No Amazonas, associação de mulheres produz chocolate orgânico

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Na remota Comunidade da Missão, localizada na zona rural de Tefé, no interior do Amazonas, um grupo de mulheres agricultoras mantém viva uma rica tradição de produção orgânica de cacau. Este trabalho ancestral, enraizado nos saberes transmitidos desde a fundação da comunidade por padres espiritanos holandeses no final do século XIX, transforma o cacau local em um chocolate puro e autêntico. As pioneiras criaram o “Clube de Mães”, uma rede de apoio que fomentou a educação, a divisão de tarefas e a criação de quintais produtivos, garantindo alimentação saudável e solidariedade. Atualmente, sob a coordenação de Bernadete de Araújo, conhecida como Dona Bete, a iniciativa evoluiu para uma fonte de renda sustentável, preservando a identidade cultural e ambiental da região amazônica. A busca por certificação consolidou um sonho antigo.

Legado ancestral e o sabor da tradição

A Comunidade da Missão, um enclave de resiliência e cultura na zona rural de Tefé, Amazonas, é o berço de uma prática milenar. Há gerações, as mulheres locais cultivam o cacau e o transformam em chocolate, utilizando métodos que respeitam a natureza e os ensinamentos transmitidos de mãe para filha. A fundação da comunidade no final do século XIX por padres espiritanos holandeses já trazia em seu cerne a ideia de colaboração e autossuficiência, materializada no pioneiro “Clube de Mães”. Essa rede de apoio foi fundamental para a subsistência da comunidade, promovendo a educação, a partilha de responsabilidades e a criação de quintais produtivos que garantiam a alimentação e a saúde de todos.

O papel do Clube de Mães e o conhecimento familiar

O “Clube de Mães” não era apenas uma organização; era um estilo de vida que pavimentou o caminho para a sustentabilidade da Comunidade da Missão. Ele incutiu um profundo respeito pelos métodos de cultivo e transformação do cacau, garantindo que o conhecimento tradicional fosse valorizado e perpetuado. Bernadete de Araújo, Dona Bete, hoje coordena com entusiasmo o grupo de produção orgânica, destacando a importância desse legado. “A gente fabrica o nosso chocolate de forma orgânica, com o processo de fermentação nas casas mesmo, dentro de casa, particular. Tudo que se produz aqui é familiar. Todo mundo carrega, na sua família, o conhecimento tradicional da sua ancestralidade. Isso é respeitado. Cada um faz do jeito que sua mãe fazia, e isso é muito bom. Isso vale muito para cada uma de nós, a nossa tradição raiz”, afirma Dona Bete, com orgulho visível em sua voz, reforçando a ligação intrínseca entre o produto e a identidade da comunidade.

A jornada rumo à certificação orgânica

Em 2019, o grupo de pouco mais de vinte mulheres da Comunidade da Missão deu um passo crucial para o reconhecimento de seu trabalho: a busca pela certificação orgânica para seus chocolates. Este processo foi uma formalização de uma prática que já existia, mas que ganhava agora um selo oficial de qualidade e sustentabilidade. Inicialmente, a associação se consolidou como uma Organização de Controle Social, uma forma de garantir a conformidade orgânica por meio da fiscalização mútua entre os próprios produtores. Posteriormente, evoluiu para um Sistema Participativo de Garantia, um modelo que valoriza a confiança e o conhecimento local.

O reconhecimento oficial de um trabalho diferenciado

O ápice dessa jornada veio com o reconhecimento junto ao Ministério da Agricultura e Pecuária. Para Dona Bete, este momento não foi apenas uma conquista burocrática, mas a realização de um sonho antigo, compartilhado por sua mãe e outras precursoras que inspiraram o desenvolvimento econômico local. “E aí uma olhou para a outra e começamos a conversar: ‘É isso que a nossa mãe queria. Elas eram visionárias’. Elas foram muito visionárias. E elas queriam era aquilo ali, era o nosso reconhecimento de agricultoras orgânicas, que nós nunca plantamos com veneno”, relata Dona Bete, sublinhando a coerência entre as práticas ancestrais e os rigorosos padrões orgânicos modernos. A certificação não só valida a ausência de agrotóxicos, mas também eleva a autoestima e o status dessas agricultoras, garantindo que seu esforço e respeito pela natureza sejam oficialmente reconhecidos e valorizados.

Apoio técnico e o valor da sustentabilidade

A trajetória de sucesso da Comunidade da Missão seria impensável sem o apoio técnico de instituições públicas e organizações sociais. O Instituto Mamirauá, por exemplo, desempenhou um papel fundamental, oferecendo cursos e capacitações que aprofundaram os conhecimentos das mulheres em manejo agroecológico de diversas culturas na região. Essa parceria fortaleceu as práticas já existentes e introduziu novas técnicas que complementam o saber tradicional, garantindo uma produção mais eficiente e sustentável.

Fortalecendo práticas agroecológicas na Amazônia

Fernanda Viana, coordenadora de agroecossistemas do Instituto Mamirauá, detalha o impacto transformador da certificação orgânica para a comunidade. Segundo ela, a certificação “trouxe a oportunidade para essas mulheres de um reconhecimento, de uma valorização de um trabalho que já era diferenciado. Um trabalho que tem todo um cuidado com a produção do campo, que não utiliza nenhum tipo de insumo externo, como os agrotóxicos, como materiais que são sintéticos. Toda a produção dessas mulheres é natural. E a certificação orgânica traz uma confiabilidade para essa produção”. Este reconhecimento oficial não só atesta a pureza do chocolate, mas também abre portas para novos mercados, valorizando a produção natural e a dedicação das agricultoras amazônicas.

Expansão da produção e inovações amazônicas

Apesar de ainda operar em pequena escala, a produção de chocolate na Comunidade da Missão tem conquistado seu espaço, garantindo a participação em chamadas públicas, feiras locais e vendas diretas dentro da própria comunidade, que está a apenas 8 km de Tefé. O trabalho meticulosamente coordenado por Dona Bete assegura um sabor inigualável aos chocolates, que são apresentados em diversas formas: barras, ovos de Páscoa e bombons de cacau puro. A criatividade do grupo vai além do cacau tradicional, incorporando outros tesouros da floresta.

Sabores únicos e a busca por novos mercados

A inovação nos sabores é uma marca registrada da produção local. “Nós já temos o cacau com cupuaçu, nós temos cacau com castanha, castanha-do-brasil, nós temos cacau com mangarataia, cacau com coco, cacau, coco, banana, castanha. E a gente vai criando os nossos próprios sabores”, explica Dona Bete, revelando a riqueza dos ingredientes amazônicos que dão um toque exclusivo aos produtos. Essa experimentação levou a desafios ainda maiores, como o “bombom medicinal” criado pela filha de Dona Bete. Este bombom inovador, que será lançado em uma feira em Tefé, promete benefícios à saúde, combinando mel de abelha, gotas de limão, mangarataia e andiroba, indicado para inflamações e gripes em geral. Atualmente, as vendas também são realizadas por delivery na região de Tefé, utilizando embalagens tradicionais de folha de cacau. O próximo objetivo ambicioso é desenvolver uma embalagem comercial que seja igualmente sustentável, unindo tradição, inovação e responsabilidade ambiental.

Resiliência e futuro para a Amazônia

O trabalho das mulheres da Comunidade da Missão transcende a mera produção de chocolate; ele representa um poderoso exemplo de resiliência, valorização cultural e desenvolvimento sustentável na Amazônia. Ao preservar técnicas ancestrais e integrar-se a práticas modernas de certificação e apoio técnico, essas agricultoras não apenas garantem um produto de alta qualidade e livre de agrotóxicos, mas também fortalecem a autonomia econômica e o reconhecimento de sua identidade. A jornada do cacau ao chocolate orgânico, liderada por figuras como Dona Bete, é um testemunho da capacidade de comunidades locais de inovar, proteger o meio ambiente e inspirar um futuro mais justo e próspero para a região, honrando o legado de suas antepassoras e abrindo caminhos para as próximas gerações.

Perguntas frequentes

Onde está localizada a Comunidade da Missão?
A Comunidade da Missão está situada na zona rural de Tefé, uma cidade no interior do estado do Amazonas, Brasil, a aproximadamente 8 km da sede municipal.

Qual a importância da certificação orgânica para as mulheres da comunidade?
A certificação orgânica, concedida pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, valida oficialmente o trabalho diferenciado das agricultoras, atestando que a produção é livre de agrotóxicos e insumos sintéticos. Isso traz reconhecimento, valorização econômica e confiabilidade aos produtos, além de realizar um sonho das antepassadas da comunidade.

Que tipos de produtos de chocolate orgânico são fabricados?
As mulheres da comunidade produzem chocolate em barra, ovos de Páscoa e bombons, utilizando cacau puro e combinações com ingredientes regionais como cupuaçu, castanha-do-brasil, mangarataia, coco e banana. Também exploram inovações como o “bombom medicinal”.

Como a produção de chocolate contribui para a economia local?
A produção de chocolate orgânico se tornou uma fonte de renda sustentável para as mulheres da Comunidade da Missão, garantindo a participação em chamadas públicas, feiras locais e vendas por delivery, promovendo a autonomia econômica e a valorização do trabalho artesanal e tradicional.

Para experimentar os sabores únicos dos chocolates orgânicos da Comunidade da Missão e apoiar esta valiosa iniciativa, entre em contato e faça seu pedido na região de Tefé.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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