Salvador celebra o samba: o ritmo que nasceu aqui e dita o

0

A capital baiana, Salvador, mergulha este ano em uma vibrante homenagem a um dos pilares da cultura musical brasileira: o samba. Após reverenciar os 40 anos da Axé Music no carnaval anterior, a prefeitura elegeu “O samba nasceu aqui” como o tema central da folia, um tributo que ressoa com a profundidade histórica e a relevância contínua do gênero. Esta escolha não apenas celebra a presença do samba no carnaval, mas também reconhece sua influência ininterrupta ao longo de todo o ano. A celebração marca os 110 anos da gravação de “Pelo Telefone”, considerado o primeiro samba registrado no Brasil, solidificando a ligação ancestral e cultural do ritmo com a Bahia, seu berço e guardiã de tradições. A cidade reafirma, com esta decisão, seu papel fundamental na trajetória do samba.

A gênese do samba: de Salvador ao primeiro registro nacional

A história do samba é intrinsecamente ligada à Bahia, e o tema do Carnaval de Salvador deste ano, “O samba nasceu aqui”, é um lembrete vívido dessa conexão ancestral. A homenagem concentra-se em um marco fundamental: os 110 anos da gravação de “Pelo Telefone”, que em 1916 se tornou o primeiro samba oficialmente registrado no Brasil. Essa obra, atribuída a Donga e Mauro de Almeida, é um pilar na cronologia da música nacional e suas raízes apontam diretamente para as tradições baianas.

“Pelo telefone”: o marco inicial e suas raízes baianas

A composição de “Pelo Telefone” não ocorreu em um vácuo cultural. Ela emergiu de rodas de samba animadas na casa da lendária Tia Ciata, uma figura matriarcal e influente na Pequena África, no Rio de Janeiro. Nascida na Bahia, Tia Ciata se mudou para a capital fluminense em 1876, levando consigo e cultivando as ricas tradições do samba de roda baiano. Sua residência tornou-se um santuário cultural, um ponto de encontro vital para músicos, compositores e artistas afro-brasileiros, onde o samba florescia livremente, longe do preconceito da época. Foi nesse efervescente caldeirão cultural que “Pelo Telefone” ganhou forma, refletindo a fusão de ritmos e influências que caracterizam o gênero. A gravação original de 1916 solidificou o samba como um fenômeno musical reconhecido nacionalmente. A ligação da Bahia com o samba também se manifesta nas primeiras gravações: uma versão instrumental foi curiosamente registrada pela banda do 1º Batalhão da Polícia da Bahia, evidenciando a capilaridade cultural do ritmo no estado. Posteriormente, a primeira gravação com letra foi interpretada pelo cantor “Bahiano”, nascido em Santo Amaro, reforçando ainda mais a presença baiana na cristalização do samba.

A herança viva: influências e releituras

Desde sua gravação pioneira, “Pelo Telefone” transcendeu o tempo, tornando-se um hino que ressoa através das gerações. Sua melodia e letra foram reinterpretadas e regravadas inúmeras vezes por grandes nomes da música brasileira, cada um adicionando uma camada de sua própria identidade artística à obra. Uma das releituras mais célebres é a versão gravada por Martinho da Vila, um dos maiores embaixadores do samba. A capacidade da canção de se adaptar e de inspirar novas gerações de artistas é um testemunho da sua relevância e do seu poder de permanência. Essas regravações não apenas mantêm a memória do samba original viva, mas também demonstram a flexibilidade do gênero para dialogar com diferentes épocas e estilos musicais, solidificando sua posição como uma das maiores expressões da cultura brasileira. A contínua ressonância de “Pelo Telefone” ilustra como o samba, nascido de raízes profundas, continua a florescer e a influenciar o panorama musical do país.

O samba no coração do carnaval de Salvador

O samba, que por vezes esteve à sombra de outros ritmos no Carnaval de Salvador, agora emerge com força e protagonismo, sendo o tema central da folia municipal. Sua presença não é apenas uma homenagem histórica, mas uma reafirmação de sua vitalidade e impacto na cidade.

O bloco alvorada e a resistência do ritmo

Com uma trajetória de 51 anos, o Bloco Alvorada é um dos baluartes do samba em Salvador e ostenta o título de bloco de samba mais antigo em atividade na capital baiana. Para Vadinho França, presidente do grupo, a homenagem prestada pela prefeitura transcende a mera celebração; é, acima de tudo, um recado poderoso de resistência e resiliência. França sublinha que a mensagem central é de perseverança: “Enquanto existirem pessoas à frente da entidade de samba no carnaval, que sejam perseverantes e resilientes, o samba vai ser sempre respeitado”. Ele recorda um período em que o “samba ficou muito invisível no carnaval”, mas celebra a mudança de cenário. “Com o surgimento de outras entidades de samba no carnaval, o samba ganha notoriedade legitimado pelo povo”, afirma, evidenciando uma renovada e robusta presença do gênero na festa momesca. A luta pela visibilidade e reconhecimento do samba é uma constante para o Alvorada e para outras agremiações que mantêm viva essa chama.

Além da folia: impacto econômico e social

Vadinho França enfatiza que a influência do samba vai muito além da ancestralidade e da pura celebração. Ele destaca que o ritmo desempenha um papel crucial na economia e no fortalecimento dos vínculos comunitários em Salvador, estendendo-se por todo o ano. “A ancestralidade é real no samba, pois ele rejuvenesceu e se tornou muito mais profissional sem perder a sua essência”, explica. Essa modernização, sem comprometer suas raízes, permitiu ao samba se consolidar como um motor econômico e social. “O samba vive um grande momento na sociedade, de segunda a segunda tem samba em Salvador”, ressalta França. Essa onipresença transforma o samba de um mero entretenimento para um forte apelo social e econômico, gerando empregos, movimentando o turismo e fomentando a cultura local nas comunidades. Bares, restaurantes, produtores de eventos, músicos e artesãos se beneficiam diretamente dessa efervescência, provando que o samba é um setor produtivo vibrante na capital baiana.

Abertura oficial: samba dita o ritmo da quinta-feira gorda

Atualmente, o samba ocupa um lugar de destaque na programação oficial do Carnaval de Salvador. É o ritmo que tradicionalmente abre a festa na Quinta-feira Gorda, marcando o início da folia no emblemático Circuito Campo Grande (Osmar). Nessa noite inaugural, os trios elétricos são puxados por blocos de samba que atraem uma multidão entusiasmada, ansiosa para mergulhar na batida contagiante. Blocos como Alerta Geral, Pagode Total e Proibido Proibir são alguns dos protagonistas que desfilam com sua energia e tradição, enchendo as ruas de Salvador com a autenticidade e a cadência inconfundível do samba. A escolha do samba para a abertura oficial é um reconhecimento da sua força e popularidade, estabelecendo o tom para os dias de celebração que se seguem e mostrando que, em Salvador, o samba não apenas nasceu, mas continua a florescer e a comandar os corações de foliões e admiradores.

A reverberação de uma cultura ancestral

A decisão de Salvador em celebrar o samba como tema do seu carnaval é um poderoso testemunho da resiliência e da relevância contínua de um gênero que transcende o entretenimento. É uma homenagem que resgata a memória ancestral, reitera a importância da Bahia como berço cultural e projeta o samba como um motor de desenvolvimento social e econômico. Da casa de Tia Ciata à abertura oficial da maior festa de rua do planeta, o samba reafirma sua essência e sua capacidade de unir gerações, movendo corpos e almas com a batida que, verdadeiramente, nasceu aqui. O ritmo não é apenas uma melodia, mas um elo vital com a história e o futuro da identidade brasileira.

Perguntas frequentes (FAQ)

1. Qual é o tema do Carnaval de Salvador este ano?
O tema do Carnaval de Salvador deste ano é “O samba nasceu aqui”, uma homenagem aos 110 anos da gravação do primeiro samba do Brasil, “Pelo Telefone”.

2. Qual a importância de Tia Ciata para a história do samba?
Tia Ciata foi uma matriarca baiana que se mudou para o Rio de Janeiro e transformou sua casa em um importante centro cultural, onde se realizavam rodas de samba. Foi em sua residência que “Pelo Telefone”, o primeiro samba gravado, ganhou forma.

3. Como o samba contribui para Salvador além do Carnaval?
O samba tem um forte apelo social e econômico em Salvador durante todo o ano, movimentando a economia local, fortalecendo vínculos comunitários e se profissionalizando sem perder sua essência, com eventos de samba acontecendo “de segunda a segunda”.

4. Qual é o bloco de samba mais antigo em atividade em Salvador?
O Bloco Alvorada, com 51 anos de história, é o bloco de samba mais antigo em atividade em Salvador, sendo um símbolo de resistência e tradição do gênero na cidade.

Explore a programação completa e mergulhe na celebração do samba em Salvador, vivenciando a riqueza cultural que pulsa em cada esquina!

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

Compartilhar.
Deixe Uma Resposta

Olá vamos conversar!