Mulher trans supera violências e ingressa na universidade após 25 anos

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A trajetória educacional de cada indivíduo é única, e para muitos, a oportunidade de frequentar uma sala de aula representa um privilégio arduamente conquistado. Essa realidade se manifesta de forma potente na história de Sabriiny Fogaça Lopes, uma mulher trans de 41 anos, cuja persistência a levou à aprovação na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Sua vitória acadêmica chega 25 anos após ter sido forçada a abandonar os estudos, um testemunho comovente da resiliência frente à discriminação e ao preconceito. A jornada de Sabriiny destaca não apenas a superação pessoal, mas também os desafios estruturais enfrentados por pessoas trans no acesso à educação e a importância de políticas de inclusão que garantam direitos fundamentais e a valorização da diversidade no ambiente universitário.

Uma jornada de superação e resiliência

Aos 15 anos, Sabriiny Fogaça Lopes viu seus sonhos educacionais interrompidos abruptamente. A escola, que para ela era um refúgio e fonte de conhecimento, transformou-se em um ambiente hostil. Longe de ser um espaço de aprendizado seguro, a instituição se tornou palco de severas discriminações, repressões e até agressões físicas perpetradas por outros alunos.

O impacto da transfobia na juventude

A jovem Sabriiny era apaixonada por estudar, por ler e por participar ativamente dos projetos escolares. “Eu gostava de frequentar a escola. Eu via a escola como algo tão importante, porque eu gostava de ler, eu gostava de participar de todos os projetos”, ela relata, lembrando-se da paixão que nutria pelo aprendizado. No entanto, essa paixão foi gradualmente sufocada pelo sofrimento contínuo. Naquela época, termos como “transfobia” e “bullying” não eram amplamente compreendidos ou reconhecidos, e as violências que ela experimentava eram, por vezes, minimizadas ou vistas como “brincadeira normal”.

A dor e o trauma causados pela discriminação foram tamanhos que a levaram a abandonar a escola, um passo doloroso que a afastaria do sistema educacional por um quarto de século. Durante esses 25 anos, a ausência de formação formal refletiu-se em dificuldades no mercado de trabalho. Sabriiny atuou brevemente como cabeleireira, mas a sensação de incompletude a acompanhava constantemente, impulsionando um desejo latente de retomar os estudos e reescrever sua própria história.

O retorno aos estudos via EJA

A motivação para um novo começo veio de amigos e do próprio anseio por transformação. Sabriiny decidiu dar uma segunda chance à educação através da Educação de Jovens e Adultos (EJA). O retorno à sala de aula, especificamente no Colégio Estadual Barão de Tefé, em Seropédica, região metropolitana do Rio de Janeiro, foi um momento de apreensão misturado com esperança. “Meu receio era de passar tudo o que eu passei na minha infância, entendeu? Quando eu botei o pé na porta da escola, eu fiquei com aquele receio, pensei, poxa, será que vão me aceitar? Será que vão me entender do jeito que eu sou?”, confessa Sabriiny.

Para sua surpresa e alívio, o ambiente na EJA era completamente diferente. Cercada por alunos de idades e histórias de vida diversas, Sabriiny encontrou acolhimento. Esse novo contexto escolar não apenas a aceitou, mas a engajou. Ela participou ativamente de projetos, como o “Alunos Autores”, uma iniciativa da Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro (Seeduc RJ) que resultou na publicação de uma coletânea de contos por estudantes da rede pública. Essa experiência renovou sua confiança e reafirmou seu amor pelo aprendizado.

O acesso ao ensino superior e a luta pela inclusão

Com o ensino médio concluído e a autoconfiança restabelecida, Sabriiny Fogaça decidiu alçar voos mais altos: o ensino superior. Sua determinação a levou a prestar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) por duas vezes, obtendo aprovação em ambas as tentativas.

Aprovação e engajamento acadêmico

A primeira aprovação foi para Licenciatura em Educação do Campo, e a segunda, em 2026, para Licenciatura em Educação Especial – o curso que realmente despertou seu interesse e vocação. “Eu sempre tive um olhar sensível para as diferenças, acredito muito que eu quero contribuir para que todas as pessoas tenham acesso à educação, porque a educação faz parte da vida de todo mundo”, ela afirma. Suas expectativas são altas: aprender intensamente e se tornar uma profissional que efetivamente faça a diferença na vida de outras pessoas.

Ainda antes de iniciar suas aulas, Sabriiny já demonstrava seu engajamento com a causa da diversidade ao ser eleita Diretora de Diversidade do Diretório Acadêmico do curso de Educação Especial na UFRRJ. Sua ambição não para por aí; ela planeja retornar à universidade para realizar o sonho de cursar Serviço Social, visando construir uma carreira robusta na educação especial. “Eu quero mostrar que nunca é tarde para começar. Eu sei que vai ser difícil, uma mulher trans arrumar um emprego em uma escola. Vão ter barreiras para enfrentar, para dar aula, ensinar as pessoas, porque tem aquele olhar de preconceito. Mas eu vou continuar prosseguindo”, ressalta Sabriiny, ciente dos desafios que ainda a esperam.

Desafios e cotas para pessoas trans na educação

A jornada de Sabriiny, embora vitoriosa, é um lembrete das barreiras significativas que pessoas trans enfrentam no sistema educacional brasileiro. Dados da Associação Nacional de Travestis e Transsexuais (Antra) de 2024 revelam que apenas 0,3% da população trans e travesti consegue acessar o ensino superior, e mais de 70% não completam o ensino médio. Essa exclusão é atribuída à transfobia institucional e social, que resulta em baixíssimos índices de escolarização e formação profissional.

No que tange à Educação de Jovens e Adultos (EJA), embora seja uma porta de entrada crucial para muitos, os desafios persistem. De acordo com o Censo Escolar 2024, existem cerca de 2,4 milhões de estudantes na EJA, com 2,2 milhões na rede pública. Contudo, a porcentagem de estudantes da EJA que acessa o ensino superior no ano seguinte à conclusão do ensino médio é notavelmente menor (9%) em comparação com a modalidade regular (30%), conforme dados do Censo da Educação Superior 2023.

Apesar desse cenário, medidas de inclusão têm sido implementadas. Atualmente, 38 universidades públicas no Brasil – entre estaduais e federais – oferecem cotas para pessoas trans, sendo 13 no Sudeste, quatro no Sul, 13 no Nordeste, três no Centro-Oeste e cinco no Norte. A Antra, entretanto, salienta que garantir a entrada é apenas o primeiro passo; são necessárias políticas de permanência, como comissões de acompanhamento, assistências específicas e a criação de espaços seguros e acolhedores, para que esses estudantes possam efetivamente concluir seus estudos e prosperar.

Legado de resiliência e inspiração

A história de Sabriiny Fogaça Lopes é um farol de esperança e resiliência. Sua luta para superar a violência e a discriminação na juventude, aliada à determinação em retomar os estudos após décadas, culminando na aprovação para o ensino superior, é um poderoso exemplo de que nunca é tarde para perseguir os sonhos. A trajetória de Sabriiny não apenas celebra uma conquista individual, mas também lança luz sobre a urgência de construir um sistema educacional mais inclusivo e acolhedor para todas as pessoas, especialmente aquelas que, como ela, enfrentam múltiplas barreiras. Sua futura atuação na educação especial promete ampliar esse impacto, transformando sua própria experiência em uma força motriz para a mudança social e para a garantia do direito à educação plena para todos.

FAQ

Quem é Sabriiny Fogaça Lopes?
Sabriiny Fogaça Lopes é uma mulher trans de 41 anos que, após 25 anos afastada dos estudos devido à transfobia e agressões, foi aprovada na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

Quais foram os principais desafios enfrentados por Sabriiny em sua jornada educacional?
Sabriiny foi obrigada a deixar a escola aos 15 anos devido a discriminações severas e agressões físicas que sofria. O preconceito e a transfobia na juventude marcaram um longo período de afastamento da educação formal.

Como a Educação de Jovens e Adultos (EJA) impactou sua trajetória?
A EJA foi fundamental para o retorno de Sabriiny aos estudos. No Colégio Estadual Barão de Tefé, ela encontrou um ambiente acolhedor, diferente de sua experiência anterior, o que a motivou a se engajar e concluir o ensino médio, abrindo caminho para o ensino superior.

Qual a situação do acesso de pessoas trans ao ensino superior no Brasil?
Dados da Antra de 2024 indicam que apenas 0,3% da população trans e travesti acessa o ensino superior, com mais de 70% não concluindo o ensino médio. Embora 38 universidades públicas ofereçam cotas para pessoas trans, a luta por políticas de permanência e ambientes mais acolhedores ainda é crucial.

Para saber mais sobre as políticas de inclusão e apoiar iniciativas que promovem o acesso à educação para todos, explore as plataformas de defesa dos direitos de pessoas trans e acompanhe as discussões sobre diversidade e inclusão nas universidades brasileiras.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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