Luta contra o racismo: 12ª Marcha das Mulheres Negras no Rio de

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A luta contra o racismo, pela democracia e pela reparação histórica volta a ocupar um dos cenários mais emblemáticos do Rio de Janeiro com a realização da 12ª Marcha das Mulheres Negras do Estado. Marcada para o dia 26 de julho, a partir das 10h, no Posto 2 de Copacabana, a mobilização promete reunir milhares de mulheres negras de diversos municípios fluminenses. Com o tema “Em defesa da democracia, contra o racismo, pela reparação e bem viver”, o evento integra a programação do Julho das Pretas e representa um dos maiores atos políticos do movimento negro no estado, destacando a importância da Marcha das Mulheres Negras como um pilar de resistência e reivindicação social. A iniciativa não apenas denuncia as profundas desigualdades, mas também propõe caminhos para a construção de uma sociedade mais justa e equitativa, onde as vozes e as pautas das mulheres negras sejam plenamente reconhecidas e valorizadas.

A mobilização por democracia, reparação e bem viver

A 12ª Marcha das Mulheres Negras do Estado do Rio de Janeiro é muito mais do que uma simples caminhada; é um ato político cuidadosamente planejado e construído de forma colaborativa, visando fortalecer as bases do movimento e amplificar suas demandas. Antes mesmo da concentração em Copacabana, a organização promove um evento crucial para a coesão e formação das participantes: a tradicional Oficina de Pirulitos.

A tradição da Oficina de Pirulitos: Formação e união

A Oficina de Pirulitos, que este ano ocorreu no Instituto de Pesquisas das Culturas Negras (IPCN), no Centro do Rio, é um marco na preparação da marcha. Este encontro não se dedica apenas à confecção dos cartazes e faixas que serão erguidos durante a caminhada, os chamados “pirulitos”, mas funciona também como um espaço vibrante de formação política, integração e fortalecimento mútuo entre as mulheres. É ali que as pautas são debatidas, as estratégias são alinhadas e os laços de solidariedade são estreitados. Complementando essa atmosfera de união, a programação inclui um churrasco colaborativo, construído de forma coletiva, simbolizando a partilha e o apoio mútuo.

Segundo a coordenadora da marcha, Clatia Vieira, a oficina representa a essência da organização do movimento. Ela afirma que a construção dos pirulitos é um ato político em si. É nesse momento que as mulheres se encontram, debatem as pautas da marcha e fortalecem essa rede de solidariedade. A ideia é que todas possam contribuir e participar, independentemente de suas condições. “Quem pode leva sua contribuição para o churrasco, quem não pode participa da mesma forma. A gente pensa para que nenhuma mulher fique de fora”, explica Vieira, reforçando o caráter inclusivo e horizontal da iniciativa. Este modelo de construção coletiva garante que todas as vozes sejam ouvidas e que a mobilização represente verdadeiramente a diversidade e as necessidades das mulheres negras.

Uma história de resistência e crescimento contínuo

A trajetória da Marcha das Mulheres Negras no Brasil e no Rio de Janeiro é uma prova da resiliência e da capacidade de articulação do movimento negro feminino. Embora a edição estadual celebre sua 12ª edição, a semente para essa mobilização foi plantada muito antes, em um contexto nacional de busca por reconhecimento e direitos.

Da articulação nacional à consolidação no Rio de Janeiro

A história da Marcha das Mulheres Negras começou a ser construída em 2011, quando organizações de mulheres negras de todo o país lançaram a proposta de realizar uma grande marcha nacional. Após quatro anos de intensa articulação, a iniciativa ganhou as ruas de Brasília em 2015, reunindo uma impressionante estimativa de 100 mil mulheres. O impacto dessa mobilização nacional reverberou por todo o país, e no mesmo ano, o Rio de Janeiro realizou sua primeira marcha estadual. Desde então, o evento passou a acontecer anualmente, tornando-se parte da mobilização permanente do Fórum Estadual de Mulheres Negras.

A continuidade do movimento tem sido notável. Mesmo diante de desafios sem precedentes, como a pandemia de covid-19, que forçou a realização de duas edições de forma virtual, a articulação e o engajamento foram mantidos. A coordenadora Clatia Vieira reitera a persistência da marcha, destacando que, apesar das edições online, o movimento tem ocupado as ruas há uma década desde 2015. Vieira enfatiza que a marcha nunca deixou de existir porque o racismo, infelizmente, também nunca deixou de existir. No ano anterior, além da organização da marcha estadual, o movimento fluminense também participou ativamente da construção da 2ª Marcha Nacional das Mulheres Negras, novamente realizada em Brasília, ampliando ainda mais a articulação e a força política entre os estados. Essa colaboração nacional e estadual demonstra a solidez e a importância crescente da Marcha das Mulheres Negras como um espaço vital de denúncia e reivindicação.

Ocupando Copacabana: Território de disputa e denúncia

A escolha de Copacabana, um dos bairros mais conhecidos e turísticos do Rio de Janeiro, como local para a 12ª Marcha das Mulheres Negras não é aleatória; ela carrega um profundo significado político e social. A ocupação desse espaço simboliza uma disputa por território e uma denúncia explícita das desigualdades raciais e sociais que permeiam a cidade.

Ampliação da rede de mobilização e significado político do local

Ao longo dos anos, a marcha consolidou uma vasta rede de mobilização que se estende por todo o território fluminense. Mulheres de dezenas de municípios, incluindo São Francisco de Itabapoana, Cantagalo, Niterói, e diversas localidades da Baixada Fluminense, organizam caravanas para participar ativamente da caminhada. A expectativa é reunir entre 10 e 15 mil mulheres em Copacabana, um número que reflete a força e o engajamento do movimento. Mais do que participar de um ato público, a proposta central é que essas mulheres retornem aos seus municípios fortalecidas, inspiradas a criar fóruns locais, ampliar o diálogo sobre o racismo e pressionar o poder público por políticas públicas eficazes e voltadas especificamente para a população negra.

A integrante da coordenação, Rose Cipriano, explica o simbolismo da escolha de Copacabana. O bairro representa um espaço historicamente marcado por profundas desigualdades raciais e sociais. Cipriano aponta que muitas mulheres negras trabalham em Copacabana, frequentemente como empregadas domésticas, e assistem à marcha das janelas dos prédios onde prestam serviço. Marchar ali, portanto, é disputar esse território e mostrar de forma inequívoca que ele também pertence à população negra. A coordenadora Clatia Vieira reforça essa perspectiva, afirmando que ocupar a Zona Sul é uma forma direta de denunciar o racismo estrutural presente na organização da cidade. Ela declara que é nessa “Copacabana opressora” que é preciso dizer o que acontece com as mulheres negras, reafirmando que o local é um território de disputa e de denúncia. A visibilidade da marcha em um local tão proeminente serve para confrontar a invisibilidade histórica e a marginalização das mulheres negras na sociedade.

Pautas da luta: Do racismo estrutural à defesa da vida

A Marcha das Mulheres Negras consolidou-se como um dos principais espaços de articulação política do movimento negro feminino no estado, impulsionada por pautas urgentes e necessárias para a garantia de direitos e a promoção da dignidade.

Construção horizontal e manifestações culturais

A mobilização nasceu e cresceu com o objetivo central de enfrentar o racismo estrutural e denunciar as desigualdades vividas diariamente pelas mulheres negras. Segundo a coordenadora Clatia Vieira, a Marcha é, antes de tudo, um ato político de denúncia ao racismo. Ela detalha que a marcha denuncia como as mulheres negras vivem, como são submetidas às desigualdades e como o racismo estrutural as coloca em situação de ausência de políticas públicas. Quando se fala em reparação, segundo Vieira, está-se falando em dividir poder, garantir que as mulheres negras ocupem os espaços de decisão e sejam ouvidas. As pautas da marcha são amplas e abrangem a defesa da democracia, o enfrentamento ao racismo, o fim da escala de trabalho 6×1, a defesa da PEC da Reparação, a luta contra a redução da maioridade penal, e o direito fundamental à saúde, à educação, ao trabalho digno e à vida. Todas essas reivindicações são construídas pelas próprias mulheres negras e expressam a realidade de quem sente diariamente os efeitos devastadores do racismo.

Um aspecto distintivo da marcha é sua construção horizontal. Clatia Vieira destaca que a Marcha das Mulheres Negras “não tem dona”. Ela é pensada por mulheres negras, para mulheres negras e com mulheres negras. Todas têm direito à fala, e quando chegam à marcha, ninguém vai apenas bater palma. Cada mulher leva sua voz, sua experiência e sua luta, contribuindo para a riqueza e diversidade do movimento. Além de ser um ato político, a marcha também incorpora vibrantes manifestações culturais que são parte intrínseca da história e da resistência da população negra. Durante a concentração e ao longo do percurso, o público poderá presenciar apresentações de jongo, também conhecido como caxambu, uma dança e ritmo afro-brasileiro, além de samba, feira de artesãs, atividades para crianças e manifestações ligadas às religiões de matriz africana. Segundo a coordenadora, esses elementos representam a ancestralidade que sustenta o movimento. “Ato de gente preta é ato de aquilombamento. Tem jongo, tem samba, tem ancestralidade, tem cultura. A nossa história vem da África e essa memória faz parte da nossa resistência”, conclui Vieira, reforçando a importância da cultura como ferramenta de empoderamento e memória.

O legado e a voz que ecoa por dignidade

A 12ª Marcha das Mulheres Negras no Rio de Janeiro reafirma sua posição como um evento de suma importância para a sociedade brasileira. Ao longo de sua história, a marcha não apenas se consolidou como um poderoso instrumento de denúncia do racismo estrutural e das múltiplas formas de desigualdade que afetam as mulheres negras, mas também se tornou um espaço vital de aquilombamento, formação política e celebração cultural. A mobilização anual em Copacabana transcende o ato de caminhar; ela simboliza a ocupação de um território historicamente excludente, a reivindicação de direitos fundamentais e a insistência em uma reparação que vá além do simbólico, alcançando a esfera da divisão de poder e da garantia de políticas públicas. A persistência do movimento, mesmo diante de adversidades, demonstra que a luta por respeito, igualdade e pelo direito de viver com dignidade é contínua e inegociável, ecoando a voz de milhares de mulheres que seguem construindo um futuro de bem viver para todas.

Perguntas frequentes

1. O que é a 12ª Marcha das Mulheres Negras do Estado do Rio de Janeiro?
É um ato político e cultural anual que reúne mulheres negras de diversos municípios fluminenses para denunciar o racismo, reivindicar direitos, defender a democracia e lutar pela reparação histórica e pelo bem viver. A edição de 2024 é a 12ª e ocorrerá em Copacabana.

2. Por que Copacabana foi escolhida como local para a marcha?
A escolha de Copacabana é estratégica e política. O bairro é historicamente marcado por desigualdades raciais e sociais, e muitas mulheres negras trabalham ali em condições precárias. Marchar em Copacabana é uma forma de disputar esse território, denunciar o racismo estrutural da cidade e afirmar a presença e a pertencimento da população negra em espaços de visibilidade.

3. Qual a importância da “Oficina de Pirulitos” na preparação da marcha?
A Oficina de Pirulitos é um encontro pré-marcha fundamental para a organização e fortalecimento do movimento. Além de ser o local onde são confeccionados os cartazes e faixas (“pirulitos”), a oficina funciona como um espaço de formação política, debate de pautas, integração e fortalecimento dos laços de solidariedade entre as participantes, garantindo uma construção horizontal e coletiva do evento.

4. Quais são as principais pautas e objetivos da marcha?
As principais pautas incluem a denúncia do racismo estrutural, a defesa da democracia, a luta contra o racismo, a reivindicação de reparação histórica, o fim da escala de trabalho 6×1, a defesa da PEC da Reparação, o combate à redução da maioridade penal, e a garantia de direitos fundamentais como saúde, educação, trabalho digno e o direito à vida. O objetivo é dar visibilidade às experiências das mulheres negras e pressionar por políticas públicas que assegurem sua dignidade e igualdade.

Para mais informações sobre a marcha e como apoiar o movimento, siga as redes sociais das organizações participantes e informe-se sobre as próximas iniciativas em defesa dos direitos das mulheres negras.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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