A seca, antes um problema predominante em regiões áridas, transformou-se em um desafio de proporções globais, atingindo ecossistemas e populações que antes se consideravam menos vulneráveis. Observa-se um aumento de quase 30% na frequência e duração das secas desde o ano 2000, um indicativo claro do avanço da crise climática. Este cenário alarmante exige uma resposta urgente e a aplicação de soluções concretas em escala mundial. Estima-se que, até 2050, cerca de três em cada quatro pessoas no mundo poderão ser afetadas por esses eventos, enquanto a demanda global por água projetada para 2030 deverá exceder a oferta em até 40%. É neste contexto de crescente preocupação que a 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), que ocorre em Ulaanbaatar, Mongólia, assume papel central nos debates sobre a mitigação e adaptação a este fenômeno.
A expansão global da seca e seus impactos
A intensificação da seca transcende fronteiras geográficas, manifestando-se em diversas formas e com variados graus de severidade em diferentes continentes. Dados recentes apontam para um aumento notável da aridez em localidades que historicamente não enfrentavam tais desafios com essa intensidade.
Panorama mundial e regional
Em julho deste ano, por exemplo, o Observatório Global da Seca registrou temperaturas acima da média na Europa, culminando em ondas de calor prolongadas. Contudo, a problemática se estende por um espectro muito mais amplo. Regiões como o Reino Unido, Itália, França, Alemanha, Hungria e Romênia, na Europa, têm sentido o impacto de condições de seca mais severas. Na África, o sul e o centro do continente, incluindo países como Sudão, Etiópia, Zâmbia e Madagascar, enfrentam cenários preocupantes. O Oriente Médio, com Irã e Omã, e vastas áreas da Ásia, como Cazaquistão, China e Filipinas, no centro e sudeste, também foram duramente atingidos.
No Brasil, todas as cinco macrorregiões registraram algum grau de seca em julho de 2026. Um levantamento do Monitor de Secas, coordenado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), em parceria com boletins mensais do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), classificou 157 municípios em situação de “seca severa”. Isso implica uma queda acentuada na umidade do solo, estresse hídrico na vegetação e perdas significativas na agricultura. Especialistas do Cemaden alertam que a tendência de ressecamento, marcada pela diminuição das chuvas e aumento das temperaturas, deve se intensificar nos próximos meses, elevando o risco de um desequilíbrio entre precipitação e evaporação que agravará ainda mais a situação.
A seca pode assumir distintas tipologias: a seca meteorológica, caracterizada pela baixa precipitação prolongada; a seca agrícola, que afeta diretamente a umidade do solo para as plantas, comprometendo lavouras e pastagens; e a seca hidrológica, que reduz os níveis de rios, reservatórios e aquíferos, impactando o abastecimento humano, a geração de energia, a navegação e a biodiversidade.
Vulnerabilidade e a crise amazônica
Os efeitos da seca não se distribuem de forma homogênea. Populações que dependem diretamente dos recursos naturais para sua subsistência, como povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, extrativistas, pescadores artesanais e agricultores familiares, são desproporcionalmente impactadas. No Brasil, o problema tem se manifestado de forma severa em todas as cinco macrorregiões nos últimos 30 anos, embora com maior gravidade no Nordeste e no Norte de Minas Gerais, onde a seca entre 2012 e 2017 causou impactos drásticos nas reservas hídricas e na alimentação animal.
Um dos casos mais emblemáticos é o da Amazônia. A maior floresta tropical e bacia hidrográfica do planeta, que anteriormente era tida como resiliente à aridez, passou a enfrentar secas históricas. Nos anos de 2023 e 2024, rios em diversos municípios da região registraram os menores níveis da história, resultando no isolamento de comunidades, interrupção do transporte fluvial e dificuldades no abastecimento de alimentos e medicamentos. Organizações indígenas, como a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), emitiram alertas sobre os impactos nas comunidades tradicionais. A crise climática manifesta-se no cotidiano dessas populações: a seca dos rios, o desaparecimento dos peixes, a impossibilidade de navegação e o aumento das queimadas na floresta antes úmida. O monitoramento recente do Cemaden indica um agravamento da situação em territórios indígenas, com um salto de três áreas afetadas por seca severa em junho para 17 em julho, destacando-se distritos sanitários especiais em regiões do Amazonas, Pará, Tocantins e Mato Grosso. Assentamentos rurais também sofreram aumento expressivo nas áreas afetadas, com Pará, Tocantins, Mato Grosso, Rondônia e Amazonas concentrando a maior parte desses casos.
Desafios climáticos e a busca por soluções
Além da mudança na frequência e intensidade, as secas modernas apresentam novas características em sua duração, impulsionadas pelo aquecimento global.
Novos padrões de seca e o fenômeno El Niño
Pesquisadores apontam para a ocorrência de estiagens mais longas e, mais recentemente, o surgimento da “seca-relâmpago”. Este fenômeno de curta duração, tipicamente associado ao verão e ao aumento do calor, manifesta-se rapidamente, com forte intensidade, durando dias ou semanas. No entanto, o efeito combinado da redução da cobertura vegetal e do aumento das temperaturas durante essas secas agrava rapidamente as condições de aridez da região.
As preocupações com a seca se intensificaram com a previsão da chegada de um El Niño mais intenso. Este fenômeno, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, é conhecido por alterar a circulação atmosférica global e modificar os padrões de chuva. As previsões mais recentes indicam que o El Niño deve se fortalecer entre agosto e outubro de 2026, com padrões de chuva mais secos que o normal esperados para a Índia e partes do sul da Ásia, Austrália Meridional e Oriental, América Central e Caribe, Noroeste da América do Sul e Norte da Europa. No Brasil, um El Niño de forte intensidade está historicamente associado à redução das chuvas e ao aumento das temperaturas nas regiões Norte, Nordeste e em áreas do Centro-Oeste, tornando essas regiões mais vulneráveis a secas prolongadas, secas-relâmpago e queimadas. A Organização Meteorológica Mundial estima que a seca e outros impactos climáticos associados ao El Niño podem agravar significativamente a insegurança alimentar, com a população em situação de insegurança alimentar aguda podendo saltar de 225 milhões para 275 milhões de pessoas, principalmente nas Américas Central e do Sul, Caribe e Sul da África.
A resposta global: prevenção e cooperação
Diante da complexidade e da gravidade do cenário, a abordagem global em relação à seca tem evoluído. Há um estímulo crescente para que governos invistam em monitoramento, sistemas de alerta precoce, recuperação de áreas degradadas e gestão integrada da água, em vez de focar apenas na resposta a emergências. O fortalecimento da capacidade de adaptação das populações também se mostra fundamental.
A expectativa é que esses temas ganhem força na COP17, catalisando ações e investimentos. A Aliança Internacional para a Resiliência à Seca (IDRA), da qual o Brasil passou a fazer parte em 2024, representa um avanço significativo. Criada durante a COP27 do Clima em 2022, a IDRA reúne governos e organizações internacionais com o objetivo de fortalecer a cooperação entre os países, ampliar o compartilhamento de informações e incentivar investimentos em ações de adaptação. Essa articulação política é vista como crucial para influenciar negociações e direcionar recursos para enfrentar as secas de forma proativa, antes que se transformem em emergências ainda mais devastadoras. O debate na Mongólia é um passo essencial para delinear estratégias conjuntas e eficazes para um futuro mais resiliente à seca.
O futuro da resiliência climática
A seca, que antes era uma preocupação localizada, consolidou-se como um dos mais prementes desafios globais da atualidade, com repercussões socioeconômicas e ambientais que se intensificam a cada ano. A interconexão dos sistemas climáticos e a vulnerabilidade de ecossistemas outrora robustos, como a Amazônia, evidenciam a necessidade de uma abordagem integrada e colaborativa. A COP17 surge como um ponto de inflexão, onde a comunidade internacional tem a oportunidade de transcender o reconhecimento do risco e avançar para a implementação de ações concretas e preventivas. A urgência reside em proteger as comunidades mais vulneráveis, salvaguardar a segurança alimentar e hídrica e garantir a sustentabilidade dos recursos naturais para as futuras gerações, transformando a crise da seca em um motor para a inovação e cooperação global.
Perguntas frequentes
1. O que é a COP17 da Desertificação e qual sua importância?
A COP17 é a 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação, um evento crucial onde líderes globais, cientistas e representantes da sociedade civil se reúnem para discutir estratégias e políticas para combater a desertificação e os impactos da seca. Sua importância reside na formulação de planos de ação coordenados e no estímulo a investimentos para mitigar os efeitos da degradação da terra e da escassez hídrica em escala mundial.
2. Como a seca está afetando o Brasil atualmente?
O Brasil enfrenta um cenário de seca em todas as suas cinco regiões, com 157 municípios em situação de “seca severa” em julho de 2026. Regiões como o Nordeste, Norte de Minas Gerais e, surpreendentemente, a Amazônia, têm registrado níveis alarmantes de escassez hídrica. A seca impacta diretamente a agricultura, o abastecimento de água, a navegação fluvial e as comunidades tradicionais, com previsões de agravamento nos próximos meses devido a tendências de ressecamento e o fenômeno El Niño.
3. Qual a diferença entre seca meteorológica, agrícola e hidrológica?
Seca meteorológica: Ocorre quando as precipitações permanecem abaixo da média por um período prolongado.
Seca agrícola: Reduz a umidade disponível para as plantas, comprometendo lavouras e pastagens e afetando a produção de alimentos.
Seca hidrológica: Afeta rios, reservatórios e aquíferos, impactando o abastecimento humano, a geração de energia, a navegação e a biodiversidade aquática.
Para compreender mais sobre as estratégias de resiliência climática e os impactos das mudanças ambientais, continue acompanhando as notícias e análises sobre este tema crucial.


