Fiocruz impulsiona meninas na ciência com Imersão transformadora

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O Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, celebrado em 11 de fevereiro, destaca a urgência de promover a equidade de gênero em campos historicamente dominados por homens, como ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM). A despeito dos avanços, a sub-representação feminina nessas áreas ainda é um desafio global. Nesse contexto, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) emerge como um farol de inspiração, oferecendo um programa de imersão de verão que visa estimular jovens estudantes a perseguir carreiras científicas. Através de experiências práticas e contato direto com pesquisadoras, a iniciativa busca desmistificar a ciência e abrir caminhos para uma nova geração de cientistas, inspirando mais mulheres e meninas na ciência.

O desafio da equidade de gênero na ciência

A trajetória de jovens como Raíssa Cristine de Medeiros Ferreira, de 17 anos, é um reflexo do potencial feminino na ciência e dos desafios a serem superados. Desde a infância, Raíssa demonstrava uma curiosidade inata, misturando substâncias em casa e ganhando o apelido carinhoso de “cientista maluca” da mãe. Uma “ameaça” materna de forçá-la a seguir a química se concretizou em uma paixão genuína. Hoje, prestes a concluir o ensino médio com técnico em Química no Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ), campus Duque de Caxias, Raíssa vislumbra uma carreira como pesquisadora, desprovida de qualquer loucura e plena de propósito. Sua história ressoa com o espírito do Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, uma data crucial para celebrar a contribuição feminina e lutar por mais espaço em todas as áreas do conhecimento.

A data, instituída em 2015 pela Organização das Nações Unidas (ONU), tem como objetivo principal chamar a atenção para a persistente desigualdade de gênero nas áreas STEM. A sub-representação feminina nesses setores não é apenas uma questão de justiça social, mas também uma barreira para o avanço científico e tecnológico, uma vez que a diversidade de perspectivas é fundamental para a inovação e para a resolução de problemas complexos. Nesse cenário, instituições como a Fiocruz desempenham um papel vital ao desenvolver programas que não apenas reconhecem o problema, mas atuam ativamente para solucioná-lo. Desde 2020, a Fiocruz oferece sua renomada imersão de verão para estudantes do ensino médio, um projeto que tem transformado a visão de muitas jovens sobre o universo da pesquisa e o potencial das carreiras científicas.

A imersão transformadora na Fiocruz

A iniciativa da Fiocruz tem se mostrado um catalisador para a mudança. Raíssa, por exemplo, participou da imersão pela primeira vez em 2023, e a experiência foi tão impactante que ela repetiu a dose neste ano. Mais do que isso, ela se tornou uma embaixadora, convidando a amiga Beatriz Antônio da Silva, também de 17 anos e estudante do mesmo instituto federal, a participar. Beatriz, por sua vez, foi inspirada por uma professora de física que lidera um projeto para encorajar meninas negras na ciência. “Ela sempre falava como foi difícil, porque ela era uma das únicas mulheres na sala da faculdade, e foi negligenciada e sempre sofreu muito preconceito. Então, ela quer abrir portas para a gente”, relata Beatriz, destacando a importância da mentoria feminina e da representatividade.

O esforço de cientistas mulheres para pavimentar o caminho para as próximas gerações não é uma novidade, conforme observa Beatriz Duqueviz, analista de gestão em saúde pública e coordenadora-adjunta do Programa Mulheres e Meninas na Ciência da Fiocruz. “A Fiocruz é uma instituição centenária, e só se pensou nesse programa na gestão da Nísia Trindade, a primeira mulher a presidir a Fundação e a ser ministra da Saúde. Então, a importância de mulheres ocuparem esse espaço é pela diversidade, mas também pela sensibilidade e pela luta”, afirma Duqueviz. O programa da Fiocruz atua em três pilares fundamentais: o reconhecimento e a valorização das cientistas mulheres, a realização de pesquisas sobre gênero, e o estímulo ao interesse pela ciência entre meninas. Duqueviz enfatiza que as meninas são frequentemente desestimuladas desde a infância, e quando crescem, especialmente as de baixa renda, precisam conciliar os estudos com responsabilidades domésticas, dificultando ainda mais sua inserção em carreiras exigentes como as STEM.

Três dias de descobertas e visões ampliadas

Neste ano, a imersão de verão da Fiocruz selecionou 150 alunas de diversas localidades da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Durante três dias, essas jovens tiveram a oportunidade ímpar de conhecer de perto os trabalhos de pesquisadoras em 13 unidades da Fundação, em um contato direto com o ambiente científico. Duane de Souza, de 17 anos, moradora de Bangu e estudante do IFRJ campus Maracanã, ficou sabendo da seleção por meio das redes sociais. Com um interesse já estabelecido em biologia, mas incerta sobre qual área seguir, a imersão se tornou um divisor de águas para ela. “Antes, eu achava que fazer pesquisa era uma coisa muito complicada, mas aqui eu percebi que não é exatamente assim”, compartilha Duane, evidenciando como a experiência desmistificou preconceitos sobre a carreira científica e abriu novos horizontes.

Beatriz Duqueviz explica que a programação é cuidadosamente elaborada para apresentar a ciência em sua forma mais autêntica, desconstruindo estereótipos comuns. “Você não precisa nascer um gênio para ser cientista. O que você precisa é ter curiosidade e disciplina para buscar respostas. A gente quer que essas meninas tenham uma compreensão ampliada da ciência, para estimular que elas busquem carreiras científicas”, destaca a coordenadora. Para tanto, as estudantes não apenas visitam laboratórios equipados com microscópios e provetas – o cenário clássico do cientista –, mas também exploram espaços menos óbvios, como o Laboratório de Conservação Preventiva, dedicado à recuperação e preservação do patrimônio histórico da Fiocruz, e a redação da Revista Cadernos de Saúde Pública, uma das publicações científicas da fundação. Luciana Dias de Lima, coeditora-chefe da revista, ressalta a importância dessa abordagem multidisciplinar, que revela a ciência como um esforço coletivo e com muitas dimensões. Ela também aponta os desafios persistentes: “Alcançar postos mais altos na carreira ainda é um desafio. Principalmente porque nós, mulheres, enfrentamos a necessidade de atuar em outras áreas. A gente sempre tem que compartilhar o horário de trabalho, com várias outras atribuições, como cuidado com a família. Fora os estereótipos de qual é o ‘nosso lugar'”.

Felizmente, a nova geração está mais consciente de seu potencial e das múltiplas possibilidades. Sulamita do Nascimento Morais, de 17 anos, estudante de uma escola estadual no Méier e bolsista de iniciação científica, já participou de diversas atividades de estímulo à ciência para meninas. A imersão na Fiocruz consolidou sua escolha: “Hoje, eu sei que eu quero estudar ciência da computação, mas antes eu nem sabia sobre tecnologia… Até porque, infelizmente, na nossa sociedade, ainda tem esse tabu de que tecnologia é mais coisa de menino. Então, através desses projetos e da imersão, eu pude ver que dá, sim, pra você seguir esses trabalhos, se impor e ter voz sendo mulher”, conclui Sulamita, ressaltando o poder da representatividade e do acesso à informação para superar preconceitos arraigados e conquistar seu espaço.

A Fiocruz e o futuro das mulheres na ciência

A imersão promovida pela Fundação Oswaldo Cruz representa mais do que um programa de verão; é um investimento crucial no futuro da ciência brasileira e na promoção da equidade de gênero. Ao abrir suas portas e apresentar a vasta gama de possibilidades que a carreira científica oferece, a Fiocruz não apenas desmistifica o universo da pesquisa, mas também empodera jovens mulheres, fornecendo-lhes as ferramentas, a inspiração e a representação necessárias para quebrar barreiras. As histórias de Raíssa, Beatriz, Duane e Sulamita são testemunhos vivos do impacto transformador dessas iniciativas, que não só formam futuras cientistas, mas também líderes e agentes de mudança. O compromisso da Fiocruz com o reconhecimento das cientistas mulheres, a pesquisa de gênero e o estímulo ao interesse juvenil é um passo fundamental para construir um ambiente científico mais inclusivo, inovador e representativo de toda a sociedade. A verdadeira ciência floresce na diversidade, e programas como este garantem que mais vozes e talentos femininos contribuam para as grandes descobertas do amanhã.

FAQ

Qual o objetivo principal do programa de imersão da Fiocruz para meninas?
O principal objetivo é estimular o interesse de estudantes do ensino médio pela carreira científica, desmistificando o trabalho de pesquisa e apresentando as diversas áreas e possibilidades dentro da ciência, além de combater a desigualdade de gênero nas áreas STEM.

Quem pode participar do programa e como funciona a seleção?
O programa de imersão é direcionado a estudantes do ensino médio. A seleção ocorre por meio de edital público, geralmente divulgado nas redes sociais da Fiocruz e em escolas parceiras, e critérios específicos como residência na Região Metropolitana do Rio de Janeiro são considerados para algumas edições. As vagas são limitadas, e a participação é gratuita.

Por que é tão importante incentivar a participação de meninas na ciência?
Incentivar a participação de meninas na ciência é crucial por diversas razões: promove a equidade de gênero, enriquece a pesquisa com diferentes perspectivas e experiências, combate estereótipos, e contribui para o desenvolvimento social e tecnológico ao ampliar o pool de talentos disponíveis para enfrentar os desafios globais. Além disso, garante que o progresso científico seja mais representativo e benéfico para toda a sociedade.

Quais áreas da ciência são abordadas durante a imersão na Fiocruz?
Durante a imersão, as estudantes têm a oportunidade de conhecer diversas áreas da ciência, visitando laboratórios e unidades de pesquisa que abrangem desde as ciências biomédicas e da saúde pública (biologia, química, epidemiologia) até campos mais amplos, como a conservação do patrimônio histórico-científico e a comunicação científica. O programa busca mostrar a vasta e multidisciplinar natureza do trabalho científico.

Para saber mais sobre como a Fiocruz apoia a diversidade na ciência e outras iniciativas inspiradoras, visite o site oficial da Fundação e explore oportunidades de engajamento na área científica.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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