No último domingo, 3 de setembro, foi celebrado o centenário de nascimento de Milton Santos, um dos mais importantes geógrafos brasileiros e uma referência intelectual em escala global. A data foi marcada por manifestações de reconhecimento e valorização de sua obra, que continua a ser um farol para a compreensão das complexas dinâmicas do mundo contemporâneo. Considerado um pensador à frente de seu tempo, Milton Santos se destacou por sua crítica contundente à globalização e por sua capacidade singular de interpretar as realidades brasileiras e globais. Sua análise aprofundada das desigualdades e das transformações sociais permanece notavelmente atual, tornando-o um autor indispensável para quem busca entender os desafios e as potencialidades da nossa era.
A celebração de um legado centenário
A memória e o legado de Milton Santos foram evocados recentemente, reiterando a perene importância de seu trabalho para a análise do cenário socioeconômico e geopolítico. O centenário de seu nascimento serviu como um momento para revisitar suas ideias, que há décadas oferecem ferramentas críticas para desvendar as camadas de complexidade da sociedade globalizada. Intelectual negro e baiano, Milton Santos construiu uma carreira marcada pela defesa de uma geografia engajada e por uma visão humanista, que sempre colocou as pessoas e as desigualdades sociais no centro de suas investigações. Seu nome ecoa em universidades e centros de pesquisa ao redor do mundo, atestando a universalidade e a profundidade de seu pensamento. A relevância de sua obra transcende as fronteiras acadêmicas, permeando debates sobre desenvolvimento, urbanização e justiça social em diversos continentes. A capacidade de Milton Santos de antecipar e diagnosticar problemas estruturais da globalização torna suas reflexões ainda mais prementes em um período de rápidas e intensas transformações.
Milton Santos: trajetória e o nascimento de um pensador crítico
Raízes baianas e formação acadêmica
Nascido em 1926, em Brotas de Macaúbas, Bahia, Milton Santos iniciou sua jornada intelectual em um Brasil com profundas desigualdades. Formou-se em Direito pela Universidade Federal da Bahia, mas sua paixão pela geografia o levou a seguir um caminho acadêmico distinto. Após a graduação, dedicou-se ao ensino e à pesquisa, obtendo seu doutorado em geografia humana na Universidade de Estrasburgo, na França, nos anos 1950. Sua formação multidisciplinar e suas experiências de vida, incluindo um período de exílio político na década de 1960, enriqueceram sua perspectiva, moldando um geógrafo que via o espaço não apenas como palco, mas como produtor e produto das relações sociais. Essa vivência plural permitiu-lhe desenvolver uma teoria geográfica inovadora, que desafiava as visões tradicionais e eurocêntricas da disciplina, buscando compreender as particularidades dos espaços subdesenvolvidos e as dinâmicas globais sob uma ótica crítica e periférica.
Contribuições teóricas fundamentais
Ao longo de sua prolífica carreira, Milton Santos produziu uma vasta obra que se tornou pilar para o pensamento geográfico e para as ciências sociais. Conceitos como “espaço geográfico”, “cidadania mutilada”, “região” e “formação socioespacial” foram elaborados e aprofundados por ele, oferecendo novas lentes para a compreensão da realidade. Para Santos, o espaço não é um mero substrato físico, mas uma totalidade indissociável de técnica, tempo, normas e relações sociais, onde a ação humana se materializa e se reproduz. Seu trabalho em geografia urbana, especialmente a análise das cidades brasileiras, revelou os mecanismos pelos quais o capitalismo reestrutura o espaço, acentuando segregações e desigualdades. Ele foi um defensor incansável da necessidade de uma abordagem geográfica que considerasse as dimensões políticas e econômicas, transcendendo a mera descrição física.
A “globalização perversa”: uma análise profunda das desigualdades
“Por uma outra globalização”: o manifesto contra o pensamento único
Em uma de suas obras mais impactantes, “Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal”, publicada em 2000, Milton Santos descreve a globalização como um fenômeno “perverso”. Contrariando a retórica dominante de integração e progresso, ele argumentava que a globalização, tal como se manifestava, aprofundava as desigualdades mundiais. Segundo o geógrafo, um mercado avassalador, apresentado como capaz de homogeneizar o planeta, na verdade exacerba as diferenças locais. Ele criticava a busca por uma uniformidade que serve aos interesses de atores hegemônicos, enquanto o mundo se torna menos unido e o sonho de uma cidadania verdadeiramente universal se distancia. Milton Santos diagnosticava que, sob o verniz da interconexão tecnológica e econômica, estava se forjando um sistema que marginaliza vastas populações e regiões, consolidando um “pensamento único” que invisibiliza as alternativas e as resistências.
Periferias como potenciais de transformação
Apesar de sua visão crítica sobre a globalização hegemônica, Milton Santos não era um pessimista incorrigível. Pelo contrário, ele via nas periferias – geográficas, sociais e econômicas – um enorme potencial de transformação. Para ele, as desigualdades geradas pelo sistema global não são um ponto final, mas um motor para a emergência de novas formas de organização e de consciência. O geógrafo acreditava que as experiências e as lutas dos grupos marginalizados poderiam dar origem a alternativas para uma globalização mais justa e solidária. Essa perspectiva sublinha a sua crença na capacidade dos povos de construir “outras globalizações”, baseadas na solidariedade, na diversidade e na autodeterminação. Ele defendia que a compreensão dessas periferias, não como meros receptáculos de problemas, mas como espaços de criatividade e resistência, é fundamental para qualquer projeto de mudança social e política.
A perene atualidade do pensamento de Milton Santos
Mesmo após seu falecimento em 2001, aos 75 anos, as ideias de Milton Santos continuam a ser uma referência indispensável para análises socioeconômicas no Brasil e no mundo. Sua teoria aparece em pesquisas que abordam desde as dinâmicas urbanas em Gana, na África, até os complexos processos de gentrificação em Londres e Paris, na Europa. A relevância de sua obra reside na capacidade de fornecer um arcabouço teórico robusto para a compreensão de grandes mudanças geopolíticas e sociais, da financeirização da economia à crise climática, da precarização do trabalho às novas formas de organização social. Ele nos ensina a olhar para o mundo de forma crítica, a questionar as narrativas dominantes e a buscar as interconexões entre os fenômenos aparentemente díspares. Em um cenário global marcado por incertezas e crises multifacetadas, a visão de Milton Santos sobre as interdependências e as contradições do espaço geográfico permanece vital para construir um futuro mais equitativo e sustentável.
Perguntas frequentes sobre Milton Santos
Quem foi Milton Santos e qual sua principal contribuição?
Milton Santos (1926-2001) foi um geógrafo brasileiro, notório por sua visão crítica e inovadora sobre o espaço geográfico e a globalização. Sua principal contribuição reside na formulação de uma teoria geográfica que integra as dimensões sociais, econômicas e políticas do espaço, com destaque para a análise das desigualdades da globalização e o papel das periferias.
O que Milton Santos entendia por “globalização perversa”?
Para Milton Santos, a “globalização perversa” era a manifestação da globalização que, apesar de prometer integração e progresso, na prática aprofundava as desigualdades entre países e regiões. Ele criticava a busca por uma uniformidade ditada por atores hegemônicos, que resultava em um mundo menos unido e mais distante de uma cidadania universal.
Por que o pensamento de Milton Santos continua relevante hoje?
O pensamento de Milton Santos mantém sua relevância devido à sua capacidade de desvendar as complexidades do mundo contemporâneo. Suas análises sobre as desigualdades sociais, as dinâmicas urbanas, as transformações geopolíticas e o papel da tecnologia no espaço geográfico continuam a oferecer ferramentas essenciais para a compreensão dos desafios atuais e para a busca por alternativas mais justas e equitativas.
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