O Brasil lamenta o falecimento de Odette Ernest Dias, renomada flautista e figura central na história do choro brasileiro, que nos deixou nesta quarta-feira (24) aos 96 anos, no Rio de Janeiro. Nascida na França, Odette abraçou a música brasileira com paixão e dedicação, deixando um legado inestimável que transcende gerações. Sua contribuição mais notável é a fundação do icônico Clube do Choro de Brasília, que nasceu de encontros musicais informais em sua casa na década de 1970. Mais do que uma instrumentista virtuosa, Odette Ernest Dias foi uma educadora inspiradora, moldando o talento de inúmeros músicos e consolidando o choro como um patrimônio cultural vibrante e essencial do nosso país.
O legado imortal de uma mestra do choro
A paixão de Odette Ernest Dias pela música brasileira e, em particular, pelo choro, marcou profundamente a cena cultural do país. Sua generosidade e talento foram o catalisador para um dos espaços mais relevantes para o ritmo no Brasil, o Clube do Choro de Brasília, um verdadeiro bastião da música instrumental nacional.
A gênese do Clube do Choro de Brasília
Na efervescente década de 1970, a residência de Odette Ernest Dias em Brasília se transformou em um ponto de encontro para músicos e entusiastas do choro. Nesses encontros, que frequentemente se estendiam por horas a fio, a melodia contagiante do chorinho preenchia o ambiente, criando um espaço de camaradagem e virtuosismo musical. A beleza e a energia desses saraus foram tão cativantes que, de forma orgânica, deram origem ao que hoje é o prestigiado Clube do Choro de Brasília. Este clube não apenas ofereceu um palco para talentos emergentes e consagrados, mas também se consolidou como uma referência cultural e um patrimônio imaterial do Distrito Federal, reconhecido em todo o território nacional e internacionalmente. O violonista Jaime Ernst Dias, filho de Odette, ressalta que a mãe deixa um legado tanto para a arte em si quanto para a formação de muitas gerações de músicos, um testemunho de sua visão e dedicação.
Uma carreira longeva e inspiradora
A trajetória de Odette Ernest Dias foi pautada pela longevidade e pelo compromisso inabalável com a música e o ensino. Seu filho exemplifica essa dedicação ao afirmar que ela continuou a lecionar no conservatório no Rio de Janeiro até os 90 anos de idade, inspirando jovens talentos com sua sabedoria e técnica. Além de seu impacto profissional, Odette também deixou uma marca indelével em sua própria família. Mãe de seis filhos, ela teve a alegria de ver cinco deles seguindo seus passos na música, uma prova clara de como seu entusiasmo e paixão eram contagiantes. “Ela nos inspirou em todos os sentidos”, afirmou Jaime Ernst Dias, que inclusive gravou com ela um disco intitulado “Paisagem Noturna”, um registro afetivo e artístico da parceria entre mãe e filho.
Trajetória: da Orquestra Sinfônica Brasileira à Universidade de Brasília
A vida de Odette Ernest Dias é um fascinante entrelaçamento de culturas, uma ponte entre a rigidez clássica europeia e a espontaneidade calorosa da música brasileira, que ela abraçou com todo o seu ser.
A chegada ao Brasil e o florescer musical
Com apenas 23 anos, Odette Ernest Dias, uma talentosa flautista francesa, tomou a decisão que moldaria o resto de sua vida: imigrar para o Brasil. Chegando ao Rio de Janeiro, rapidamente integrou-se à cena musical carioca, sendo contratada para tocar na renomada Orquestra Sinfônica Brasileira. Sua técnica apurada e sensibilidade artística rapidamente a destacaram. Duas décadas depois, um novo capítulo se abriu em sua vida profissional e pessoal. Em meados do século XX, ela se mudou para a recém-inaugurada capital federal, Brasília, onde foi contratada pela Universidade de Brasília (UnB) para atuar como professora de flauta. “Viemos com a família toda para Brasília”, recorda seu filho, Jaime Ernst Dias, sobre essa mudança que representou um marco. Foi em Brasília que sua carreira como solista se consolidou, fruto de diversas parcerias importantes, entre elas com a pianista Elza Kazuko Gushiken, e onde ela aproveitou muitas oportunidades para mostrar seu talento e paixão.
A educadora generosa e formadora de talentos
Além de sua brilhante carreira como instrumentista e solista, Odette Ernest Dias é lembrada por seu profundo compromisso com a educação musical. Seu papel como professora no conservatório no Rio e na UnB não se limitou a transmitir conhecimento técnico; ela incutiu em seus alunos o amor pela música, a disciplina e a generosidade artística. O Ministério da Cultura, em nota de pesar, destacou que, para além da atuação artística, Odette deixou um legado marcante como educadora, contribuindo fundamentalmente para a formação de gerações de músicos e instrumentistas no país. A nota enfatizou que “Sua trajetória uniu excelência técnica, compromisso com a música e generosidade no ensino”, encapsulando a essência de sua missão. A imagem de Odette, uma apaixonada por choro, que “andava sempre com a flauta dela”, como recorda o diretor do Clube do Choro, Henrique Neto, é um símbolo de sua dedicação inabalável e de seu espírito vivaz que inspirou a todos ao seu redor.
Homenagens e o impacto duradouro
O falecimento de Odette Ernest Dias reverberou profundamente na comunidade musical e cultural brasileira, com diversas instituições e personalidades prestando suas últimas homenagens à mestra.
O reconhecimento de sua contribuição cultural
A notícia do falecimento da flautista gerou manifestações de profundo pesar e reconhecimento. O Ministério da Cultura, em uma nota oficial, expressou sua consternação e fez questão de salientar o papel de Odette Ernest Dias na fundação e consolidação do Clube do Choro de Brasília. O documento ministerial apontou que “O espaço se consolidou como referência cultural e patrimônio imaterial do Distrito Federal”, um reconhecimento da importância duradoura do trabalho iniciado por Odette. Henrique Neto, atual diretor do Clube do Choro, ecoa esse sentimento ao defender o papel histórico que a musicista teve para o desenvolvimento da música brasileira. “Evidentemente, tudo tem a inspiração do legado da Odette”, afirmou o professor, ressaltando que a própria existência e vitalidade do clube hoje são um reflexo direto de sua influência pioneira. O impacto de sua presença era tão marcante que, mesmo em uma homenagem a ela em 2021, a musicista fez questão de tocar, mostrando que seu amor pela flauta e pelo choro era inseparável de sua própria essência. Odette Ernest Dias deixa uma lacuna imensa, mas também um repertório vasto de ensinamentos, melodias e um caminho pavimentado para futuras gerações de chorões e músicos.
FAQ
Quem foi Odette Ernest Dias?
Odette Ernest Dias foi uma renomada flautista francesa que se radicou no Brasil, tornando-se uma figura central na música brasileira e fundadora do Clube do Choro de Brasília.
Qual foi a principal contribuição de Odette Ernest Dias para a música brasileira?
Sua principal contribuição foi a fundação do Clube do Choro de Brasília, a formação de gerações de músicos como educadora e sua atuação como solista e instrumentista.
Quantos anos tinha Odette Ernest Dias quando faleceu e onde?
Odette Ernest Dias faleceu aos 96 anos de idade no Rio de Janeiro.
Odette Ernest Dias era brasileira?
Não, ela nasceu na França, mas adotou o Brasil como sua pátria e dedicou sua vida à música e cultura brasileiras.
Para aprofundar seu conhecimento sobre o universo do choro e o impacto indelével de Odette Ernest Dias na cultura brasileira, explore nosso acervo de artigos e entrevistas dedicados à riqueza da nossa música instrumental.


