Mães de desaparecidos: a luta por visibilidade e respeito no brasil

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A ausência de um filho é uma dor indescritível que assombra milhares de famílias brasileiras diariamente. Para as mães de desaparecidos, a vida se transforma em uma busca incessante por respostas, justiça e a mera esperança de um reencontro. Elas vivem em um limbo de incerteza, onde cada ligação telefônica pode trazer uma pista e cada dia é uma batalha contra o esquecimento. A realidade é dura: em 2021, o Brasil registrou 84.760 pessoas desaparecidas, um número alarmante que ressalta a urgência de atenção e ação. Essas mulheres, muitas vezes invisibilizadas e confrontadas com a indiferença, exigem mais do que empatia; elas clamam por visibilidade para suas histórias, memória para seus filhos e respeito por sua luta contínua. Suas vozes ecoam em um apelo por um país que não se esqueça daqueles que sumiram.

A busca incansável: histórias de dor e esperança

O pesadelo de Clarice Cardoso no Maranhão

A vida de Clarice Cardoso, de 27 anos, residente da comunidade quilombola São Sebastião dos Pretos, em Bacabal (MA), virou um pesadelo desde 4 de janeiro deste ano. Seus filhos, Ágatha Isabelle, de 6 anos, e Allan Michael, de 4, desapareceram após saírem para brincar e procurar maracujá na mata próxima à casa, acompanhados pelo primo Anderson, de 8 anos, que foi encontrado posteriormente.

Há mais de quatro meses, Clarice e seu marido, Márcio, vivem com a vida em suspenso, aguardando qualquer notícia. A rotina diária é marcada pela busca por solidariedade e informações junto à polícia. O filho mais velho, André, de 9 anos, é um pilar de apoio, compreendendo a gravidade da situação e oferecendo consolo diário aos pais.

Além da dor excruciante da incerteza, Clarice relata ter enfrentado preconceito e julgamentos maldosos durante suas idas à delegacia, localizada a 12 quilômetros de sua residência. Ela percebe comentários e olhares que insinuam racismo, um fardo adicional em sua jornada. A família também sofreu um acidente quando a mãe de Clarice se machucou em uma viagem em busca dos netos, agravando as responsabilidades domésticas de Clarice. As investigações policiais indicam a possível presença de um homem que teria tido contato com as crianças na mata, mas, oficialmente, a polícia afirma que todas as informações estão sendo verificadas com empenho na elucidação dos desaparecimentos. A cada dia, Clarice anseia que o país se lembre de seus filhos, na esperança de que mais pessoas possam ajudar a trazer Ágatha e Allan de volta para casa.

A força da união: redes de apoio e ativismo

Mães da Sé: de luto à liderança nacional

Para Ivanise Espiridião, paulista de 63 anos, a dor da perda se transformou em ativismo. Desde 23 de dezembro de 1995, Ivanise busca sua filha Fabiana, desaparecida aos 13 anos. Para mitigar o sofrimento e construir uma rede de apoio nacional, ela fundou o grupo Mães da Sé. Em 2026, Ivanise marcará seu 30º Dia das Mães sem a filha, uma data que, para ela, é uma mistura de sentimentos: a alegria de ser lembrada pelos filhos presentes e a tristeza pela ausência de quem deveria fazer parte da família. O consolo, atualmente, vem dos abraços longos da filha Fagna, de 43 anos, e da neta Eva, de 7.

O Mães da Sé, que começou com algumas mães em situação semelhante, tornou-se uma família unida pela dor e pela esperança. Inicialmente, o grupo levava cartazes para dar visibilidade às histórias, mas a data do Dia das Mães na Praça da Sé tornou-se insuportável pela multiplicação da dor. Por isso, decidiram concentrar a atenção nos filhos que permanecem ao redor. Hoje, o grupo reúne mais de seis mil mães em todo o país, a maioria em São Paulo. Uma ferramenta essencial para a articulação é o aplicativo Family Faces, que usa reconhecimento facial para auxiliar na localização de desaparecidos, comparando fotos de usuários com seu banco de dados.

Ivanise transformou sua dor em uma causa diária, oferecendo apoio e orientação a mães e familiares de desaparecidos. Ela ressalta que a causa não tem horário fixo, recebendo pedidos de ajuda constantemente. Ivanise orienta que não é necessário esperar um ou dois dias para procurar uma delegacia, pois a Lei nº 11.259 determina que a ocorrência de desaparecimento de criança e adolescente deve ser registrada imediatamente, e as buscas iniciadas sem demora. Apesar dos temas dolorosos, Ivanise e Fagna explicam a Eva, desde cedo, o que aconteceu com a tia Fabiana, ensinando-lhe o nome completo e apresentando a avó como uma “mãe da Sé, ativista e lutadora”. Cerca de 42% dos desaparecidos são encontrados, um dado que alimenta a persistente esperança de Ivanise.

Solidariedade em ação: o trabalho de Lucineide Damasceno

Lucineide Damasceno, cabeleireira paulista de 60 anos, é outra integrante do Mães da Sé que transformou sua dor em serviço. Seu filho, Felipe, desapareceu aos 16 anos em 3 de novembro de 2008, após sair de moto para encontrar um amigo que também sumiu. Em 2013, após uma crise de pânico, Lucineide decidiu ir além da busca por seu filho, tornando-se ativista. O choque de realidade ao conhecer outras mulheres que buscavam seus filhos há muito tempo a impulsionou.

Com o grupo, Lucineide encontrou amparo e reconhecimento. Mesmo nos dias em que chega à Praça da Sé “destruída por dentro”, os abraços de outras mães mudam seu estado de espírito. Ela se reconhece nas histórias alheias e encontra força na coletividade. Movida pela necessidade de ajudar, Lucineide criou a ONG Abrace, que oferece suporte, inclusive alimentar, a familiares de desaparecidos em situação de maior vulnerabilidade.

A esperança é um motor constante para Lucineide, que se recusa a mudar de residência, na expectativa de que Felipe bata em seu portão. Ela tem outros dois filhos, Amanda e Anderson, e dois netos, Gustavo, de 11, e Gabriel, de 9, a quem ensina a não conversar com estranhos. A família se acostumou com a recusa de Lucineide em participar de eventos festivos no Dia das Mães, mas ela tem feito um esforço para participar de almoços familiares, buscando equilibrar sua tristeza com a presença e o amor dos filhos e netos. Receber o abraço dos netos e notícias de outras mães que encontraram seus filhos são alentos. Lucineide guarda as lembranças do filho adolescente, de seus sonhos e do prazer em jogar futebol. Há duas décadas, mantém o hábito de colocar um presente de Felipe debaixo da árvore de Natal, um a um, ano após ano, na esperança de um reencontro.

Suporte essencial e desafios culturais

Apoiar-se na família é crucial para quem enfrenta o desaparecimento de um ente querido, mas o acesso a suporte psicológico profissional também é vital. Casos de depressão, crises de pânico e ansiedade são comuns. O grupo Mães da Sé, por exemplo, conta com cinco voluntários que oferecem atendimento psicológico remoto.

A psicóloga e pesquisadora Melânia Barbosa destaca que a dor da ausência possui características únicas. Ela enfatiza a importância de o poder público proporcionar suporte emocional a essas famílias. Além disso, pessoas próximas devem oferecer escuta ativa e acolhimento, sem tentar dar respostas que não existem. A pesquisadora ressalta que os grupos de apoio são fundamentais para que essas pessoas não se sintam sozinhas, lembrando-as de que há quem as ame e que lhes dê motivos para seguir lutando.

Culturalmente, as mulheres sempre estiveram ligadas ao cuidado do outro, especialmente dos filhos, o que as mantém vinculadas aos seus, mesmo diante de doenças, prisões ou desaparecimentos. Melânia aponta a necessidade de maior capacitação para profissionais da psicologia e medicina nesse campo. Embora haja mais pesquisas sendo desenvolvidas, o tema ainda é pouco explorado na formação acadêmica, sendo um assunto desconhecido para muitos especialistas. A ausência de conhecimento aprofundado dificulta um atendimento adequado e especializado, perpetuando o sofrimento dessas famílias.

Perguntas frequentes (FAQ)

Q1: Quantas pessoas desaparecem no Brasil anualmente?
Em 2021, o Brasil registrou 84.760 pessoas desaparecidas, evidenciando a dimensão do problema no país.

Q2: Qual a importância dos grupos de apoio para mães de desaparecidos?
Os grupos de apoio, como o Mães da Sé, são fundamentais para que as famílias não se sintam isoladas. Eles oferecem solidariedade, trocas de experiências, apoio emocional e orientação sobre direitos e procedimentos de busca.

Q3: É preciso esperar 24 horas para registrar o desaparecimento de uma pessoa?
Não. A Lei nº 11.259 determina que a autoridade policial deve registrar imediatamente o desaparecimento de crianças e adolescentes e iniciar as buscas sem demora. Essa prática abusiva de exigir 24 horas de espera ainda ocorre, especialmente com famílias menos informadas sobre seus direitos.

Para saber mais sobre o trabalho das Mães da Sé e como você pode apoiar a causa dos desaparecidos no Brasil, visite o site oficial da organização ou procure associações de apoio em sua região. Cada gesto de solidariedade faz a diferença na luta por visibilidade, memória e respeito.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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