A descoberta de uma capivara morta no canal que interliga Santos e Guarujá, no litoral de São Paulo, na última terça-feira (9), gerou comoção e levantou sérios questionamentos sobre a eficácia dos protocolos de resgate de animais silvestres em áreas urbanas. O animal havia sido avistado por moradores da região por pelo menos dois dias, flutuando e aparentemente em estado de vulnerabilidade, antes de ser encontrado sem vida. A situação desencadeou uma série de acionamentos a diferentes órgãos e instituições, expondo uma complexa teia de responsabilidades e, segundo ativistas, uma lamentável inação que culminou na trágica morte do mamífero. A repercussão do caso sublinha a urgência de estabelecer mecanismos mais ágeis e coordenados para lidar com a fauna que, cada vez mais, interage com o ambiente urbano.
Cronologia de um descaso: dias de agonia e falta de ação
A história da capivara no canal das catraias começou no domingo (7) pela manhã, quando o animal foi avistado pela primeira vez no cais da região portuária. Sua presença ali, embora incomum, não é totalmente inédita, visto que esses roedores são adaptáveis e frequentemente encontrados em ambientes aquáticos próximos a áreas urbanizadas. No entanto, a proximidade com o tráfego de embarcações e a ausência de um habitat natural seguro indicavam a necessidade de intervenção.
O primeiro avistamento e a tentativa frustrada de resgate
A Autoridade Portuária de Santos (APS) confirmou o avistamento da capivara no cais na manhã de domingo. De imediato, a entidade informou ter acionado o Corpo de Bombeiros para realizar o resgate. Contudo, a tentativa não obteve sucesso. Segundo relatos, ao se aproximarem do animal, os agentes do Corpo de Bombeiros testemunharam a capivara se lançar nas águas do canal, uma reação comum de defesa de animais silvestres sob estresse. A partir desse momento, o animal permaneceu no ambiente aquático, onde foi novamente visto por moradores. A dificuldade em capturar o animal em um ambiente dinâmico como o canal, com o fluxo de embarcações, representou um desafio significativo para as equipes.
Apelo da comunidade e a burocracia do atendimento
Na manhã de segunda-feira (8), por volta das 7h, a capivara foi novamente avistada por moradores que realizavam a travessia no canal das catraias, um ponto de intensa circulação entre Santos e Guarujá. Imagens registradas mostravam o animal aparentemente imóvel, mas com a cabeça fora d’água, indicando que ainda estava vivo, porém em uma condição preocupante. Diante da situação, a comunidade voltou a acionar as autoridades, buscando um novo resgate. Lamentavelmente, nenhum órgão compareceu ao local após esses acionamentos iniciais.
A demora na resposta e a aparente falta de coordenação levaram a presidente do Instituto Eliseu, Leila Abreu, a gravar um vídeo na terça-feira (9), fazendo um apelo público por apoio e resgate. O Instituto Eliseu é uma organização conhecida por atuar no recebimento e tratamento de animais abandonados ou vítimas de maus-tratos na região, e a intervenção de Leila Abreu ressaltou a urgência e o desamparo da situação. A visibilidade do caso, amplificada pelas redes sociais e pelo clamor da comunidade, esperava catalisar uma ação efetiva que, infelizmente, não veio a tempo. A burocracia e a falta de clareza nas responsabilidades entre os diversos entes governamentais pareciam criar um limbo que impedia uma resposta ágil e eficaz.
O intrincado jogo de responsabilidades e as falhas na comunicação
A inércia no resgate da capivara expôs as fragilidades na coordenação entre os diferentes órgãos responsáveis pelo bem-estar animal e pela segurança no ambiente aquático do litoral paulista. Cada entidade acionada apresentou sua versão dos fatos e as medidas tomadas, revelando uma comunicação fragmentada e, em última instância, ineficaz para o propósito de salvar a vida do animal.
Autoridades envolvidas e a ausência de uma resposta coordenada
A Prefeitura de Guarujá, por meio da Secretaria de Meio Ambiente e Segurança Climática (Semam), informou ter tomado conhecimento do caso e acionado a Guarda Portuária para que esta, por sua vez, solicitasse o resgate aos órgãos competentes. Paralelamente, a Prefeitura de Santos, através da Guarda Civil Municipal (GCM), realizou buscas na área indicada, mas não conseguiu localizar a capivara. A GCM de Santos também solicitou apoio da Guarda Portuária para auxiliar em um eventual cerco e sedação do animal, caso ele fosse encontrado. Essa troca de responsabilidades e acionamentos entre diferentes esferas – municipal e portuária – demonstra a falta de um protocolo unificado e claro para emergências com animais silvestres em áreas de fronteira entre municípios e jurisdições marítimas.
A Autoridade Portuária de Santos (APS), apesar de ter sido a primeira a acionar os bombeiros no domingo, posteriormente emitiu uma nota alegando “desconhecer a informação de que qualquer indivíduo da espécie tenha sido encontrado morto na região do Porto”. Esta declaração contrasta diretamente com o relato da comunidade e dos ativistas, levantando dúvidas sobre a transparência e a efetividade do monitoramento na área portuária. A ausência de um plano de contingência bem definido e de uma liderança clara em tais situações resultou em um impasse burocrático, com o animal sendo a principal vítima da falta de agilidade e coordenação.
O lamento de especialistas e o destino incerto do corpo
O desfecho trágico ocorreu no fim da tarde de terça-feira (9). Segundo Leila Abreu, a presidente do Instituto Eliseu, um dos catraieiros que opera no canal encontrou a capivara morta. A notícia foi recebida com profundo pesar pela ativista, que lamentou o ocorrido e atribuiu o desfecho à “falta de atendimento”. Em suas palavras, Abreu descreveu a situação como um “tremendo jogo de empurra”, onde “mandaram respostas prontas”, e concluiu que o que prevaleceu foi “indolência” e “pouco caso”. Essa crítica contundente reflete a frustração de quem atua na linha de frente da proteção animal e vê a vida de um ser vivo ser perdida por conta da morosidade administrativa.
O catraieiro que encontrou o animal morto informou a Leila Abreu que o corpo foi retirado das águas. No entanto, o destino do cadáver da capivara não foi divulgado por nenhuma das partes. A falta de informações sobre a destinação do corpo impede a realização de uma necropsia para determinar a causa exata da morte e também levanta preocupações ambientais sobre o descarte adequado de carcaças em áreas aquáticas urbanas. A reportagem tentou contato com a Associação dos Catraieiros de Santos/Guarujá, o Corpo de Bombeiros e a Polícia Militar Ambiental para obter mais detalhes sobre o caso, mas não obteve retorno até a finalização deste material, reforçando a dificuldade em compilar um panorama completo e coeso das ações e responsabilidades.
Implicações e reflexões sobre a fauna urbana e o resgate
A morte da capivara no canal das catraias é mais do que um incidente isolado; é um sintoma da crescente e complexa interação entre a fauna silvestre e o ambiente urbano, e da necessidade premente de políticas públicas e protocolos de resgate mais eficazes. A presença de capivaras, gambás, aves e outros animais silvestres em cidades brasileiras é uma realidade que exige atenção e preparo das autoridades. Esses animais, frequentemente deslocados de seus habitats naturais pela expansão urbana, acabam em áreas onde estão expostos a perigos como atropelamentos, maus-tratos, falta de alimento adequado e, como neste caso, a inação em situações de emergência.
O “jogo de empurra” relatado por Leila Abreu não é incomum em cenários que envolvem múltiplas jurisdições e responsabilidades. Canais e áreas portuárias, por exemplo, podem ser de responsabilidade federal, estadual ou municipal, e a fauna silvestre pode estar sob a alçada de órgãos ambientais diferentes dos responsáveis pela segurança pública ou pela infraestrutura portuária. Essa fragmentação burocrática cria lacunas críticas no atendimento. Para evitar futuras tragédias, é fundamental que as cidades desenvolvam planos de contingência intersetoriais, com papéis e responsabilidades claramente definidos para cada órgão, desde o primeiro acionamento até a conclusão do resgate ou a destinação adequada de um animal. A agilidade é crucial, pois a cada hora que passa, as chances de sobrevivência de um animal em situação de risco diminuem drasticamente. A sociedade, por sua vez, tem um papel ativo ao denunciar, pressionar e apoiar instituições que trabalham na proteção animal, clamando por um tratamento mais digno e eficiente para a vida selvagem que compartilha nossos espaços.
Perguntas frequentes
Onde a capivara foi encontrada?
A capivara foi encontrada morta no canal que liga as cidades de Santos e Guarujá, no litoral de São Paulo, uma via aquática utilizada para a circulação de embarcações como as catraias.
Quais órgãos foram acionados para o resgate do animal?
Ao longo dos dias, a Autoridade Portuária de Santos (APS), o Corpo de Bombeiros, a Guarda Civil Municipal (GCM) de Santos, a Secretaria de Meio Ambiente e Segurança Climática (Semam) de Guarujá e a Guarda Portuária foram acionados pela comunidade e por outras instituições, como o Instituto Eliseu.
Qual a importância de um resgate rápido para animais silvestres em áreas urbanas?
Um resgate rápido é crucial para a sobrevivência de animais silvestres em áreas urbanas, pois eles estão expostos a diversos perigos, como estresse, ferimentos por veículos ou contato com humanos, contaminação e falta de recursos adequados. A demora pode agravar seu estado de saúde e levar à morte, como ocorreu neste caso.
O que acontece com o corpo de um animal silvestre encontrado morto?
Idealmente, o corpo de um animal silvestre encontrado morto deveria ser recolhido por órgãos ambientais competentes para investigação da causa da morte (necropsia) e descarte adequado, prevenindo riscos sanitários e ambientais. No caso da capivara, o destino do corpo não foi divulgado.
Acompanhe as notícias sobre a fauna silvestre em ambientes urbanos e saiba como colaborar para a proteção desses animais.
Fonte: https://g1.globo.com

