Moacir Santos: um século de ancestralidade e erudição na música

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No dia 26 de julho, o Brasil e o mundo da música celebram o centenário de Moacir Santos, uma figura monumental cuja obra transcende gêneros e fronteiras. Compositor, arranjador, multi-instrumentista e maestro, Moacir Santos deixou um legado inestimável, caracterizado pela fusão engenhosa de ritmos afro-brasileiros com a sofisticação do jazz. Apesar de seu reconhecimento internacional e da admiração de gigantes da música, sua genialidade ainda clama por maior destaque em seu próprio país. Sua trajetória, desde o sertão pernambucano até os palcos globais, é um testemunho da capacidade de inovar e de forjar uma identidade sonora única que continua a inspirar gerações de artistas e ouvintes.

As raízes profundas de um mestre

Da infância no sertão à formação itinerante
A jornada musical de Moacir Santos começou nas terras áridas do Sertão Pernambucano, na região de Serra Talhada. Em um depoimento recuperado de um especial de rádio de 2016, o próprio maestro rememorou seus primeiros contatos com a música, descrevendo-a como algo intrínseco à sua existência desde muito cedo. Ele contava sobre brincadeiras de criança onde, com apenas 10 anos, liderava uma “banda de meninos nus” pelas ruas de Flores, no sertão, tocando marchinhas. Esse ambiente, aparentemente simples, foi o berço de uma musicalidade inata, desenvolvendo seu ouvido e paixão pela arte desde a mais tenra idade, onde aprendeu os primeiros instrumentos de banda marcial.

Ainda na adolescência, movido por um espírito aventureiro e pela busca incessante pela música, Moacir fugiu de casa. Sua formação se deu de forma itinerante e autodidata, percorrendo o Nordeste brasileiro. Durante essa fase, integrou orquestras de circo e bandas militares, experiências que se tornariam pilares fundamentais para a construção de sua identidade artística. Allan Abbadia, multi-instrumentista, arranjador, compositor e pesquisador, destaca a relevância das bandas de música na formação cultural do Brasil, especialmente por terem sido um espaço de protagonismo para músicos negros, servindo como “o rádio da cidade” em eventos sociais. Segundo Abbadia, Moacir Santos emergiu dessa rica tradição, assimilando-a e, posteriormente, aprofundando-se em estudos formais para refinar seu talento inato.

A ascensão e a consagração no cenário musical

Do Rio de Janeiro a professor de gigantes
A chegada de Moacir Santos aos grandes centros urbanos marcou uma nova fase em sua carreira. Em João Pessoa, assumiu a regência da banda da Rádio Tabajara. Pouco depois, em 1948, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde ingressou na prestigiosa Rádio Nacional como saxofonista. Em apenas três anos, sua genialidade como arranjador foi reconhecida, e ele já comandava a orquestra da emissora. No Rio, aprimorou seus conhecimentos musicais sob a tutela do renomado maestro César Guerra-Peixe, um período que solidificou sua base teórica.

Essa expertise não ficou restrita a si mesmo. Moacir Santos tornou-se um professor influente, guiando uma constelação de talentos que viriam a se tornar alguns dos maiores nomes da música brasileira. Entre seus alunos estavam figuras icônicas como Baden Powell, João Donato, Paulinho da Viola, Airto Moreira e Roberto Menescal. Andrea Ernest Dias, flautista e autora do livro “Moacir Santos, ou os caminhos de um músico brasileiro”, enfatiza que Moacir construiu uma identidade sonora própria através de uma pesquisa aprofundada em teoria musical. Essa abordagem fez dele uma ponte essencial “entre a erudição e o popular”, atraindo jovens músicos ansiosos por aprofundar seu conhecimento além da intuição. Ele se tornou, assim, um mentor fundamental para muitos artistas que buscavam entender a fundo a estrutura e a complexidade da música.

O inovador “Coisas” e a jornada internacional
A década de 1960 consolidou Moacir Santos como um dos mais inventivos arranjadores e compositores do Brasil. Durante esse período, ele assinou arranjos para álbuns memoráveis de Elizeth Cardoso e Baden Powell, e compôs trilhas sonoras para diversos filmes. Parte dessas composições cinematográficas culminou no lançamento de sua obra-prima em 1965: o álbum “Coisas”. Este trabalho revolucionário apresenta dez composições, todas intituladas “Coisa” seguida de uma numeração (por exemplo, “Coisa nº 1”, “Coisa nº 2”), demonstrando uma concepção artística inovadora. Andrea Ernest Dias aponta a genialidade de Moacir em “Coisas” ao sintetizar sua trajetória e amalgamar as referências das bandas filarmônicas e das jazz bands, uma forte tradição no Brasil desde os anos 40, com a pesquisa da Orquestra Afro-Brasileira. O resultado é uma instrumentação e estruturação musical que celebra a identidade afro-brasileira de forma perfeitamente orquestrada.

Em 1967, Moacir Santos tomou a decisão de deixar o Brasil, mudando-se para os Estados Unidos. Lá, continuou a lecionar e a compor trilhas para o cinema, integrando as equipes de maestros de renome como Henry Mancini e Lalo Schifrin. A década de 1970 marcou sua consagração internacional com o lançamento de álbuns pela icônica gravadora de jazz Blue Note. Entre eles, destaca-se “Maestro”, que lhe rendeu uma indicação ao Grammy. Andrea Ernest Dias ressalta a inovação do “mojo”, um sistema rítmico que Moacir desenvolveu nesse trabalho. O “mojo” é descrito como uma síntese de células rítmicas próprias, “muito swingado”, que se tornou uma marca pessoal e imediatamente reconhecível de seu estilo, caracterizando o disco “Maestro” com ritmos intrigantes e singulares.

O legado perene e o reconhecimento tardio
A grandiosidade da obra de Moacir Santos, embora tardiamente, começou a ser mais amplamente celebrada em seu país natal. Em 1985, ele foi um dos homenageados no 1º Free Jazz Festival, onde teve a honra de se apresentar na abertura do evento ao lado do lendário Radamés Gnatalli. Mais tarde, sua obra foi revisitada no aclamado projeto “Ouro Negro”, idealizado pelos músicos Zé Nogueira e Mario Adnet. Este álbum contou com a participação de grandes nomes como Milton Nascimento, Gilberto Gil e do próprio Moacir Santos, servindo como uma porta de entrada para a sua música para muitos ouvintes, incluindo Allan Abbadia.

Abbadia descreve Moacir como “fruto de uma genialidade incrível e uma intelectualidade conquistada através dos estudos também da nossa oralidade, estudos da cultura afro-brasileira”. Ele ressalta que uma das características mais marcantes do maestro é o diálogo que estabelece entre diferentes expressões artísticas da diáspora africana e a música erudita, conseguindo preservar a essência afro-diaspórica sem cair no folclore. A obra de Moacir é vista como “à frente do seu tempo”, abrindo um campo de possibilidades para futuras gerações de músicos e pesquisadores. O próprio maestro, em um de seus workshops, expressou seu desejo mais profundo: “Ser reconhecido no meu país é a minha maior alegria.”

Essa aspiração, infelizmente, não foi totalmente concretizada em vida, pois Moacir Santos faleceu em Los Angeles em 2006, aos 80 anos, vítima de um derrame. No entanto, seu legado continua vivo e relevante. Vinícius de Moraes, parceiro em composições como “Menino travesso” e “Se você disser que sim”, eternizou a admiração por Moacir nos versos do “Samba da bênção”. No ano de seu centenário, eventos e iniciativas como as aulas de Allan Abbadia no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc em São Paulo buscam não apenas reverenciar o nome, mas, acima de tudo, a estética e a profundidade de sua obra, humanizando o artista e permitindo que o público compreenda a magnitude de sua contribuição à cultura mundial.

Perguntas frequentes (FAQ)

Quem foi Moacir Santos?
Moacir Santos foi um renomado compositor, arranjador, multi-instrumentista e maestro brasileiro, conhecido por sua obra que fundiu ritmos afro-brasileiros com o jazz e a música erudita. Nasceu em Pernambuco e teve uma carreira que se estendeu do Brasil aos Estados Unidos, onde trabalhou com grandes nomes da música e foi indicado ao Grammy.

Qual a importância de Moacir Santos para a música brasileira e mundial?
Moacir Santos é considerado um inovador que criou uma identidade sonora única. Ele foi professor de gerações de músicos brasileiros proeminentes e introduziu um sistema rítmico próprio, o “mojo”, que influenciou o jazz e a música instrumental. Sua capacidade de conciliar a ancestralidade cultural com a erudição musical o tornou um ícone.

Qual a obra mais conhecida de Moacir Santos?
Sua canção mais conhecida é “Nanã”, uma homenagem à orixá mais antiga das religiões afro-brasileiras. A melodia, inspirada em uma procissão, ganhou letra e foi gravada por centenas de artistas, tanto do Brasil quanto do cenário internacional do jazz, solidificando seu reconhecimento.

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Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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