A paixão por livros: histórias e desafios de Profissionais editoriais

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O vibrante mercado editorial brasileiro tem testemunhado uma notável expansão nos últimos anos, com um crescimento expressivo no número de empresas e no volume de publicações. Nesse cenário promissor, diversos profissionais do setor compartilham suas experiências, revelando não apenas a dedicação intrínseca ao mundo dos livros, mas também o profundo senso de propósito que encontram em suas carreiras. Editores, publishers e tradutores narram as complexas trajetórias que os levaram a moldar ideias e disseminar conhecimento, destacando as obras que marcaram suas vidas e os desafios inerentes a uma profissão que exige paixão, rigor e resiliência. Suas histórias ilustram como o trabalho com livros transcende a mera ocupação, tornando-se uma via para a realização pessoal e um meio de contribuir significativamente para a cultura e o pensamento crítico.

Trajetórias inspiradoras no mundo dos livros

O olhar do editor e publisher

Hugo Maciel de Carvalho, um editor autônomo e publisher, personifica a transição de um caminho profissional tradicional para uma jornada apaixonada pelo universo dos livros. Formado em Direito, ele abandonou a advocacia para dedicar-se integralmente à produção editorial. Para Hugo, a maior recompensa é ver seu nome nos créditos de obras significativas, sabendo que contribui para algo que pode se tornar “a leitura da vida de alguém”. Ele já perdeu a conta de quantos livros carregam sua assinatura, mas o que realmente o move é a capacidade de “ajudar a dar forma a ideias que circulam, são lidas, discutidas, questionadas e continuam produzindo sentido no mundo”.

Entre suas obras mais queridas, Hugo destaca “A Terra Árida”, de T.S. Eliot, na tradução de Gilmar Leal Santos, por ter sido o primeiro livro publicado sob seu próprio selo. Ele também valoriza projetos que provocam reflexão sobre o futuro, citando dois trabalhos como preparador de texto que se complementam em sua análise social: “Autonorama”, de Peter Norton, que explora as escolhas políticas que moldaram infraestruturas sociais, e “Estrada para Lugar Nenhum”, de Paris Marx, que amplia o diagnóstico sobre a concentração de poder e privatização. O editor menciona ainda “A Escada de Jacó”, da russa Liudmila Ulítskaia, um romance monumental ainda não publicado, que descreve como um dos projetos mais exigentes e estimulantes de sua carreira, dada a densidade de literatura, linguística, filosofia, música, ciência e história em cada página.

A paixão pelos livros de Hugo é uma tradição familiar. Ele lê para seu filho desde o nascimento e faz visitas semanais a bibliotecas públicas. Essa prática diária de leitura conjunta fortalece a memória afetiva e a conexão familiar. Sua própria trajetória editorial foi impulsionada por seu avô, que, aos 12 anos de Hugo, lhe confiou um manuscrito secreto para que lesse e opinasse. Esse momento marcou o início de uma colaboração que resultou na publicação de quatro livros do avô, com o sonho de Hugo de, um dia, publicar suas “Obras completas”. Apesar da satisfação, ele não esconde os desafios do ofício, que exige um ritmo intenso, muitas horas de leitura e releitura, e discussões com autores e editoras, frequentemente realizadas de madrugada. Hugo também comenta, com bom humor, sobre a baixa remuneração e a demanda irregular no setor, que muitas vezes o levam a “inventar trabalho” para evitar “revisar os boletos atrasados”.

A visão da editora independente

Florencia Ferrari, sócia da Ubu, oferece uma perspectiva sobre o mundo das editoras independentes. Ela afirma que essas iniciativas geralmente nascem do desejo dos editores de publicar obras que amam e admiram, uma regra que, segundo ela, também se aplica à Ubu. Para Florencia, a Ubu é mais do que um negócio; é uma plataforma de projetos, um espaço de criação, aprendizado e colaboração com designers, artistas e autores. O sentido de seu trabalho transcende a geração de renda, sendo um “lugar de realização e uma forma de estar no mundo”.

A editora enfatiza a importância de cultivar um ambiente de trabalho saudável, em contraste com experiências anteriores em ambientes “tóxicos, competitivos, de vigilância e controle”. Na Ubu, a prioridade é a troca, o aprendizado, a colaboração, o apoio e o cuidado mútuo, com a liderança exercida por quem conhece suas áreas. Além de produzir conhecimento e divulgar ideias, Florencia destaca o posicionamento ético e político como um pilar da atuação da editora. Ela vê a Ubu como um “lugar de posicionamento e de pensamento, inclusive de atitude crítica”, no sentido foucaultiano de uma atitude política, sem ser militante, mas pautada por uma ética política clara.

O ofício do tradutor

Adail Sobral, professor da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e tradutor, possui uma vasta experiência, com mais de 500 livros traduzidos e participações como jurado do Prêmio Jabuti. Sua jornada na tradução começou por acaso, como parte de atividades acadêmicas em 1981, enquanto fazia pós-graduação. Ele relembra que, na época, traduziam “de graça”, não sendo uma atividade profissional. Contudo, rapidamente se apaixonou pelo ofício e não parou mais. De 1985 a 1999, Adail dedicou-se exclusivamente à profissão, muitas vezes ao lado de sua então esposa, Maria Stela Gonçalves (1954-2015). Ele recorda ter traduzido muitos livros de informática para se sustentar inicialmente, migrando depois para as áreas de ciências humanas, filosofia e, posteriormente, especializando-se em medicina, “que dava dinheiro”.

Entre as obras que mais lhe trouxeram satisfação, Adail destaca “Herói de Mil Faces”, de Joseph Campbell, pela beleza literária e técnica da escrita, e pela particularidade de ter sido um trabalho em que ele mesmo fez a tradução e a revisão. Outro trabalho memorável foi “A troca simbólica e a morte”, de Jean Baudrillard, traduzido com Maria Stela, onde conseguiram reproduzir com maestria a transcrição de uma fala no primeiro capítulo. O casal também traduziu as obras completas de Santa Teresa de Jesus, um projeto que exigiu um ano de intensa dedicação para adaptar um original do Século 16 para a linguagem moderna, totalizando 2 mil páginas. Para Adail, conviver com a obra de Santa Teresa por tanto tempo foi uma experiência profundamente gratificante.

Apesar de se sentir realizado na profissão, Adail não ignora os desafios e o cansaço. Por 15 anos, ele traduziu fora da universidade, trabalhando até 14 horas por dia para múltiplos clientes. Ele descreve o modelo de contratação da época como “quase paternalista”, onde os tradutores não eram considerados profissionais e a remuneração era precária. Hoje, embora a situação tenha melhorado, ele avalia que ainda há desvalorização profissional. Grandes editoras frequentemente determinam os preços, e mesmo as menores, que são mais flexíveis, não têm grande poder de pagamento. Adail observa que a melhor remuneração ocorre em traduções de áreas técnicas, que exigem precisão terminológica, e na prestação de serviços para clientes estrangeiros.

Conclusão

As narrativas de Hugo Maciel de Carvalho, Florencia Ferrari e Adail Sobral convergem para um ponto essencial: o setor editorial, em sua crescente complexidade, é impulsionado pela paixão inabalável de seus profissionais. Embora enfrentem desafios significativos, como a remuneração muitas vezes inadequada e a intensa carga de trabalho, o propósito de dar vida a ideias, moldar narrativas e disseminar conhecimento atua como a principal força motriz. Seja na edição de obras que provocam reflexão, na criação de ambientes editoriais éticos e colaborativos ou na tradução de textos que conectam culturas e épocas, esses indivíduos demonstram que o amor pelos livros e o desejo de contribuir para a cultura e o pensamento crítico são recompensas que transcendem as dificuldades do ofício, solidificando seu papel vital na sociedade.

Perguntas frequentes

Qual é o propósito dos profissionais no setor editorial?
Os profissionais do setor editorial encontram propósito em dar forma a ideias, disseminar conhecimento, preservar a memória e contribuir para a cultura e o pensamento crítico da sociedade. Eles se orgulham de participar da criação de obras que podem impactar profundamente a vida dos leitores.

Quais são os principais desafios enfrentados por editores e tradutores?
Entre os principais desafios estão a baixa remuneração, especialmente para tradutores e revisores, a demanda irregular de trabalho, a intensidade das jornadas e a necessidade de alto foco e dedicação. A desvalorização profissional e as relações contratuais desiguais também são mencionadas.

Como o amor pelos livros influencia a carreira desses profissionais?
O amor pelos livros é o principal motor que impulsiona esses profissionais, mesmo diante das dificuldades. Ele se manifesta na busca por obras significativas, na dedicação à qualidade do trabalho, na criação de ambientes colaborativos e na disposição de investir tempo e energia em projetos que consideram valiosos.

Explore mais sobre o impacto do setor editorial e descubra novas obras que transformam vidas. Visite nossa seção de cultura e literatura para artigos inspiradores.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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