As unidades especializadas no atendimento à mulher da Polícia Civil registraram um número expressivo de 782.474 ocorrências em todo o país no ano de 2025. Este dado, que reflete a atuação contínua e fundamental dessas delegacias, abrange uma vasta gama de delitos, incluindo ameaças, lesões corporais, injúrias, importunação sexual, estupros e feminicídios, entre outros. O levantamento, que analisou o trabalho de 530 das 585 unidades espalhadas pelo Brasil, aponta para uma realidade desafiadora: embora o número de atendimentos seja alto, o total de vítimas atendidas foi de 329.451, indicando que muitas mulheres necessitam de múltiplos registros e suporte ao longo do tempo. Publicado no contexto dos 20 anos da Lei Maria da Penha, este diagnóstico oferece uma visão detalhada sobre a dinâmica da violência de gênero e a resposta institucional a ela, destacando avanços e, sobretudo, as urgentes carências que persistem. A abrangência dos atendimentos especializados à mulher revela não apenas a escala do problema, mas também a crescente busca por apoio e justiça.
O panorama alarmante dos atendimentos especializados
O relatório detalhado sobre os atendimentos realizados pelas unidades especializadas no atendimento à mulher em 2025 lança luz sobre a persistência e a complexidade da violência de gênero no Brasil. Com quase 783 mil atendimentos registrados, essas delegacias são a porta de entrada para milhares de mulheres que buscam proteção e justiça. O fato de o número de atendimentos ser significativamente maior do que o de vítimas (329.451) sublinha a gravidade da situação, evidenciando que muitas mulheres são reincidentes ou enfrentam um ciclo contínuo de violência, necessitando de intervenção policial em mais de uma ocasião.
Entre os tipos de ocorrência mais registrados em 2025, a ameaça desponta com 148.544 registros, seguida de perto pela lesão corporal, com 99.473 casos, e pela injúria, totalizando 88.739 ocorrências. Esses números são um reflexo direto das formas mais comuns de agressão enfrentadas por mulheres no ambiente doméstico e familiar, muitas vezes culminando em escaladas de violência que podem ter desfechos trágicos.
Um dos pontos de maior atenção do diagnóstico é o aumento expressivo em certos tipos de violência. A perseguição (stalking), por exemplo, registrou 52.855 casos, com um aumento notável de 44,3% em comparação com o levantamento anterior (ano-base 2023). Da mesma forma, a violência psicológica apresentou um crescimento ainda mais acentuado, com 23.911 registros e uma alta de 49,7%. Esses dados alertam para a necessidade de maior conscientização e estratégias específicas para combater essas formas de violência, que, embora muitas vezes invisíveis, causam danos profundos e duradouros às vítimas.
Distribuição regional e a concentração no Sudeste
A análise da distribuição geográfica das vítimas atendidas pelas unidades especializadas revela disparidades significativas entre as regiões brasileiras. A Região Sudeste concentra o maior número de mulheres assistidas, com 125.769 vítimas, o que representa impressionantes 47,8% do total nacional. Esse dado pode ser atribuído à maior densidade populacional da região, mas também à possível maior infraestrutura e acesso a essas unidades em estados como São Paulo.
Em seguida, vêm as regiões Nordeste, com 53.067 vítimas (20,2% do total), Centro-Oeste, com 43.662 (16,6%), Sul, com 21.087 (8,0%), e Norte, com 19.712 vítimas (7,5%). Essa distribuição desigual destaca a necessidade de fortalecer a rede de atendimento em regiões com menor representatividade, garantindo que todas as mulheres, independentemente de onde vivam, tenham acesso à proteção e ao apoio necessários.
Entre os estados, São Paulo emerge como o líder em número de vítimas atendidas, com 84.103 registros. A representatividade paulista reflete tanto sua vasta população quanto a operação da primeira Delegacia Especializada no Atendimento às Mulheres (DEAM) do país, inaugurada na capital em 1985, consolidando uma trajetória mais longa na especialização desse tipo de serviço.
A rede de proteção e seus desafios estruturais
A rede de unidades especializadas no atendimento à mulher no Brasil tem uma história que remonta a 1985, com a criação da primeira Delegacia da Mulher (DEAM) na cidade de São Paulo. Aquele ano marcou o início de uma expansão fundamental, com a inauguração de mais 19 unidades em diversas localidades. Desde então, a rede tem crescido progressivamente, alcançando a marca atual de 585 unidades dedicadas em todo o território nacional.
Atualmente, essa estrutura conta com aproximadamente 6.200 profissionais, incluindo delegados, agentes, escrivães, psicólogos e assistentes sociais. Esses profissionais são treinados para seguir protocolos especiais de acolhimento e escuta qualificada das vítimas, buscando proporcionar um ambiente de confiança e respeito em um momento de extrema vulnerabilidade. A existência dessas equipes multidisciplinares é crucial para oferecer um suporte integral que vai além do registro da ocorrência, considerando os aspectos psicológicos e sociais envolvidos na experiência da violência.
O diagnóstico também revela a importância das medidas protetivas de urgência como ferramenta essencial na proteção das vítimas. Em 2025, foram solicitadas 302.626 medidas protetivas, das quais 118.672 foram efetivamente concedidas. A maioria dessas concessões (74,2%) ocorreu de forma célere, demonstrando a agilidade do sistema judiciário em muitos casos. No entanto, um dado alarmante aponta para a fragilidade da proteção: 38.214 medidas protetivas foram descumpridas pelos agressores, o que reitera a necessidade de aprimorar a fiscalização e as sanções para quem desrespeita essas ordens judiciais, garantindo a efetividade da lei e a segurança das mulheres.
Carências e entraves na eficácia do combate à violência
Apesar da evolução e do papel crucial das unidades especializadas, o diagnóstico aponta para desafios estruturais significativos que comprometem a plena eficácia do combate à violência contra a mulher. Uma das carências mais evidentes é o horário de funcionamento: cerca de 80% dessas unidades ainda não operam 24 horas por dia. Essa limitação é grave, pois a violência não tem hora para acontecer, e a falta de atendimento contínuo pode deixar vítimas desamparadas em momentos críticos, quando o risco é mais elevado.
Outras deficiências cruciais identificadas pelo estudo incluem a insuficiência de recursos de investigação, mencionada por 57% das unidades. A falta de pessoal, equipamentos e tecnologia adequados para investigar os crimes de gênero dificulta a coleta de provas, a identificação de agressores e a qualificação dos inquéritos, impactando diretamente a taxa de elucidação e a responsabilização dos criminosos.
A carência de viaturas foi citada por 46% das unidades, o que prejudica a mobilidade das equipes, o atendimento a locais de difícil acesso e o deslocamento para diligências urgentes, como a averiguação de denúncias ou o acompanhamento de medidas protetivas. Por fim, 40% das unidades relataram falta de material de menor potencial ofensivo, ferramentas importantes para a contenção de situações de risco sem o uso de força letal, garantindo a segurança de vítimas e policiais. Tais deficiências são entraves reais que impedem uma resposta mais rápida e efetiva à violência.
Perspectivas e o caminho para o fortalecimento da proteção feminina
O panorama dos atendimentos especializados à mulher em 2025, divulgado em um momento em que a Lei Maria da Penha celebra duas décadas de existência, oferece uma visão complexa e multifacetada. Por um lado, os quase 800 mil atendimentos anuais e a rede de 585 unidades e milhares de profissionais dedicados evidenciam o esforço contínuo e a importância dessas estruturas na vida de milhares de mulheres. O aumento no registro de violências como a perseguição e a psicológica também pode indicar uma maior conscientização e encorajamento das vítimas a denunciar, um avanço em si.
Por outro lado, as carências estruturais, como a falta de funcionamento 24 horas, recursos de investigação, viaturas e materiais de menor potencial ofensivo, apontam para a necessidade urgente de investimentos e aprimoramentos. A alta taxa de descumprimento de medidas protetivas é um alerta claro de que a proteção formal precisa ser acompanhada de uma fiscalização rigorosa e de consequências efetivas para os agressores. Iniciativas como a divulgação em massa do Ligue 180 e a criação de salas especiais para mulheres vítimas de violência, como observado em alguns estados, são passos importantes, mas que precisam ser universalizados e integrados a uma estratégia nacional robusta.
O caminho para o fortalecimento da proteção feminina exige uma abordagem integrada que contemple não apenas a expansão e a modernização das unidades especializadas, mas também a capacitação contínua dos profissionais, a sensibilização da sociedade e a garantia de que as leis sejam aplicadas com rigor e celeridade. Somente assim será possível construir um ambiente onde todas as mulheres se sintam seguras para denunciar e encontrarão o amparo necessário para romper o ciclo da violência, avançando na erradicação da violência de gênero.
Perguntas frequentes sobre o atendimento à mulher na polícia
O que são os atendimentos especializados à mulher?
São os serviços prestados pelas Delegacias Especializadas no Atendimento à Mulher (DEAMs) e outras unidades da Polícia Civil que possuem equipes e protocolos específicos para acolher, registrar ocorrências e investigar crimes de violência contra mulheres, oferecendo um atendimento humanizado e qualificado.
Quais os tipos de violência mais registrados em 2025?
Os tipos de ocorrência com maior número de registros em 2025 foram ameaça, lesão corporal e injúria. Houve também um aumento significativo nos casos de perseguição (stalking) e violência psicológica.
Quais são os principais desafios enfrentados pelas unidades especializadas?
O diagnóstico aponta carências como a falta de funcionamento 24 horas em 80% das unidades, insuficiência de recursos de investigação, escassez de viaturas e falta de material de menor potencial ofensivo, que impactam a eficácia da resposta policial.
Qual a importância das medidas protetivas de urgência?
As medidas protetivas são ferramentas legais essenciais para garantir a segurança da vítima, afastando o agressor e estabelecendo restrições para ele. Elas visam prevenir novas agressões e são um pilar fundamental da Lei Maria da Penha, embora seu descumprimento ainda seja um desafio.
Conheça seus direitos e apoie iniciativas de combate à violência de gênero. Se você ou alguém que conhece precisa de ajuda, denuncie! O silêncio fortalece o agressor.


