A Escola Estadual Parque dos Sonhos, localizada em Cubatão, litoral paulista, protagonizou uma notável transformação, deixando para trás um passado de insegurança e má fama para se tornar um exemplo de excelência educacional reconhecido internacionalmente. Em 2016, a unidade era conhecida como “Parque dos Pesadelos”, marcada por invasões, furtos e incidentes relacionados ao tráfico de drogas, o que afastava alunos e limitava seu potencial. No entanto, em um período de apenas nove anos, a instituição inverteu essa realidade, sendo laureada na categoria “Superação de Adversidades” do prestigiado Prêmio Melhor Escola do Mundo 2025 (World’s Best School Prize), concedido pela organização britânica T4 Education. Esta conquista não apenas ressalta a resiliência e a inovação de seus educadores e comunidade, mas também reafirma o poder transformador da educação.
Uma reviravolta improvável em Cubatão
O cenário desafiador de 2016
Em 2016, quando o professor de História Régis Marques recebeu o convite para assumir a direção da Escola Estadual Parque dos Sonhos, as informações iniciais sobre a unidade eram desanimadoras. Uma breve pesquisa na internet revelou um histórico de violência na comunidade do Jardim Real – antigo Bolsão 9, bairro criado para reassentar famílias da Serra do Mar –, furtos frequentes às instalações e até mesmo episódios de invasão por traficantes durante eventos escolares. A má reputação era tamanha que a escola havia sido apelidada de “Parque dos Pesadelos” ou “Parque do Terror”.
O ambiente interno não era menos preocupante. A escola, que começou a funcionar em 2014, estava inserida em uma área isolada, cercada por mata e um rio, o que facilitava invasões e o uso do espaço por pessoas externas para consumo de drogas. Relatos da época descrevem a rotina de encontrar pinos de cocaína, camisinhas usadas e garrafas de bebida nas dependências. No segundo dia de Régis Marques como diretor, sua sala foi apedrejada, um claro sinal da hostilidade e desordem que imperavam. Com apenas 116 alunos matriculados, metade da capacidade do prédio, a instituição enfrentava uma crise de evasão e desinteresse, com muitos estudantes pedindo transferência devido ao clima de violência e agressões. Diante desse panorama, Régis traçou uma meta ambiciosa: transformar a Parque dos Sonhos, uma das escolas mais vulneráveis da região, na melhor do estado em apenas cinco anos. Uma promessa que, inicialmente, gerou ceticismo entre os professores mais experientes, como Maria de Lourdes Amorim, que questionou a viabilidade do plano.
Estratégias de transformação e engajamento
Reconstrução e aproximação com a comunidade
A jornada de transformação da Escola Estadual Parque dos Sonhos começou com a reconstrução de sua infraestrutura básica. Com verba insuficiente para lidar com a totalidade dos problemas estruturais, a diretoria buscou apoio da iniciativa privada, enviando 135 ofícios pelo correio. Essa mobilização resultou na arrecadação de R$ 100 mil, que permitiram reformas essenciais como a reparação de muros, pisos e móveis, criando um ambiente minimamente digno e seguro.
Paralelamente à recuperação física, a escola empreendeu esforços para se reconectar com a comunidade do Jardim Real. Foram implementados cursinhos preparatórios para vestibular e concursos, abrindo as portas da instituição aos finais de semana e estabelecendo um elo fundamental com os moradores. Ana Gabriela Lima, uma moradora que viu a escola nascer e cujo filho fez parte da primeira turma, exemplifica esse engajamento. Ela convocou outras mães para atuar como voluntárias, auxiliando na limpeza e na cozinha, fortalecendo a ideia de que a escola era um patrimônio coletivo. Essa colaboração mútua foi crucial para resgatar a confiança e envolver as famílias no processo de mudança.
Expansão curricular e escuta ativa
A transformação pedagógica da Escola Parque dos Sonhos foi marcada pela expansão de seu currículo para além do formato tradicional. Operando em período integral, a escola introduziu 23 projetos extracurriculares variados, que vão da culinária a esportes inovadores para a rede pública, como badminton e patinação artística. Essa diversidade de atividades enriqueceu o aprendizado e ofereceu aos alunos novas formas de interação com o ambiente escolar.
A estudante Ester Silva, de 12 anos, que estuda na Parque dos Sonhos há sete, exemplifica essa mudança. Inicialmente, ela não se sentia atraída pela ideia de ficar “só dentro da sala de aula”, mas a introdução de novos projetos, como as aulas de teatro, a fez encontrar seu lugar e desfrutar da rotina escolar. Além da ampliação curricular, a diretoria e os professores adotaram uma abordagem humanizada, focada em ouvir os alunos e compreender suas necessidades individuais. Essa escuta ativa foi fundamental para criar um ambiente acolhedor e estimulante, onde os estudantes se sentiam valorizados e parte integrante do processo educativo.
O projeto “a escola vai à sua casa”
Um dos projetos mais inovadores e transformadores da Escola Estadual Parque dos Sonhos foi inspirado em um modelo cubano de educação: o programa “A escola vai à sua casa”. Essa iniciativa consiste em identificar alunos com dificuldades de frequência ou disciplina e, então, agendar visitas com os professores às suas residências, geralmente nos finais de semana, com o consentimento dos responsáveis.
O objetivo principal é ir além dos muros da escola para compreender a realidade social e familiar dos estudantes, que muitas vezes enfrentam condições precárias que impactam diretamente seu desempenho e comportamento em sala de aula. O diretor Régis Marques enfatiza a importância de “se colocar no lugar do aluno”, observando as dificuldades que ele enfrenta em casa. Essa prática permite que os professores tenham uma visão mais completa e empática da vida de cada estudante, possibilitando intervenções mais eficazes e um apoio mais personalizado. A compreensão das questões domésticas e sociais é crucial para desenvolver estratégias pedagógicas que realmente atendam às necessidades de cada indivíduo, reforçando o compromisso da escola com o bem-estar integral de seus alunos.
Valores pedagógicos e impacto duradouro
Pilares da não violência e inspiração
Os corredores e salas de aula da Escola Parque dos Sonhos contam uma história de engajamento com valores humanitários. Em cada porta de sala de aula, um grafite celebra um personagem histórico ligado à luta pelos direitos humanos, como Mahatma Gandhi, Nelson Mandela, Malala Yousafzai, Pepe Mujica, Marielle Franco e Paulo Freire. Essas figuras, por vezes alvo de críticas em contextos de polarização política, servem como inspiração para um dos pilares pedagógicos mais importantes da escola: a Semana da Não Violência.
Realizado anualmente em outubro, o evento promove rodas de conversa, estudos sobre ícones pacifistas e práticas de justiça restaurativa. Régis Marques esclarece que a não violência na escola transcende a passividade, sendo, na verdade, uma postura ativa de questionamento a sistemas de opressão e de defesa da união. Ele afirma não temer críticas ideológicas, enfatizando que a escola se pauta pelo que une as pessoas, independentemente de suas orientações políticas, criando um ambiente inclusivo e de respeito mútuo.
Resultados acadêmicos e sociais
A transformação implementada na Escola Parque dos Sonhos não se limitou ao ambiente e ao currículo; ela gerou impactos significativos tanto nos resultados acadêmicos quanto no bem-estar social dos alunos. Em uma década, a escola registrou um avanço notável no Idesp (Indicador de Desempenho do Ensino do Estado de São Paulo), saindo de 2,2 para 4,6. Embora essa pontuação ainda não a coloque no topo do ranking estadual, representa uma evolução de quase 100% no aprendizado, um feito extraordinário dada a sua condição inicial.
Além dos números, o sucesso da escola é medido em vidas. Professores, como Maria de Lourdes, ressaltam que o mais importante é o desenvolvimento e o futuro dos alunos. A escola se tornou um porto seguro, um espaço onde as crianças se sentem protegidas e seguras para expor problemas. O diretor Régis Marques relata quatro casos em que alunas, durante as aulas de tutoria, revelaram estar sofrendo abusos, demonstrando a confiança que o ambiente escolar inspira. Essa capacidade de ser um local de acolhimento e proteção social é considerada um dos maiores triunfos. Olhando para o futuro, a escola, que esteve à beira do fechamento em 2016 com poucos alunos, projeta começar 2026 com 1.200 estudantes, fruto de uma fusão com uma escola vizinha, consolidando-se como um modelo de esperança e transformação.
Conclusão
A jornada da Escola Estadual Parque dos Sonhos, de um “Parque dos Pesadelos” a uma instituição premiada internacionalmente, é um testemunho eloquente do poder da liderança visionária, do engajamento comunitário e de um projeto pedagógico centrado no aluno. A superação de adversidades extremas, a reconstrução física e social, a inovação curricular e a adoção de práticas humanizadas transformaram não apenas uma estrutura física, mas vidas inteiras. A história desta escola em Cubatão é um lembrete inspirador de que a educação, quando abraça seus desafios com coragem e criatividade, pode verdadeiramente resgatar futuros, construir cidadania e projetar um legado de esperança e excelência para o mundo.
Perguntas frequentes
1. Qual o nome da escola e onde ela está localizada?
A escola é a Estadual Parque dos Sonhos, localizada no Jardim Real, antigo Bolsão 9, em Cubatão, litoral paulista.
2. Qual prêmio internacional a escola ganhou?
A escola foi vencedora na categoria “Superação de Adversidades” do Prêmio Melhor Escola do Mundo 2025 (World’s Best School Prize), concedido pela organização britânica T4 Education.
3. Quais foram as principais estratégias para a transformação da escola?
As estratégias incluíram a reconstrução da infraestrutura física, a aproximação com a comunidade por meio de cursinhos e voluntariado, a expansão do currículo com 23 projetos extracurriculares, a adoção de um olhar humanizado sobre os alunos e a implementação do projeto “A escola vai à sua casa”, que envolve visitas domiciliares.
4. Como a comunidade se envolveu no processo de mudança?
A comunidade se envolveu ativamente por meio da participação em cursinhos oferecidos pela escola, do voluntariado de mães na limpeza e organização e da colaboração com o projeto “A escola vai à sua casa”, que busca compreender a realidade dos alunos em seus lares.
5. Quais foram os resultados visíveis da transformação da escola?
Os resultados incluem o reconhecimento internacional com o Prêmio Melhor Escola do Mundo, um avanço de quase 100% no Idesp (de 2,2 para 4,6), o aumento significativo no número de alunos (de 116 para 1.200 projetados) e a transformação da escola em um porto seguro onde os alunos se sentem protegidos e confiantes para expor seus problemas.
Deseja saber mais sobre outras iniciativas educacionais inspiradoras ou como você pode apoiar a educação em comunidades vulneráveis? Explore nossos artigos e descubra histórias de sucesso que transformam realidades.
Fonte: https://g1.globo.com

