A renomada ativista e pensadora Angela Davis foi um dos pontos altos da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), marcando sua presença em um evento público e gratuito no Sesc Caborê. A participação da ativista ocorreu no Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, data que também celebra o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. Em conversa com a jornalista Flávia Oliveira, Angela Davis destacou a importância da luta contínua e da valorização cultural dos povos marginalizados. Durante sua fala, a filósofa não apenas contextualizou a presença ancestral em Paraty, mas também teceu duras críticas à gentrificação e ao racismo ambiental que afetam a cidade, reforçando a relevância do engajamento social para a construção de um futuro mais justo. A ativista Angela Davis defendeu a união global em defesa da justiça e da igualdade, conectando as lutas locais às grandes questões internacionais.
O legado da ancestralidade e a dimensão cultural da luta
A presença de Angela Davis na Flip foi carregada de simbolismo, especialmente por coincidir com datas tão significativas para a luta negra. Ao pisar em Paraty, a ativista imediatamente reconheceu a atmosfera histórica do local, um palco crucial durante o período da escravização. “Nós podemos sentir a presença dos ancestrais aqui nesse lugar, que tiveram papel fundamental”, declarou, conectando o festival literário à memória e resistência dos que vieram antes. Essa percepção da ancestralidade serve como um pilar para a compreensão do movimento negro, que, segundo Davis, possui uma intrínseca dimensão cultural.
Reconhecimento histórico e a força da arte
Para Angela Davis, a música, a arte e a literatura são muito mais do que meras expressões; elas são veículos poderosos que permitem alcançar profundidades e dimensões da experiência humana que seriam inacessíveis por outros meios. Essa perspectiva ressalta o papel vital da cultura na construção de narrativas de liberdade e na preservação da identidade. A celebração da dimensão cultural, conforme apontado por Davis, não é apenas um ato de reconhecimento do passado, mas uma ferramenta ativa para moldar o presente e inspirar o futuro da luta por direitos e reconhecimento. A filósofa lamentou ainda a ausência do laureado Wole Soyinka, que deveria ter dividido a mesa com ela, mas não pôde comparecer por questões de saúde, evidenciando o desejo de um diálogo ainda mais amplo.
Denúncia social: gentrificação, racismo ambiental e crítica ao capitalismo
Um dos pontos mais veementes da fala de Angela Davis foi a denúncia dos processos de gentrificação e racismo ambiental que vêm ocorrendo em Paraty. A ativista expressou profunda preocupação com a expulsão de comunidades pobres de suas terras ancestrais em nome do lucro. “Queria falar sobre a gentrificação que está acontecendo em comunidades pobres aqui em Paraty. E também sobre o racismo ambiental”, afirmou, dando voz às preocupações locais.
A realidade de Paraty e a exploração global
Davis detalhou o impacto da gentrificação, um fenômeno onde a valorização imobiliária de um bairro eleva o custo de vida, forçando os moradores mais pobres a se deslocarem para áreas periféricas. Em Paraty, essa realidade se manifesta na tentativa de “criar meios para ganhar mais lucro, tirando as pessoas das suas terras, das terras dos seus ancestrais”. A ativista relatou ter conversado com a comunidade local, o que a fez reforçar que a literatura deve não apenas ser apreciada, mas também servir como um instrumento para “influenciar as pessoas e promover mudanças” sociais. Essa exploração não se limita a Paraty; Angela Davis expandiu sua crítica ao sistema capitalista global, especialmente na “primeira era dos trilionários”. Segundo ela, esses indivíduos e corporações exploram o planeta sem se preocupar com as consequências, tornando a vida difícil para a maioria e representando uma ameaça ao futuro do planeta.
VoicEs negras: homenagens e inspirações brasileiras
Durante sua participação na Flip, Angela Davis dedicou um momento especial para homenagear e citar importantes pensadoras e ativistas brasileiras, demonstrando a interconexão das lutas por justiça social e racial em nível global. A mediação da jornalista Flávia Oliveira contribuiu para apresentar nomes essenciais do movimento negro, ambiental e de direitos humanos, enriquecendo o diálogo.
O impacto de Conceição Evaristo, Beatriz Nascimento e Lélia Gonzalez
Davis expressou grande satisfação pela presença da escritora mineira Conceição Evaristo na plateia, a quem elevou ao mesmo patamar de relevância de figuras como Nina Simone e Toni Morrison. Ao comentar sobre a “escrevivência”, conceito literário de Evaristo, a ativista americana salientou a demora no reconhecimento da necessidade de pessoas negras contarem e compartilharem suas próprias histórias, citando Toni Morrison, que “nos mostrou que a experiência branca não é universal.”
A filósofa também destacou as contribuições de Beatriz Nascimento, cuja declaração “eu sou atlântica” evoca um sentimento de pertencimento a um “mundo gigantesco”, uma “primeira iluminação” para o internacionalismo de Davis. Essa percepção se aprofundou em sua experiência na França, onde, em vez da prometida igualdade, liberdade e fraternidade, encontrou solidariedade com a revolução argelina e a luta contra a opressão francesa.
Por fim, Angela Davis manifestou sua profunda admiração por Lélia Gonzalez, referência nos estudos de gênero, raça e classe. Elogiando o conceito da Amefricanidade, Davis explicou que Lélia reconhece que a luta negra global não pode acontecer sem o apoio dos povos indígenas. A filósofa americana enalteceu Lélia como uma crítica ferrenha do capitalismo, uma postura que se faz crucial na era atual dos trilionários, onde a busca incessante por lucro ignora as consequências ambientais e sociais.
Desafios contemporâneos e a força da resistência popular
Angela Davis abordou os desafios prementes do cenário global, com a ascensão de governos autoritários e o ressurgimento do fascismo em diversas partes do mundo. Contudo, ela expressou uma convicção inabalável na força do povo para resistir a essas ameaças. “Fascismo é uma coisa que está emergindo na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina, mas não entre o povo”, salientou, reforçando a capacidade das massas de se opor a ideologias de opressão.
Contra o fascismo, por justiça social e a experiência pessoal
A ativista fez um alerta sobre as eleições no Brasil, enfatizando a importância de não permitir que candidatos alinhados ao fascismo ascendam ao poder. Além de combater o autoritarismo, Davis defendeu medidas que promovem a justiça social, como a redução da jornada de trabalho, que permitiria mais lazer e acesso à cultura, e a inclusão de pessoas negras nas universidades. Ela celebrou as mudanças palpáveis observadas na Bahia e em outras instituições brasileiras, onde a presença negra cresceu significativamente desde sua primeira visita ao país, mas alertou: “Não nos acomodemos com essas vitórias. Temos que continuar lutando.”
Recordando sua própria experiência de prisão sob falsas acusações, Angela Davis compartilhou a lição fundamental de que a união das pessoas, transcendendo fronteiras, é capaz de impedir a injustiça. “As pessoas estavam nas ruas gerando o movimento que impediria que aqueles homens que estavam no poder tomassem essa decisão “, destacou. Essa vivência a transformou e a moldou, tornando-se um “presente” para sua evolução no ativismo e no trabalho acadêmico. A filósofa também reafirmou seu compromisso de longa data com a defesa da Palestina e abordou a violência de gênero, que, segundo ela, vai além do âmbito doméstico, estendendo-se à violência estatal e policial. Em um emocionante tributo, Davis agradeceu a Marielle Franco e celebrou o trabalho de sua irmã, Anielle Franco, na continuidade desse legado. Ela concluiu que as mulheres negras, especialmente as trans negras, são as mais vulneráveis à violência, exigindo uma quantificação e reconhecimento dessas realidades para uma luta mais eficaz.
Conclusão
A participação de Angela Davis na 24ª Flip foi um lembrete contundente da intersecção entre literatura, ativismo e a luta por justiça social. Suas palavras ressoaram com a urgência de defender a ancestralidade, combater a gentrificação e o racismo ambiental, e lutar contra os sistemas capitalistas e autoritários que persistem. Ao homenagear pensadoras brasileiras e compartilhar sua própria jornada de resistência, Davis reforçou que a união e a persistência são essenciais para promover mudanças reais. A ativista deixou claro que, apesar dos avanços, a luta pela equidade e pela dignidade humana deve ser contínua, uma vez que a história e a cultura são ferramentas poderosas na construção de um futuro mais justo e inclusivo para todos.
Perguntas frequentes
Qual foi o principal foco da participação de Angela Davis na Flip?
Angela Davis focou na importância da ancestralidade e da cultura na luta negra, na denúncia da gentrificação e do racismo ambiental em Paraty, e na crítica ao capitalismo. Ela também abordou a ascensão de governos autoritários e a necessidade de luta contínua por justiça social.
O que é gentrificação e como Angela Davis a relacionou a Paraty?
Gentrificação é o processo de valorização de um bairro que eleva o custo de vida, expulsando moradores mais pobres para áreas periféricas. Em Paraty, Angela Davis relatou que este processo está acontecendo em comunidades pobres, tirando pessoas de suas terras ancestrais para fins de lucro e associando-o ao racismo ambiental.
Quais pensadoras brasileiras Angela Davis citou e por que?
Angela Davis citou Conceição Evaristo, enaltecendo seu conceito de “escrevivência” e a importância de narrativas negras. Mencionou Beatriz Nascimento e seu conceito de “Eu sou atlântica” para falar sobre internacionalismo e pertencimento. Por fim, destacou Lélia Gonzalez, elogiando sua “Amefricanidade” e sua crítica ao capitalismo, conectando-a à luta indígena e à exploração dos recursos naturais.
Qual a visão de Angela Davis sobre o capitalismo e os desafios sociais?
Angela Davis vê o capitalismo como um sistema que lucra com a exploração e a destruição, especialmente na era dos “trilionários”, que não se preocupam com as consequências ambientais e sociais. Ela argumenta que este sistema dificulta uma convivência justa e equilibrada no planeta, atingindo tanto os recursos naturais quanto os seres humanos, e que as pessoas mais ricas são a causa de muitas dificuldades sociais.
Reflita sobre os temas abordados por Angela Davis e explore como você pode se engajar nas discussões sobre justiça social, equidade e a preservação do legado cultural e ambiental em sua própria comunidade.


