Uma proposta legislativa alternativa à anistia para os condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023, conhecida como projeto da dozimetria, está em pauta no Congresso Nacional com potencial para alterar significativamente a aplicação das penas. A medida, de autoria do deputado Paulinho da Força (Solidariedade-SP), ganhou destaque ao indicar que poderia reduzir a pena do ex-presidente Jair Bolsonaro para pouco mais de dois anos de prisão, caso venha a ser aprovada. O debate em torno da dozimetria das penas reacende as discussões sobre o equilíbrio entre os poderes e a justiça penal no Brasil, especialmente no contexto dos eventos que abalaram as instituições democráticas. A iniciativa legislativa busca redefinir critérios para o cálculo de sentenças e a progressão de regime, gerando intensa polarização política e jurídica no cenário nacional.
O projeto de dozimetria e suas implicações legais
O cerne da proposta do deputado Paulinho da Força reside em alterações profundas na forma como as sentenças são cumuladas e cumpridas, especialmente para crimes que envolvem a segurança do Estado democrático. Denominado “projeto da dozimetria”, em referência à dosagem da pena, a iniciativa visa flexibilizar regras atualmente em vigor que resultaram em longas sentenças para os envolvidos nos atos de 8 de janeiro. A tramitação dessa matéria é observada de perto por juristas, políticos e pela sociedade civil, dada a sua capacidade de reconfigurar o panorama jurídico de casos de grande repercussão.
As mudanças na aplicação das penas
Entre as principais inovações do projeto está a impossibilidade de somar penas por crimes como golpe de Estado e tentativa de abolição violenta do Estado democrático de direito quando estes forem cometidos no mesmo contexto fático ou com uma mesma finalidade. Segundo a proposta, nesses cenários, os acusados seriam penalizados apenas pelo crime que tiver a pena mais alta, desconsiderando a cumulação que é praxe na legislação atual. Isso representa uma mudança substancial no cálculo da sanção final, podendo diminuir drasticamente o tempo de encarceramento.
Além da não cumulação de penas, o projeto também aborda outros aspectos da execução penal. Ele permite que o período em que os indivíduos estiverem em regime aberto, utilizando tornozeleira eletrônica, seja contabilizado para o cumprimento da pena. Atualmente, o tempo em que o condenado está sob monitoramento eletrônico, em regime semiaberto ou aberto, pode ser considerado para a progressão, mas a proposta busca dar maior clareza e abrangência a essa contagem.
Outro ponto crucial da matéria é a redução do percentual de cumprimento da pena necessário para a progressão de regime. A medida sugere que a transição do regime fechado para o aberto, ou para outros regimes mais brandos, possa ocorrer com um percentígio menor da pena cumprida. Atualmente, a Lei de Execução Penal (LEP) estabelece diferentes percentuais (25%, 30%, 40%, 50%, 60%, 70%) a depender do crime e da primariedade do condenado. A alteração proposta poderia acelerar o processo de progressão, permitindo que os condenados passem menos tempo em regimes mais restritivos. Tais modificações são defendidas por seus proponentes como formas de aperfeiçoar o sistema penal e garantir proporcionalidade, enquanto críticos alertam para o risco de descaracterizar a gravidade dos crimes.
Repercussão política e o caso Bolsonaro
A apresentação do projeto da dozimetria gerou imediata repercussão no cenário político brasileiro, principalmente pela menção explícita ao caso do ex-presidente Jair Bolsonaro. A proposta não é vista apenas como uma discussão técnica sobre a aplicação das leis penais, mas como um movimento com profundas implicações políticas, dado o contexto dos julgamentos e condenações relacionados aos eventos de 8 de janeiro. A possibilidade de uma redução tão expressiva de uma pena para um ex-chefe de Estado adiciona uma camada de complexidade e sensibilidade ao debate.
Análise do impacto na sentença do ex-presidente
O relator da proposta, Paulinho da Força, detalhou em sua explanação como o projeto afetaria a pena do ex-presidente Jair Bolsonaro. Tomando como base uma hipotética condenação de 27 anos e 3 meses de prisão, o deputado explicou o cálculo sob as novas regras. No sistema atual, para progressão de regime, o percentual mínimo (geralmente 25% para réus primários em crimes comuns, ou percentuais maiores para crimes hediondos ou com violência grave) levaria Bolsonaro a cumprir cerca de 6 anos e 10 meses em regime fechado antes de poder progredir.
Com a aplicação das modificações propostas pela dozimetria, o cenário se transformaria drasticamente. Primeiro, a não cumulação das penas por crimes como golpe de Estado e tentativa de abolição violenta do Estado democrático de direito resultaria em uma redução da pena total. Segundo a conta apresentada, a pena inicial de 27 anos e 3 meses seria reduzida para algo em torno de 20 anos e 7 ou 8 meses. Posteriormente, aplicando-se um novo percentual de cumprimento da pena para progressão de regime (o relator mencionou 16%, um percentual significativamente menor do que os atuais), o tempo necessário para sair do regime fechado cairia para 3 anos e 4 meses. Finalmente, com a consideração de eventuais remissões de pena – mecanismos que permitem a diminuição do tempo de cumprimento da sentença por trabalho, estudo ou outros benefícios –, a pena efetiva em regime fechado para o ex-presidente poderia ser reduzida para aproximadamente 2 anos e 4 meses. Essa projeção demonstra o potencial transformador do projeto sobre as sentenças aplicadas.
Críticas e apoios à proposta legislativa
A iniciativa legislativa tem encontrado eco e resistência em diferentes bancadas no Congresso. O líder do Partido Liberal (PL), Sostenis Cavalcanti, demonstrou apoio à proposta, caracterizando-a como um “degrau” na luta para amenizar a situação dos condenados pelos atos de 8 de janeiro. Segundo ele, a bancada do PL decidiu não apresentar emendas ao projeto e vê a medida como um acordo possível e um passo adiante, inclusive após diálogo com o próprio ex-presidente Bolsonaro. A visão do PL é de que a proposta avança na direção de objetivos maiores, sem precisar ser uma anistia explícita.
Em contrapartida, a oposição à medida é veemente. O líder do Partido dos Trabalhadores (PT) na Câmara, Lindbergh Farias, classificou a proposta como um “grave atentado à democracia” e uma “tentativa de interferir no julgamento do STF” (Supremo Tribunal Federal). Farias argumentou que a matéria é “absurda e escandalosa”, especialmente considerando que pela primeira vez na história generais e um presidente foram julgados por envolvimento em uma trama golpista. Para ele, é “inaceitável que o parlamento queira de forma oportunista reduzir a pena de Jair Bolsonaro”, acusando a proposta de ser uma “lei específica para beneficiar o Bolsonaro”, violando o princípio da generalidade das leis.
O presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), já se manifestou sobre o tema, afirmando que irá pautar a proposta de alteração na dozimetria logo após a sua aprovação pela Câmara dos Deputados. Essa sinalização indica que o tema tem potencial para avançar e ser objeto de intensa discussão também na casa legislativa superior, evidenciando a seriedade e as implicações políticas da matéria em questão.
Conclusão
O projeto da dozimetria representa um ponto de inflexão significativo no debate sobre a justiça e a política no Brasil, especialmente no que tange aos desdobramentos dos atos de 8 de janeiro. Com o potencial de reconfigurar sentenças, incluindo a do ex-presidente Jair Bolsonaro, a proposta do deputado Paulinho da Força evidencia a tensão entre a autonomia dos poderes e a interpretação da lei. As discussões na Câmara dos Deputados e a expectativa de pautar o tema no Senado sublinham a relevância da matéria. A polarização gerada entre defensores, que veem na proposta uma correção necessária na aplicação da pena, e críticos, que a consideram um risco à democracia e uma interferência indevida, demonstra que o desfecho desse projeto terá um impacto duradouro na jurisprudência e no cenário político brasileiro.
Perguntas frequentes
O que é o projeto da dozimetria?
É uma proposta legislativa que busca alterar a forma de cálculo e cumprimento das penas no Brasil, principalmente para crimes contra o Estado democrático de direito. O termo “dozimetria” refere-se à dosagem ou aplicação da pena.
Como o projeto da dozimetria pode afetar as penas dos condenados pelos atos de 8 de janeiro?
A proposta impede a soma de penas para determinados crimes (como golpe de Estado e tentativa de abolição violenta do Estado democrático de direito), considerando apenas a pena mais alta. Além disso, permite contabilizar o tempo de regime aberto com tornozeleira eletrônica e reduz o percentual de pena para progressão de regime.
Qual seria o impacto específico na pena do ex-presidente Jair Bolsonaro, segundo a proposta?
Com base em uma condenação hipotética de 27 anos e 3 meses, o projeto da dozimetria poderia reduzir a pena efetiva em regime fechado para aproximadamente 2 anos e 4 meses, devido à não cumulação de penas, à redução do percentual para progressão e à remissão de penas.
Qual é a principal crítica ao projeto?
A principal crítica, expressa por parlamentares da oposição, é que o projeto seria um “atentado à democracia” e uma tentativa de interferir no julgamento do Supremo Tribunal Federal, configurando uma lei específica para beneficiar o ex-presidente Jair Bolsonaro, violando o princípio da generalidade das leis.
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