no Brasil. Conhecida como “rainha Tereza”, ela emergiu como figura central do Quilombo do Quariterê, localizado em Mato Grosso. Sua ascensão à liderança ocorreu após a morte de seu companheiro, José Piolho, assassinado por soldados, um evento que a impulsionou a assumir as rédeas da comunidade. Por cerca de 20 anos, Tereza de Benguela governou um quilombo que abrigava mais de 100 pessoas, incluindo indígenas e negros, todos unidos em um esforço comum de resistência contra a escravidão e a opressão colonial.
Liderança e organização em Quariterê
O Quilombo do Quariterê, sob a liderança de Tereza, funcionava de maneira notavelmente organizada. Documentos históricos sugerem que sua gestão era baseada em um sistema semelhante a um parlamento, onde as decisões eram tomadas coletivamente. Essa estrutura democrática e participativa permitia que a comunidade administrasse a produção agrícola, com destaque para o cultivo de algodão, e mantivesse relações comerciais com vilarejos próximos. A capacidade de Tereza de Benguela de manter um quilombo próspero e resistente por duas décadas é um testemunho de sua habilidade estratégica e carisma. A comunidade de Quariterê resistiu bravamente até 1770, tornando-se um marco na luta pela liberdade. Embora os detalhes sobre sua morte e local de nascimento permaneçam incertos – não se sabe se pereceu em combate ou viveu mais alguns anos, nem se nasceu no Brasil ou na África –, seu legado como um farol de resistência para as mulheres negras é inquestionável. A jornalista e pesquisadora em Direitos Humanos, Leonor Costa, militante do Movimento Negro Unificado, destaca que “Tereza de Benguela tem a nos ensinar que, diante da opressão, não há outra alternativa que não seja a luta, que não seja o enfrentamento de um sistema que oprime.”
A luta contemporânea pela titulação de terras quilombolas
A força e a resiliência de Tereza de Benguela ressoam profundamente nas pautas atuais, especialmente na cobrança pela titulação de terras quilombolas. Este 25 de julho é marcado por um clamor urgente das comunidades quilombolas, liderado por mulheres, pelo reconhecimento e proteção de seus territórios ancestrais. Selma Dealdina Mbaye, da Coordenação Nacional de Comunidades Negras Rurais Quilombolas, sublinha a vitalidade dessa demanda. Ela ressalta que a maioria dos habitantes dos territórios quilombolas é composta por mulheres, e estas aspiram por suas terras tituladas, livres da grilagem, da exploração predatória, da mineração e de todas as formas de violência e violação de direitos.
O cenário dos quilombos no Brasil
No Brasil, existem mais de 8 mil comunidades quilombolas, distribuídas por 24 estados e mais de 1.700 municípios, reunindo um contingente de mais de 1,3 milhão de pessoas. Estes números expressivos evidenciam a magnitude e a importância da garantia desses territórios para a preservação cultural, ambiental e social. A titulação de terras quilombolas não é apenas uma questão de propriedade, mas um reconhecimento fundamental da história, da identidade e da autodeterminação dessas comunidades. É a salvaguarda de um modo de vida, da agricultura familiar e da biodiversidade, e um passo crucial para a reparação histórica das injustiças sofridas pela população negra. A ausência de titulação deixa essas comunidades vulneráveis a invasões, conflitos fundiários e projetos que desconsideram seus direitos e sua existência, perpetuando ciclos de marginalização e desapropriação.
Mobilização e memória: Julho das Pretas e datas históricas
O dia 25 de julho foi formalmente instituído como Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra por lei em 2014, somando-se ao Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, celebrado desde 1992. Esta data internacional nasceu do 1º Encontro de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas, realizado em Santo Domingo, República Dominicana. O evento histórico reuniu representantes de mais de 30 países, que uniram suas vozes para denunciar o racismo, as violências e as profundas desigualdades sofridas por mulheres negras, estabelecendo uma agenda coletiva de mobilização e resistência.
No Brasil, a mobilização ganha força com o Julho das Pretas, uma iniciativa anual criada em 2013 por um instituto da mulher negra de Salvador. Este movimento amplifica as vozes das mulheres negras ao longo de todo o mês, promovendo debates, atividades culturais e atos políticos em diversas localidades. A 14ª edição deste ano, por exemplo, conta com uma agenda robusta de mais de 600 atividades, organizadas por quase 300 coletivos espalhados pelo país. Entre as ações de destaque, está a Marcha das Mulheres Negras de São Paulo, que em sua programação inclui a exigência de justiça por Luana Barbosa. Luana, uma mulher negra e lésbica, foi brutalmente espancada e morta há dez anos, em Ribeirão Preto, após se recusar a ser revistada por policiais homens. Seu caso tornou-se um símbolo da interseccionalidade das violências sofridas por mulheres negras no Brasil, ressaltando a urgência de um sistema de justiça que de fato as proteja e garanta seus direitos.
Um chamado à ação e reconhecimento
A celebração do Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, e do Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, transcende a mera comemoração. É um momento crucial para reafirmar a centralidade da luta das mulheres negras por justiça social, equidade e reconhecimento de seus direitos. A memória de Tereza de Benguela serve como um potente lembrete de que a resistência é um pilar fundamental diante da opressão, e que a organização coletiva é a chave para a transformação social. As pautas levantadas, como a titulação das terras quilombolas, o combate à violência de gênero e racial, e a garantia da plena cidadania, são essenciais para construir um futuro mais justo e inclusivo para todas e todos. A resiliência e a determinação das mulheres negras impulsionam mudanças significativas, e o apoio a essas causas é um imperativo para a construção de uma sociedade que valorize e respeite a diversidade de suas histórias e identidades.
Perguntas frequentes
Quem foi Tereza de Benguela e por que ela é uma figura importante?
Tereza de Benguela foi uma líder quilombola do século XVIII que governou o Quilombo do Quariterê, em Mato Grosso, por cerca de 20 anos. Ela é importante como um símbolo de resistência à escravidão e à opressão, liderando uma comunidade diversa em um sistema de governo democrático e participativo, e inspirando as lutas contemporâneas por autonomia e direitos das mulheres negras.
Qual a importância do dia 25 de julho para as mulheres negras?
O dia 25 de julho é duplamente significativo: é o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, estabelecido para denunciar o racismo e as desigualdades, e no Brasil, é também o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, em homenagem à líder quilombola. A data unifica a celebração da resistência e a pauta de direitos das mulheres negras em nível nacional e internacional.
Por que a titulação de terras quilombolas é uma pauta central neste contexto?
A titulação de terras quilombolas é central porque garante a proteção dos territórios ancestrais dessas comunidades, que são em sua maioria lideradas por mulheres. Sem a titulação, as comunidades ficam vulneráveis à grilagem, exploração, mineração e outras violências, o que ameaça sua cultura, subsistência e existência. É um reconhecimento fundamental de direitos e uma reparação histórica.
O que é o Julho das Pretas?
O Julho das Pretas é uma iniciativa brasileira criada em 2013, que promove uma agenda de mobilização e atividades em todo o país ao longo do mês de julho. Seu objetivo é amplificar as vozes das mulheres negras, denunciar as violências sofridas e discutir pautas importantes como a justiça social, o combate ao racismo e à desigualdade, e a valorização de suas contribuições.
Junte-se a essa luta por justiça e reconhecimento. Conheça e apoie as iniciativas que promovem os direitos e a valorização das mulheres negras e das comunidades quilombolas. Sua voz faz a diferença.

