A persistente desigualdade de gênero no acesso à água representa uma ameaça crescente à segurança hídrica mundial, impactando desproporcionalmente mulheres e meninas em todas as regiões. Um recente estudo global revela que, apesar de serem as principais responsáveis pela coleta e gestão da água em seus lares, mulheres e meninas permanecem sistematicamente excluídas de posições de liderança e tomada de decisão no setor hídrico. Esta disparidade não apenas compromete os direitos básicos, mas também freia o progresso social e econômico, perpetuando ciclos de pobreza e vulnerabilidade. O levantamento sublinha a urgência de abordar essas questões para garantir que o acesso à água, um direito fundamental, seja equitativo e sustentável para todos, em linha com os objetivos de desenvolvimento global.
O pesado fardo da coleta e seus múltiplos impactos
A realidade global demonstra que mulheres e meninas carregam o peso desproporcional da escassez de água. Em mais de 70% dos domicílios rurais que não possuem acesso direto a serviços de água, são elas as responsáveis pela tarefa diária e exaustiva de coletar água. Esta atividade, muitas vezes realizada em longas distâncias e sob condições precárias, consome um tempo valioso que poderia ser dedicado à educação, ao lazer ou a atividades geradoras de renda. Globalmente, estima-se que mulheres e meninas gastem um total impressionante de 250 milhões de horas por dia nesta tarefa. Para as meninas, o impacto é ainda mais acentuado: dados indicam que meninas com menos de 15 anos têm uma probabilidade 75% maior de buscar água do que meninos da mesma idade.
Além do esforço físico extenuante e da perda de oportunidades educacionais e econômicas, a coleta de água expõe mulheres e meninas a uma série de riscos. Entre eles, destacam-se os riscos à saúde, decorrentes da carga pesada e da qualidade duvidosa da água coletada, e uma maior vulnerabilidade à violência de gênero, especialmente em locais onde os serviços de água são inseguros ou pouco confiáveis. A busca por água em áreas isoladas ou em horários de pouca luz aumenta a exposição a assaltos e abusos, transformando uma necessidade básica em uma jornada perigosa e de alto risco.
As sombras da higiene e da educação
A precariedade das instalações sanitárias afeta mulheres e meninas de maneira particularmente grave, sobretudo em favelas urbanas e áreas rurais. A falta de acesso a sanitários seguros e adequados, bem como a água para higiene pessoal, tem consequências profundas para a dignidade, a saúde e a educação. A gestão da higiene menstrual, por exemplo, torna-se um desafio imenso em ambientes sem privacidade e recursos hídricos. A vergonha e a falta de condições adequadas levam ao absenteísmo escolar e profissional: entre 2016 e 2022, cerca de 10 milhões de adolescentes (15-19 anos) em 41 países faltaram à escola, ao trabalho ou a atividades sociais devido às dificuldades relacionadas à higiene menstrual. Este cenário perpetua ciclos de desvantagem educacional e econômica, limitando o potencial de desenvolvimento dessas jovens.
Exclusão da governança: um paradoxo da gestão hídrica
Apesar de seu papel central na provisão de água para uso doméstico, na agricultura de subsistência, na preservação de ecossistemas locais e na resiliência comunitária, as mulheres permanecem sistematicamente sub-representadas na governança, no financiamento, nos serviços e na tomada de decisões do setor hídrico. Essa exclusão constitui um paradoxo, pois suas experiências e conhecimentos práticos são cruciais para a formulação de políticas e soluções eficazes e sustentáveis.
A garantia da participação feminina na gestão e governança hídrica é um fator indispensável para o progresso e o desenvolvimento sustentável. Especialistas ressaltam a importância de intensificar os esforços para proteger o acesso de mulheres e meninas à água, não apenas como um direito básico, mas como um catalisador para o bem-estar de toda a sociedade. A plena inclusão de mulheres e homens na administração dos recursos hídricos, lado a lado, é vista como essencial para tratar a água como um bem comum que beneficia a todos.
Terra, propriedade e o acesso limitado à água
A desigualdade de gênero na posse de terras e propriedades tem um impacto direto e significativo no acesso das mulheres à água. Em muitas regiões, os direitos de uso da água estão intrinsecamente ligados aos direitos sobre a terra, o que coloca as mulheres em desvantagem. Leis e regulamentos que discriminam mulheres na propriedade de terra, prevalecentes em diversos países, resultam em uma situação de vulnerabilidade social e econômica. Onde homens detêm o dobro de terras em comparação às mulheres, o acesso feminino à água para usos produtivos, como a agricultura, é severamente limitado. Essa restrição afeta diretamente a autonomia financeira das mulheres e a segurança alimentar de suas famílias, reforçando ciclos de dependência e pobreza.
Caminhos para a equidade hídrica e o desenvolvimento sustentável
Para promover avanços significativos na erradicação da desigualdade de gênero no acesso e gestão da água, um estudo recente apresenta recomendações estratégicas e urgentes. A primeira delas foca na eliminação de barreiras legais, institucionais e financeiras que impedem mulheres de terem direitos iguais à água, à terra e a serviços essenciais. É fundamental revisar e reformar legislações discriminatórias, garantindo que as mulheres tenham plena capacidade legal para possuir e herdar terras, bem como para acessar financiamento e serviços hídricos.
Em seguida, o estudo sugere um investimento robusto em dados hídrico-ambientais desagregados por sexo. A coleta e análise desses dados são cruciais para identificar as desigualdades existentes de forma precisa, permitindo que políticas e intervenções sejam orientadas por evidências e direcionadas às necessidades específicas de mulheres e meninas. Ao tornar as disparidades visíveis, é possível formular respostas mais eficazes.
Outra recomendação essencial é a valorização do trabalho não remunerado relacionado à água. As incontáveis horas dedicadas por mulheres e meninas à coleta e gestão da água doméstica devem ser reconhecidas e integradas nos processos de planejamento, precificação de serviços e decisões de investimento. Essa valorização ajuda a dimensionar a real demanda por infraestrutura e serviços, além de reconhecer a contribuição econômica e social desse trabalho.
Finalmente, é imperativo fortalecer a liderança e a capacidade técnica das mulheres. Isso inclui investir em educação e treinamento, especialmente em áreas científicas, tecnológicas, de engenharia e matemática (STEM), para que as mulheres possam ocupar posições de destaque e influência na governança e gestão hídrica. Ao empoderar mulheres com conhecimento e voz ativa, é possível construir um futuro com soluções hídricas mais inclusivas, equitativas e sustentáveis para todos.
Perguntas frequentes
Por que as mulheres e meninas são mais afetadas pela desigualdade de acesso à água?
Mulheres e meninas são desproporcionalmente afetadas porque, na maioria dos domicílios sem acesso direto à água, são elas as principais responsáveis pela coleta. Essa tarefa as expõe a esforço físico, perda de tempo para educação e trabalho, riscos de saúde e maior vulnerabilidade à violência, além de serem frequentemente excluídas da gestão e tomada de decisões sobre a água.
Quais são as principais consequências dessa desigualdade?
As consequências incluem perda de tempo para educação e atividades geradoras de renda, problemas de saúde devido à carga física e à má qualidade da água, maior risco de violência de gênero, absenteísmo escolar devido a questões de higiene menstrual, e a perpetuação de ciclos de pobreza e subdesenvolvimento.
Que medidas são propostas para combater a desigualdade de gênero no setor hídrico?
As principais medidas propostas incluem a eliminação de barreiras legais e institucionais que impedem direitos iguais à água e terra para mulheres, o investimento em dados desagregados por sexo para orientar políticas, a valorização do trabalho não remunerado de mulheres na gestão hídrica e o fortalecimento da liderança e capacidade técnica feminina no setor.
Para saber mais e apoiar iniciativas que promovem a equidade de gênero no acesso à água, busque informações junto a organizações dedicadas aos direitos humanos e ao desenvolvimento sustentável.


