Um cenário preocupante emerge de análises de dados nacionais: a incidência de tabagismo entre pessoas homossexuais e bissexuais é significativamente maior do que na população heterossexual. Essa disparidade, revelada por levantamentos detalhados, indica que políticas de controle do tabaco, embora robustas no Brasil, precisam de uma integração urgente com as iniciativas de promoção da saúde para a população LGBTI+. A prevalência não se restringe a um tipo específico de produto; ela se manifesta em todos os formatos, com especial destaque para os dispositivos eletrônicos, onde a diferença é ainda mais acentuada. Profissionais de saúde e ativistas alertam para os graves impactos na saúde e a necessidade de estratégias personalizadas para enfrentar essa realidade e garantir uma vida mais saudável e equitativa para todos.
A realidade do tabagismo na população LGBTI+
Dados recentes mostram uma diferença alarmante no consumo de tabaco entre diferentes grupos da população. A incidência de tabagismo em pessoas homossexuais e bissexuais é 76% maior do que entre heterossexuais. Essa informação crucial, proveniente de uma análise aprofundada dos microdados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019, principal base de informações oficiais sobre a saúde dos brasileiros, detalha que 22,4% dos indivíduos LGBTI+ consumiam produtos de tabaco, em comparação com 12,7% do grupo heterossexual.
Disparidade nos índices de consumo
A análise dos dados revela que a proporção de consumidores é superior em todos os tipos de produtos de tabaco. Contudo, a diferença se torna ainda mais gritante quando se consideram apenas os dispositivos eletrônicos, amplamente conhecidos como vapes. Entre homossexuais e bissexuais, a prevalência de uso desses produtos foi quase seis vezes maior, evidenciando uma vulnerabilidade específica ou um direcionamento de consumo para essa parcela da população. Esse cenário exige um olhar atento e intervenções focadas, dada a crescente popularidade e os riscos associados aos vapes, muitas vezes percebidos erroneamente como menos nocivos.
Impacto na saúde e as vulnerabilidades
Aline Mesquita, pesquisadora na área de controle do tabagismo, ressalta que o tabagismo é o principal fator de risco para uma série de doenças crônicas, incluindo enfermidades cardiovasculares, diversos tipos de câncer e doenças respiratórias. Consequentemente, a alta prevalência observada na população LGBTI+ promete impactos mais severos na saúde e na expectativa de vida desses indivíduos. Acredita-se que preconceito e violência sejam fatores-chave para essa maior incidência. Cerca de 90% das pessoas que fumam começam antes dos 19 anos. Imaginar um adolescente, já lidando com as vulnerabilidades inerentes à adolescência e, além disso, enfrentando fatores relacionados à LGBTIfobia, cria um ambiente propício. A exposição a preconceitos e violência aumenta a chance de quadros de depressão e ansiedade, que, por sua vez, podem se tornar um terreno fértil para o uso não apenas de tabaco, mas também de álcool e outras substâncias. Essa correlação foi observada, por exemplo, em relatos de homens trans, onde períodos de maior ansiedade e violência estavam diretamente ligados ao aumento do consumo de tabaco, segundo Gab Van, diretor executivo da Liga Transmasculina João W Nery.
Desafios e estratégias para a prevenção
Para enfrentar essa realidade, é imperativo que as já eficazes políticas brasileiras de controle do tabaco sejam interligadas e adaptadas às políticas de promoção da saúde da população LGBTI+. Essa integração é fundamental para a criação de estratégias que contemplem as necessidades e especificidades desse público. Denise Taynah, Secretária-Executiva do Conselho Estadual dos Direitos da População LGBTI+ do Rio de Janeiro, enfatiza a necessidade de envolver serviços que tradicionalmente atendem essa população, como as unidades que realizam o processo transexualizador, nas políticas antitabagismo. A criação de protocolos claros para que as unidades de saúde possam tratar efetivamente essas pessoas, auxiliando na redução do tabagismo e promovendo uma melhor saúde física e mental, é vista como um passo essencial.
A atuação da indústria do tabaco
A pesquisadora Aline Mesquita destaca que essa diferença nos índices de tabagismo já havia sido notada e é corroborada pela literatura científica internacional. Além disso, a indústria tabagista está ciente dessa disparidade e tem investido em ações para estimular o consumo entre a população LGBTI+. Muitas vezes, essas empresas utilizam o que chamam de “responsabilidade social corporativa”, patrocinando eventos e iniciativas que visam construir uma imagem positiva e, consequentemente, promover seus produtos de forma indireta. Outra tática da indústria é o lançamento de produtos com aromas e sabores atrativos, que, sob uma “nova roupagem” e cheios de aditivos, transmitem a falsa ideia de serem menos prejudiciais. Essa estratégia é uma isca particularmente eficaz para os jovens, que podem ser mais suscetíveis a produtos que parecem menos agressivos, mas são igualmente nocivos.
Ações integradas e o papel do SUS
Danylo Guimarães, assessor técnico do Ministério da Saúde, explicou que o Sistema Único de Saúde (SUS) possui uma ferramenta robusta para coletar dados da população brasileira: o SUS APS, um sistema integrado da rede de atenção primária que abrange mais de 174 milhões de pessoas cadastradas. No entanto, até 2023, apenas 0,15% desses cadastros incluíam informações sobre orientação de gênero. Reconhecendo essa lacuna, a partir de 2024, os campos “orientação sexual” e “identidade de gênero” tornaram-se de preenchimento obrigatório pelos profissionais de saúde, mediante consentimento da pessoa. Mesmo com dados historicamente escassos, foi possível confirmar a maior incidência de tabagismo na população LGBTI+ através do SUS APS: 19,7% das pessoas que se declararam homossexuais consumiam produtos de tabaco, contra 7,3% das que se declararam heterossexuais. Guimarães reforça que a atenção primária à saúde é a porta de entrada do SUS, com uma capilaridade que alcança todos os municípios brasileiros, tornando-a um lugar privilegiado para a escuta qualificada e para liderar os movimentos de controle do tabaco no país.
Perspectivas para um futuro com saúde inclusiva
A elevada prevalência de tabagismo na população LGBTI+, exacerbada por fatores sociais como preconceito e violência e explorada por táticas da indústria do tabaco, exige uma resposta coordenada e sensível. A integração das políticas antitabaco com as de promoção da saúde LGBTI+, o engajamento dos serviços de saúde que já atendem a essa população e a melhoria na coleta de dados são passos fundamentais. O Sistema Único de Saúde, com sua vasta abrangência, tem o potencial de ser um agente transformador, oferecendo não apenas tratamento, mas também um espaço de acolhimento e escuta qualificada. Ao reconhecer e abordar as vulnerabilidades específicas da população LGBTI+, o Brasil pode avançar rumo a um sistema de saúde mais equitativo e eficaz, garantindo mais anos de vida com qualidade para todos os seus cidadãos.
Perguntas frequentes
Q1: Qual a principal diferença na incidência de tabagismo entre a população LGBTI+ e heterossexual?
A incidência de tabagismo entre pessoas homossexuais e bissexuais é 76% maior do que entre heterossexuais, com 22,4% desse grupo consumindo produtos de tabaco, contra 12,7% dos heterossexuais, de acordo com análises de dados nacionais.
Q2: Quais fatores contribuem para a maior prevalência de tabagismo na população LGBTI+?
Fatores como preconceito, violência e a vulnerabilidade social e psicológica, que podem levar a quadros de depressão e ansiedade, são considerados chaves. Esses elementos criam um ambiente propício para o início do consumo de tabaco e outras substâncias, especialmente na adolescência.
Q3: Como a indústria do tabaco explora essa vulnerabilidade?
A indústria tabagista tem investido em ações direcionadas à população LGBTI+, utilizando estratégias como o patrocínio de eventos para criar uma imagem positiva (“responsabilidade social corporativa”) e o lançamento de produtos com sabores e aromas, que mascaram os danos e atraem especialmente os jovens, sob a falsa premissa de serem menos prejudiciais.
Q4: O que está sendo feito para abordar essa questão no Sistema Único de Saúde (SUS)?
O SUS está implementando a obrigatoriedade do preenchimento dos campos de “orientação sexual” e “identidade de gênero” nos cadastros do SUS APS (Atenção Primária à Saúde) desde 2024, visando obter dados mais precisos. A atenção primária é vista como um local estratégico para a escuta qualificada e para o desenvolvimento de políticas de controle do tabaco direcionadas a essa população.
Para saber mais sobre a importância de políticas de saúde inclusivas e apoiar iniciativas de controle do tabaco, visite os portais oficiais de saúde e informe-se sobre como você pode contribuir para um futuro mais saudável para todos.


