Fifa na mira: Campanha exige copas sem anúncios de refrigerante

0

A Federação Internacional de Futebol (Fifa) encontra-se sob crescente pressão de ativistas e organizações globais de saúde, que clamam pelo fim dos patrocínios de bebidas açucaradas, como refrigerantes, em suas competições. Enquanto a Copa do Mundo de 2022 encerrou recentemente, uma campanha internacional, intitulada “Tirem o Refrigerante de Campo”, intensifica-se para garantir que futuros torneios, como o de 2026, sejam livres de publicidade de refrigerante. A iniciativa surge de uma profunda preocupação com os impactos na saúde pública, especialmente entre crianças e adolescentes, que são frequentemente expostos a mensagens que associam esporte e bem-estar a produtos sabidamente prejudiciais. Esta mobilização visa redefinir o padrão de patrocínios esportivos, afastando a Fifa de associações que contradizem a promoção de um estilo de vida saudável e que podem alimentar a crise global de obesidade e diabetes.

A urgência na defesa da saúde pública

A campanha “Tirem o Refrigerante de Campo” é impulsionada por uma preocupação fundamental com a saúde global, focando na intrínseca ligação entre o consumo de bebidas açucaradas e a prevalência de doenças crônicas não transmissíveis. Organizações da sociedade civil de diversos países, totalizando mais de uma centena de entidades — com forte atuação nas áreas de saúde, meio ambiente e direitos da infância —, uniram forças para pressionar a Fifa a reconsiderar seus contratos de patrocínio com fabricantes de refrigerantes. Entre as oito instituições brasileiras que aderiram à iniciativa, destacam-se o Instituto de Defesa de Consumidores (Idec), o Instituto Desiderata e a Aliança pela Alimentação Saudável, evidenciando a amplitude do movimento e a transversalidade de suas preocupações.

Riscos alarmantes do consumo de bebidas açucaradas

Dados apresentados pela campanha sublinham a gravidade do problema: um aumento diário de apenas 250 mililitros na ingestão de bebidas adoçadas eleva em 12% o risco de obesidade, em 19% o de diabetes tipo 2 e em 13% o de mortalidade por causas cardiovasculares. Além disso, o risco de mortalidade por todas as causas pode subir em 5%. Essas estatísticas são particularmente preocupantes quando se considera a faixa etária infantil e adolescente. Segundo a análise da campanha, uma única lata de refrigerante de 355 ml já supera a quantidade diária recomendada de calorias provenientes de açúcares livres para a maioria das crianças e adolescentes, expondo-os a um risco elevado de desenvolver condições de saúde adversas desde cedo.

A diretora executiva do Instituto Desiderata, Renata Couto, alerta para as “consequências profundas” da publicidade de refrigerantes para crianças e adolescentes. Ela ressalta que essa é uma “estratégia de marketing muito eficiente para fidelizar esses públicos desde cedo”, moldando comportamentos de consumo alimentar não saudáveis que gerarão impactos negativos na saúde a curto, médio e longo prazos. A exposição massiva e constante a esses produtos, especialmente em eventos de grande visibilidade como a Copa do Mundo, normaliza seu consumo e dificulta a adoção de hábitos alimentares mais saudáveis.

Mobilização global e o fenômeno do sportswashing

A campanha “Tirem o Refrigerante de Campo” tem ganhado força e apoio popular significativo. Até meados de novembro, a iniciativa já havia angariado o suporte de aproximadamente 720 mil pessoas, demonstrando a ampla ressonância de suas reivindicações junto ao público. As entidades envolvidas não apenas coletaram assinaturas, mas também formalizaram sua preocupação enviando uma carta aberta ao presidente da Fifa, o suíço-italiano Giovanni Infantino.

A carta à Fifa e o combate ao sportswashing

No comunicado, as organizações manifestam apreensão com uma prática que denominam de sportswashing. Este conceito, em tradução livre, refere-se à “maquiagem esportiva”, ou seja, a estratégia pela qual uma marca de produtos prejudiciais à saúde, como o refrigerante, associa-se a eventos esportivos e à ideia de bem-estar e vida saudável. A carta aponta que, durante um evento de magnitude como a Copa do Mundo de 2026, até seis bilhões de torcedores – muitos deles crianças – serão expostos a campanhas publicitárias que ligam as maiores estrelas do futebol a bebidas açucaradas, conhecidas por estarem associadas à obesidade, diabetes tipo 2 e outras doenças relacionadas à alimentação. O texto é enfático ao afirmar: “Isso é sportswashing: usar o poder do futebol para normalizar produtos prejudiciais à saúde. O futebol merece mais. Os torcedores merecem mais.”

A campanha também invoca um precedente histórico relevante: a indústria do tabaco enfrentou pressão semelhante no passado e, gradualmente, deixou de ser aceita como patrocinadora de eventos esportivos de grande porte. Entre as décadas de 1990 e 2000, por exemplo, a Fórmula 1 passou a se desassociar progressivamente das companhias de tabaco, que antes detinham um protagonismo significativo entre os patrocinadores. Este exemplo serve como um modelo para a possibilidade de uma mudança ética nos patrocínios esportivos, afastando a Fifa de parcerias que possam comprometer sua imagem e a saúde de seu público.

Perspectivas futuras e desafios na publicidade esportiva

A controvérsia em torno da publicidade de bebidas açucaradas não é a única polêmica a assombrar o cenário de patrocínios em grandes eventos esportivos, como a Copa do Mundo. A proliferação de anúncios de plataformas digitais de apostas, as chamadas bets, também gerou críticas por parte da sociedade civil e de autoridades. No Brasil, portarias ministeriais recentes impuseram uma série de restrições a esse tipo de publicidade, incluindo a obrigatoriedade de alertas como “Apostar pode causar dependência”, “Apostar faz você perder dinheiro” e “Aposta não é investimento”. Essa situação reforça a discussão mais ampla sobre a responsabilidade ética dos organizadores de eventos esportivos e das entidades reguladoras na seleção de seus parceiros comerciais, e o impacto que tais escolhas têm na saúde e bem-estar do público. A pressão sobre a Fifa para que adote uma postura mais responsável em relação aos patrocínios de produtos associados a riscos de saúde é crescente, e o desfecho da campanha “Tirem o Refrigerante de Campo” poderá estabelecer um novo paradigma para o futuro do marketing esportivo global.

FAQ

O que é a campanha “Tirem o Refrigerante de Campo”?
É uma iniciativa internacional que pressiona a Fifa para que reveja seus contratos de patrocínio com fabricantes de bebidas açucaradas, como refrigerantes, e que future Copas do Mundo sejam livres dessa publicidade, visando proteger a saúde pública.

Por que a campanha se preocupa com a publicidade de refrigerantes?
A preocupação reside na ligação entre o consumo de bebidas açucaradas e o aumento de doenças como obesidade, diabetes tipo 2 e problemas cardiovasculares, especialmente entre crianças e adolescentes, que são o público-alvo da publicidade em eventos esportivos.

O que é “sportswashing”?
Sportswashing é o conceito de “maquiagem esportiva”, onde marcas de produtos prejudiciais à saúde utilizam eventos esportivos e a imagem de bem-estar para associar seus produtos ao esporte, buscando normalizar seu consumo e melhorar sua imagem pública.

Acompanhe as últimas notícias sobre saúde pública e consumo consciente para entender o impacto dessas discussões no seu dia a dia e apoiar iniciativas que promovem um futuro mais saudável.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

Compartilhar.
Deixe Uma Resposta

Olá vamos conversar!