Tribunal de Londres mantém condenação da BHP por negligência em Mariana

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A Justiça britânica proferiu uma decisão de grande impacto nesta segunda-feira (19), negando à mineradora australiana BHP o direito de recorrer da sentença que a responsabiliza diretamente pelo catastrófico rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, Minas Gerais, ocorrido em 2015. Após quase uma década de análises e deliberações, o Tribunal Superior de Londres reafirmou a “responsabilidade estrita” da BHP como poluidora pelos danos causados pela tragédia, destacando explicitamente a “negligência” da empresa. Esta decisão histórica abre um precedente significativo e pavimenta o caminho para o pagamento de um volume colossal de indenizações, estimado em 36 bilhões de libras esterlinas, o equivalente a cerca de 259 bilhões de reais. Aproximadamente 620 mil requerentes, entre indivíduos e entidades afetados pela catástrofe, aguardam ansiosamente a análise de seus pedidos em um segundo julgamento, programado para iniciar em outubro deste ano.

Decisão histórica reafirma responsabilidade da BHP

A sentença do Tribunal Superior de Londres

A corte de Londres não apenas manteve a condenação original, mas também solidificou a base para a reparação das vítimas do desastre de Mariana. Ao considerar a BHP “estritamente responsável como poluidora”, o tribunal aplicou um princípio jurídico que atribui responsabilidade pelos danos ambientais independentemente de culpa direta, embora a decisão tenha ido além ao apontar “negligência” específica por parte da mineradora. Essa é uma distinção crucial, pois a negligência implica falha no dever de cuidado, adicionando uma camada de culpa à responsabilidade. O processo civil na capital britânica se estendeu por um período considerável, justificado em parte pela estrutura de governança da BHP, que à época do desastre possuía uma de suas sedes em Londres, conferindo jurisdição ao sistema legal do Reino Unido sobre a questão. A determinação de responsabilidade estrita e negligência representa um marco na busca por justiça e responsabilização corporativa em casos de desastres ambientais transnacionais, enviando uma mensagem clara às grandes corporações.

Implicações jurídicas e financeiras

A decisão do Tribunal Superior de Londres tem implicações profundas, tanto jurídicas quanto financeiras, para a BHP e para o cenário da responsabilidade corporativa global. O valor estimado de 36 bilhões de libras esterlinas não é apenas uma cifra astronômica; ele reflete a dimensão da devastação e o sofrimento de centenas de milhares de pessoas. A manutenção da condenação significa que a BHP não conseguiu apresentar argumentos convincentes para se eximir da culpa ou para justificar seu recurso. Isso estabelece um precedente robusto para que empresas multinacionais sejam responsabilizadas em suas jurisdições de origem por impactos ambientais e sociais causados por suas operações em outros países, especialmente quando há evidências de negligência. Para os 620 mil requerentes, a decisão representa uma esperança renovada de que, após anos de espera e incerteza, a compensação pelos danos sofridos está finalmente ao alcance. O ônus financeiro recairá sobre a BHP, embora a Samarco – a operadora direta da barragem – e a Vale, sua outra controladora, também enfrentem litígios no Brasil.

A cicatriz de Mariana: Uma tragédia ambiental e humana

O rompimento do Fundão em 2015

Em 5 de novembro de 2015, o Brasil testemunhou um de seus maiores desastres ambientais e sociais: o rompimento da barragem de rejeitos de mineração do Fundão, localizada perto da cidade de Mariana, em Minas Gerais. A barragem, operada pela Samarco, uma joint venture entre a BHP e a mineradora brasileira Vale, liberou uma torrente incontrolável de lama tóxica. Este “tsunami” de rejeitos percorreu aproximadamente 650 quilômetros, serpenteando pelo Rio Doce e arrastando tudo em seu caminho até desaguar no Oceano Atlântico. A enxurrada de detritos devastou ecossistemas inteiros, soterrou comunidades, e alterou permanentemente a paisagem de uma vasta região. A magnitude do desastre foi tão grande que a lama e os sedimentos contaminados continuam a impactar a bacia do Rio Doce e o litoral do Espírito Santo, anos após o evento, evidenciando a persistência e a escala da catástrofe.

Danos irreversíveis e impacto social

As consequências do rompimento da barragem do Fundão foram avassaladoras e multifacetadas. O desastre ceifou 19 vidas, incluindo a de trabalhadores da Samarco e moradores das comunidades atingidas. Mais de 600 pessoas ficaram desabrigadas, perdendo suas casas, suas terras e todo o seu patrimônio. A destruição não se limitou ao patrimônio material; o impacto ambiental foi incalculável. Milhares de animais, terrestres e aquáticos, foram mortos pela lama tóxica, e áreas extensas de floresta tropical protegida foram irremediavelmente devastadas. A bacia do Rio Doce, um ecossistema vital, foi profundamente alterada, com a contaminação da água afetando a flora, a fauna e a vida de inúmeras comunidades ribeirinhas que dependiam do rio para subsistência, pesca e agricultura. Além dos danos visíveis, as comunidades sofreram com a perda de seus modos de vida, com o impacto psicológico da tragédia, com a incerteza do futuro e com a ruptura de laços sociais e culturais forjados ao longo de gerações. A recuperação ambiental e social de Mariana e das regiões afetadas é um processo lento e complexo, que exigirá décadas de esforços e recursos.

O caminho para a reparação e os próximos passos

A complexidade do litígio internacional

O envolvimento do sistema judicial britânico no caso Mariana adiciona uma camada de complexidade ao litígio. A decisão de buscar reparação em Londres foi estratégica por parte dos requerentes, dada a presença da BHP na capital inglesa, o que permitiu que o caso fosse julgado sob a jurisdição do Reino Unido. Essa abordagem internacional contrasta e complementa os processos judiciais que correm paralelamente no Brasil, onde a Samarco, a Vale e a BHP também são partes em diversas ações civis públicas e criminais. A escolha da jurisdição pode influenciar os resultados, os valores das indenizações e os prazos processuais. O longo tempo de tramitação – quase dez anos desde o desastre – reflete a complexidade de lidar com um caso de tamanha magnitude, envolvendo uma multinacional, um desastre ambiental em outro continente e centenas de milhares de vítimas. A decisão de Londres, ao reafirmar a responsabilidade da BHP, fortalece a posição dos requerentes em todas as frentes de batalha legal.

O aguardado segundo julgamento

Com a questão da responsabilidade da BHP agora firmemente estabelecida pelo Tribunal Superior de Londres, o foco se volta para a próxima etapa crucial: o segundo julgamento, com início previsto para outubro deste ano. Este julgamento terá como objetivo a avaliação detalhada e a quantificação das indenizações a serem pagas aos 620 mil requerentes. A tarefa de calcular os danos individuais e coletivos é monumental, exigindo uma análise minuciosa das perdas sofridas por cada vítima – desde danos materiais (perda de propriedades, lavouras, rebanhos) até danos morais (sofrimento, perda de entes queridos, abalo psicológico, destruição de modos de vida e culturas). Este processo provavelmente envolverá a apresentação de extensas evidências, testemunhos e pareceres de especialistas para determinar um valor justo para cada tipo de dano. A expectativa é que este julgamento final possa, de fato, concretizar a reparação que as vítimas de Mariana esperam há quase uma década, permitindo-lhes reconstruir suas vidas e comunidades.

Perspectivas futuras e o legado de Mariana

A decisão do Tribunal Superior de Londres no caso Mariana transcende as fronteiras jurídicas e financeiras, consolidando-se como um marco na luta por justiça ambiental e responsabilização corporativa. Ao manter a condenação da BHP por negligência e responsabilidade estrita, a justiça britânica envia uma mensagem inequívoca: grandes corporações não podem se esquivar das consequências de seus atos, mesmo que as operações ocorram em outras partes do mundo. Esta vitória legal é um alento para as centenas de milhares de vítimas do rompimento da barragem de Fundão, que há anos batalham por reconhecimento e reparação pelos danos devastadores que alteraram suas vidas e o meio ambiente. O caminho para a recuperação é longo e árduo, mas a certeza da responsabilização abre uma nova perspectiva de futuro. O caso Mariana continuará a ser um estudo de caso global sobre a necessidade urgente de regulamentações mais rigorosas, fiscalização eficaz e mecanismos robustos de compensação, garantindo que desastres evitáveis não se repitam e que a justiça prevaleça.

Perguntas frequentes (FAQ)

1. Qual foi o principal motivo da condenação da BHP em Londres?
A BHP foi condenada com base em “responsabilidade estrita como poluidora” e, especificamente, por sua “negligência” no contexto do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, em 2015.

2. Quantas pessoas estão buscando compensação neste processo?
Cerca de 620 mil requerentes, incluindo indivíduos e entidades afetadas pelo desastre, estão buscando indenizações neste processo.

3. Quais são os próximos passos no processo legal após esta decisão?
Com a responsabilidade da BHP confirmada, o próximo passo será um segundo julgamento, previsto para outubro deste ano, que se concentrará na avaliação e quantificação detalhada das indenizações a serem pagas aos requerentes.

Para acompanhar os desdobramentos deste caso histórico e entender mais sobre as implicações da responsabilidade corporativa em desastres ambientais, continue acessando informações confiáveis e artigos especializados.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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