A participação de jovens em conferências internacionais sobre o meio ambiente tem crescido significativamente nos últimos anos, marcando uma presença cada vez mais notória em discussões cruciais para o futuro do planeta. No entanto, a mera representação não é suficiente; o verdadeiro desafio reside em integrar esses jovens efetivamente nos espaços de decisão. Essa é a avaliação da advogada cearense Beatriz Azevedo, de 33 anos, uma das dez jovens agraciadas em 2024 como “Land Heroes” (heróis da terra) pela Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD). O título de Land Hero reconhece indivíduos e organizações juvenis que desenvolvem ações inovadoras de enfrentamento à desertificação, à degradação da terra e à seca, buscando dar visibilidade a esses agentes de mudança e aproximá-los dos processos da convenção. A influência dos jovens é vista como essencial para a crise ambiental e climática.
A ascensão da juventude nos debates ambientais
A jornada da juventude nas discussões ambientais globais tem sido marcada por uma evolução notável. De observadores a participantes ativos, os jovens têm conquistado espaço, mas a batalha para transformar presença em poder de decisão ainda é árdua. A COP17 de Combate à Desertificação, realizada em Ulaanbaatar, Mongólia, sob o tema “Restaurando a Terra. Restaurando a Esperança”, reúne representantes de 197 países, cientistas, empresas, organizações da sociedade civil, povos indígenas, pastores, agricultores familiares e jovens para discutir temas como restauração de terras, seca, segurança alimentar e financiamento. Neste cenário, a voz juvenil busca ecoar com maior força.
Do ativismo à influência: o desafio de transformar participação em decisão
Para Beatriz Azevedo, existe uma expectativa crescente de que os jovens sejam parte integral da solução para a crise ambiental e climática. Contudo, essa demanda raramente vem acompanhada de estrutura, financiamento e oportunidades profissionais proporcionais. A advogada enfatiza a diferença crucial entre representatividade e influência política. Embora programas como o Youth Forum, Land Heroes, Ecopreneur (para empreendedores verdes) e Youth Negotiators (que treina jovens negociadores) tenham ampliado a participação e a presença dos jovens, o desafio maior é garantir que suas contribuições sejam efetivamente incorporadas nas decisões finais tomadas pelos países. Isso exige um engajamento direto dos jovens com seus governos nacionais, como o diálogo aberto que o governo brasileiro historicamente demonstra com o Itamaraty e os ministérios, crucial para fundamentar as posições do país.
O reconhecimento internacional e o papel de Beatriz Azevedo
Beatriz Azevedo é um exemplo de como a paixão pela causa ambiental pode ser canalizada em ações concretas e reconhecidas globalmente. Além de ser Land Hero, ela preside a Comissão de Direito Ambiental da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e é fundadora da ABA Climate Solutions, uma consultoria especializada em financiamento climático. Seu trabalho foca em conectar financiadores a iniciativas de restauração e combate à degradação da terra, atuando em um ponto estratégico do processo. Sua atuação transcende fronteiras, levando a realidade do Ceará e suas soluções para espaços da ONU em países como Arábia Saudita, China e Panamá, sempre buscando integrar o contexto local ao internacional e defender a influência dos jovens.
Conectando realidades locais e pautas globais na COP17
A COP17 de Combate à Desertificação representa uma oportunidade singular para o Brasil e, em particular, para o Nordeste. Enquanto as negociações climáticas frequentemente direcionam o foco para a Amazônia, esta conferência permite que a Caatinga e o Semiárido, biomas severamente impactados pela desertificação, ocupem o centro das discussões internacionais.
Foco no Nordeste brasileiro: Caatinga e semiárido em destaque
A expectativa de Beatriz Azevedo é que a COP17 aumente a visibilidade sobre os problemas que atingem diretamente o Nordeste brasileiro, uma região historicamente afetada pela seca e desertificação. A advogada destaca que, ao contrário das COPs do Clima, onde a Amazônia domina a pauta, a COP da Desertificação oferece um palco para as demandas da Caatinga e do Semiárido. É um espaço valioso para a região pautar suas necessidades diretamente com o governo e outros países, buscando soluções e investimentos que considerem as particularidades locais e promovam o desenvolvimento sustentável.
Financiamento e bioeconomia: propostas para a restauração da terra
As pautas que devem avançar na COP17, segundo Beatriz, incluem a bioeconomia, que preconiza a restauração da terra aliada a benefícios socioeconômicos, como geração de emprego e renda. Projetos como a cultura da macaúba para a produção de combustível sustentável de aviação (SAF), associada à restauração, são exemplos de iniciativas que sua empresa discute. Outra frente crucial é o financiamento de projetos de restauração pelo mercado de carbono. É imperativo que as decisões promovam ações sustentáveis nos âmbitos econômico, ambiental e social. Não se pode exigir a conservação sem oferecer meios de subsistência para aqueles que cuidam do território. Isso deve caminhar lado a lado com a demarcação de terras indígenas e a garantia de direitos, buscando um financiamento justo que chegue aos assentamentos rurais e comunidades locais, promovendo a repartição de benefícios.
Superando desafios e olhando para o futuro
A trajetória dos jovens ativistas ambientais, embora promissora, não é isenta de desafios. A pressão por resultados e a constante exposição a notícias sobre a emergência climática podem gerar um peso considerável, impactando a saúde mental.
O peso da expectativa e a saúde mental dos jovens ativistas
Beatriz Azevedo compartilha uma experiência comum entre muitos jovens ativistas: a sensação de sobrecarga e ansiedade. Ela mesma se afastou por um período dos processos da ONU, entre 2016 e 2021, por sentir que, apesar da participação, as mudanças não aconteciam no ritmo necessário. Existe uma narrativa potente de que “o jovem é a solução”, mas ela é frequentemente desacompanhada de estrutura e financiamento adequados. O trabalho no terceiro setor muitas vezes é instável, dependendo excessivamente do voluntariado e oferecendo remunerações precárias. O ativismo, embora abra portas e dê visibilidade, nem sempre se traduz em emprego e renda imediatos, afetando a saúde mental. Seu retorno ao cenário internacional com foco no financiamento demonstra uma estratégia para atacar a raiz do problema: como fazer os recursos chegarem a quem executa.
A importância de persistir: uma mensagem de esperança
Apesar dos desafios, Beatriz Azevedo faz questão de deixar uma mensagem de esperança e incentivo aos jovens que desejam se engajar na pauta ambiental. Ela ressalta que, embora o tema possa parecer pesado, trabalhar com a agenda ambiental oferece uma oportunidade ímpar de alinhar propósitos pessoais a um impacto positivo na sociedade, por meio de novas soluções, tecnologias e projetos. É um caminho profissional e de vida que, segundo ela, “vale a pena seguir”. A influência dos jovens é um motor para a mudança, e persistir nesse caminho é fundamental para construir um futuro mais sustentável e equitativo.
Perguntas Frequentes (FAQ)
O que é um “Land Hero” e qual sua importância?
Um “Land Hero” (herói da terra) é um reconhecimento concedido pela Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD) a jovens e organizações que desenvolvem ações de enfrentamento à desertificação, degradação da terra e seca. A importância reside em dar visibilidade a esses agentes de mudança e aproximá-los dos processos de decisão da convenção.
Qual o objetivo da COP17 de Combate à Desertificação?
A COP17 de Combate à Desertificação tem como objetivo reunir representantes de 197 países, cientistas, empresas, sociedade civil e jovens para discutir e tomar decisões sobre a restauração de terras, mitigação da seca, segurança alimentar, financiamento e resiliência em regiões afetadas pela desertificação, sob o tema “Restaurando a Terra. Restaurando a Esperança”.
Por que a participação da juventude é crucial nos debates ambientais?
A participação da juventude é crucial porque eles representam a geração que herdará os efeitos da crise climática e ambiental. Eles trazem uma energia única, inovação, e projetos de grande impacto direto. Além disso, esses espaços promovem a formação de lideranças conscientes da ciência e dos processos de tomada de decisão, preparando-os para o “novo normal” e garantindo a justiça climática e a representatividade de diferentes realidades.
Engaje-se nas discussões sobre o combate à desertificação e apoie iniciativas que promovam a influência dos jovens nas decisões ambientais.


