Imagine uma paisagem onde lavouras prosperam lado a lado com florestas nativas, um campo de milho beneficiando-se da sombra protetora de uma castanheira-do-pará. Essa visão, que une produção agrícola e preservação ambiental, tem ganhado destaque entre especialistas em clima e ativistas ambientais como um caminho promissor para a recuperação do planeta dos impactos da ação humana, refletidos em eventos climáticos extremos como tempestades e secas.
Essa combinação, um modelo de uso da terra considerado justo e sustentável, é conhecida como “agrofloresta”. O sistema busca otimizar terrenos e transformar técnicas de monocultura em florestas biodiversas, sendo hoje uma das principais apostas para mitigar os efeitos das mudanças climáticas.
A proposta é uma agricultura que dispensa agrotóxicos e produtos químicos, privilegiando a ecologia, o equilíbrio natural e a coexistência entre plantas menores, como as alimentares, e árvores maiores com raízes profundas, que fornecem sombra e água.
Este modelo tem como consequência a diminuição da emissão de dióxido de carbono (CO₂) na atmosfera, gás que agrava o efeito estufa, um dos principais causadores do aquecimento global. Quanto mais árvores vivas, maior a absorção de carbono pelas plantas e menor a quantidade de gás nocivo liberado na atmosfera.
Segundo Moisés Savian, engenheiro agrônomo e secretário do Ministério do Desenvolvimento Agrário, a agrofloresta atua em duas frentes: mitigação e adaptação aos efeitos das mudanças climáticas. “Quando eu estou diminuindo a emissão de carbono, eu estou mitigando. Se eu tenho uma lavoura de milho que não resiste muito tempo sem chuva – diante da crise hídrica – e junto esta lavoura à floresta, que tem sombra e raízes profundas, o milho se beneficiará da captação de água de uma castanheira, por exemplo”, explica.
Savian ressalta que a agrofloresta agrega a geração de renda e a produção de alimentos à questão ambiental, tornando-se uma ferramenta poderosa contra a fome no mundo. A ideia de florestas produtivas ganhou espaço durante a COP 30, realizada em Belém (PA), seguindo uma trilha ancestral apontada por especialistas, como o climatologista Carlos Nobre.
Em Botuporã, Bahia, um projeto de cooperação internacional entre comunidades locais e da região da Alsácia do Norte, na França, tem incentivado moradores e jovens lideranças a unirem agricultura e ecologia. O projeto, iniciado em 2021, promove a troca de saberes sobre sustentabilidade entre agricultores, produtores rurais e jovens voluntários.
Essa cooperação proporcionou ao estudante de Direito Yago Fagundes uma imersão em agroecologia na França e, posteriormente, a aplicação de seus conhecimentos no Brasil. “A experiência no Brasil tem sido de empoderamento rural. Nós recebemos, por exemplo, especialistas franceses que capacitaram nossos agricultores na produção do queijo Tomme de Vache, utilizando uma receita milenar de forma sustentável”, afirma Yago.
O prefeito da cidade francesa de Eschbach, Hervé Tritschberger, destaca que a iniciativa visa valorizar os agricultores e produtores rurais, além de capacitar jovens voluntários na troca de saberes sobre sustentabilidade. Em contrapartida, duas voluntárias francesas passaram oito meses em Botuporã para aprender técnicas de agricultura orgânica.
William Torres, jornalista socioambiental e divulgador científico, é adepto da plantação de verduras e leguminosas no próprio quintal de casa. Ele ressalta a importância da consciência ambiental responsável e coletiva, além da justiça socioambiental.
O Secretário de Governança Fundiária e Desenvolvimento Territorial e Socioambiental do Ministério de Desenvolvimento Agrário, Moisés Savian, enfatiza que a COP 30 foi uma oportunidade para mostrar ao mundo as iniciativas brasileiras, como a agenda de florestas produtivas. “Além de manter, vamos ampliar a área de cobertura florestal com geração de renda e alimentos”, afirma.
Savian defende um sistema de produção de alimentos resiliente às intempéries, como secas e chuvas extremas, além do incentivo financeiro e crédito agrícola para capacitar pequenos agricultores e produtores rurais na produção sustentável. Para ele, a Floresta em Pé pode ser parte da solução para a emergência climática.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

