A memória e o legado da ialorixá e líder quilombola Maria Bernadete Pacífico, amplamente conhecida como Mãe Bernadete, ganharam um novo e significativo espaço de preservação no Rio de Janeiro. Recentemente, o Museu Nacional, uma das mais importantes instituições científicas e culturais do Brasil, incorporou ao seu acervo uma indumentária utilizada por Mãe Bernadete. A peça, um marcante vestido branco com detalhes em azul, foi doada por seu filho, Jurandy Pacífico dos Santos, gestor cultural e líder do Quilombo Pitanga de Palmares, durante a 3ª edição do evento Diálogos da Reconstrução. Este gesto, realizado na sede da instituição em São Cristóvão, Zona Norte do Rio, simboliza não apenas a homenagem a uma figura central na luta pelos direitos humanos e quilombolas, mas também reforça o compromisso do museu com a valorização da cultura afro-brasileira e das comunidades tradicionais, ampliando a representação de suas histórias no cenário nacional.
A indumentária como patrimônio vivo: memória e ancestralidade
A doação de uma peça de uso pessoal de Mãe Bernadete ao acervo do Museu Nacional transcende o simples ato de entregar um objeto. Para a Comunidade Quilombola de Pitanga de Palmares, em Simões Filho, Região Metropolitana de Salvador, Bahia, onde Mãe Bernadete liderava, e para seus familiares, a indumentária representa a ancestralidade e a permanência de um legado inestimável. O professor Jurandy Pacífico dos Santos, filho da ialorixá, relatou que a decisão de doar a peça surgiu após consulta de representantes do Museu, que buscaram uma forma de eternizar a presença e a luta de Mãe Bernadete.
O significado profundo de uma doação histórica
Ao escolher a indumentária, Jurandy Pacífico dos Santos enfatizou que a peça é muito mais do que um vestuário. “A doação da indumentária não é apenas a doação de um objeto. Aquilo não se trata de um objeto. Se trata além disso. Se trata de ancestralidade. Se trata de uma mulher que dedicou 72 anos de sua vida para a defesa dos Direitos Humanos, dos quilombos e do território”, afirmou o filho da líder quilombola. Para a comunidade, é uma forma de manter a memória de Mãe Bernadete viva e pulsante. Ele acrescentou que a integração da indumentária ao prestigiado acervo do Museu Nacional fortalece a cultura afro-brasileira e a memória de um povo que, segundo ele, historicamente sofreu humilhações e falta de reconhecimento. “Isso é um reconhecimento. É o resgate da memória, a permanência dessa memória e o empoderamento desse povo”, concluiu.
A perspectiva da Comunidade Quilombola de Pitanga de Palmares sobre a doação é de que ela representa o rompimento de barreiras geográficas e culturais. A história, os conhecimentos ancestrais e a identidade quilombola são levados para um dos mais importantes espaços de preservação científica, histórica e cultural do Brasil. Dessa forma, a indumentária contribuirá para que futuras gerações, pesquisadores e visitantes não apenas conheçam a trajetória singular de Mãe Bernadete, mas também a vasta história de resistência dos povos quilombolas e das comunidades tradicionais. “Estamos compartilhando com o Brasil e com o mundo um pedaço da nossa história, da nossa ancestralidade e da luta de um povo que continua resistindo”, complementou Jurandy Pacífico dos Santos. Para a família, a entrega da roupa significa a continuidade de uma história que não se encerrou com a partida da líder. A peça deixa de ser meramente um item de vestuário e se transforma em um patrimônio de memória, carregado de identidade, espiritualidade, afeto e representatividade.
Diálogos da Reconstrução: fortalecendo pontes e saberes
A cerimônia de doação da indumentária ocorreu durante a 3ª edição do Diálogos da Reconstrução, um evento promovido pelo Museu Nacional, vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O tema central desta edição foi “Memórias, Saberes e Patrimônios Quilombolas no Museu Nacional”, sublinhando o foco na valorização e integração dessas culturas no ambiente museológico. O encontro contou com a participação de importantes parceiros, incluindo o Projeto Museu Nacional Vive, a Unesco, a UFRJ e o Instituto Cultural Vale, reforçando a relevância da iniciativa.
A visão institucional para um museu plural e democrático
A intenção primordial do Museu Nacional com este evento e com a incorporação de peças como a de Mãe Bernadete é promover um diálogo construtivo com lideranças quilombolas de diversas regiões do país. O objetivo é discutir a preservação da memória, a produção cultural e a transmissão de conhecimentos, contribuindo ativamente para a construção de um museu mais plural e democrático. O encontro trata os saberes, as práticas e as narrativas quilombolas como patrimônios vivos, incentivando uma reflexão coletiva sobre como musealizar essas memórias e como a instituição pode atuar para valorizá-las e difundi-las.
Thais Mayumi Pinheiro, diretora de Integração Museu e Sociedade do Museu Nacional, destacou a importância de ouvir ativamente as lideranças quilombolas para compreender como elas desejam ser representadas no Museu. “Entender como os produtores e detentores de conhecimentos tradicionais querem se ver representados no Museu Nacional e, assim, reforçar o compromisso da instituição com a construção de um museu plural e democrático”, observou Pinheiro. Corroborando essa visão, Caio Gonçalves Dias, gestor das novas exposições do Projeto Museu Nacional Vive (PMNV), salientou que quando uma mestra ceramista ou uma tecelã quilombola compartilha seu ofício, ela está transmitindo uma forma de conhecer o mundo. Para ele, o papel do museu e o compromisso do PMNV é “criar condições para que esses saberes sejam reconhecidos, respeitados e apresentados como as próprias comunidades entendem que devem ser”.
O legado inesquecível de Mãe Bernadete e a busca por justiça
A presença da indumentária de Mãe Bernadete no Museu Nacional serve como um lembrete vívido de sua vida dedicada à luta e, tragicamente, de sua morte violenta. Maria Bernadete Pacífico foi brutalmente assassinada em 17 de agosto de 2023, no próprio Quilombo Pitanga de Palmares, em Simões Filho, Bahia. Os assassinos invadiram a casa onde ela estava com seus netos e dispararam 25 vezes, com a maioria dos tiros atingindo seu rosto. À época, a promotoria apontou como motivo para o crime a incansável atuação da líder quilombola contra a expansão do tráfico de drogas na comunidade.
A tragédia foi ainda mais dolorosa por Mãe Bernadete estar incluída em um programa de proteção desde 2017, ano em que seu filho, Binho do Quilombo, também foi assassinado. Sua trajetória foi marcada pela defesa incessante de seu povo, de suas terras e de seus direitos. A busca por justiça para Mãe Bernadete continua, com recentes condenações de envolvidos, como a de um quarto acusado a 23 anos de prisão, o que reitera a persistência na elucidação dos fatos e responsabilização dos culpados. A doação de sua indumentária é, portanto, um ato de resistência que assegura que sua história, sua voz e sua luta por um mundo mais justo não sejam esquecidas, mas sim celebradas e perpetuadas em um dos mais importantes palcos culturais do Brasil.
Valorização da memória e o futuro da representação
A inclusão da indumentária de Mãe Bernadete no acervo do Museu Nacional marca um momento emblemático para a valorização da memória e da cultura quilombola no Brasil. Este evento não só homenageia uma figura de inestimável importância, mas também sublinha a necessidade de ampliar a representação e o reconhecimento das comunidades tradicionais nos grandes espaços culturais do país. Ao dar visibilidade a estes patrimônios vivos, o Museu Nacional reafirma seu papel na construção de uma narrativa histórica mais inclusiva e democrática, que reconheça a riqueza e a resiliência dos povos quilombolas. A peça, carregada de simbolismo, se torna um farol para futuras gerações, pesquisadores e visitantes, convidando-os a mergulhar nas histórias de luta, resistência e profunda sabedoria que emanam das comunidades quilombolas.
Perguntas frequentes (FAQ)
Quem foi Mãe Bernadete?
Maria Bernadete Pacífico, conhecida como Mãe Bernadete, foi uma ialorixá e líder quilombola da Comunidade Quilombola de Pitanga de Palmares, em Simões Filho, Bahia. Ela dedicou sua vida à defesa dos Direitos Humanos, dos quilombos e de seus territórios, sendo brutalmente assassinada em 2023.
Qual o significado da doação da indumentária ao Museu Nacional?
A doação da indumentária de Mãe Bernadete simboliza a perpetuação de sua memória, ancestralidade e luta. Para a comunidade quilombola, representa o reconhecimento da cultura afro-brasileira, o resgate da memória e o empoderamento de seu povo em um dos mais importantes espaços culturais do Brasil.
Onde a indumentária de Mãe Bernadete está exposta?
A indumentária de Mãe Bernadete foi incorporada ao acervo do Museu Nacional, localizado em São Cristóvão, Zona Norte do Rio de Janeiro. A instituição busca integrá-la a futuras exposições que valorizem as memórias, saberes e patrimônios quilombolas.
O que são os Diálogos da Reconstrução?
Os Diálogos da Reconstrução são eventos promovidos pelo Museu Nacional em parceria com outras instituições. Sua 3ª edição abordou “Memórias, Saberes e Patrimônios Quilombolas”, buscando promover o diálogo com lideranças quilombolas e discutir a preservação da memória e a produção cultural dessas comunidades.
Para aprofundar-se na história e no legado de Mãe Bernadete e entender a importância de iniciativas como a doação de sua indumentária, convidamos você a visitar o Museu Nacional e explorar as narrativas dos povos quilombolas em nosso país. Sua visita contribui para manter viva a memória e a luta por justiça e reconhecimento.


