O Projeto de Lei Complementar (PLP) 114/2026, uma medida crucial para o cenário econômico nacional, foi aprovado no Senado Federal por ampla maioria (61 votos a 2) na noite de quarta-feira, 12 de agosto. Com a aprovação, o texto agora avança para sanção presidencial, consolidando uma série de reduções de impostos sobre combustíveis e outros setores estratégicos. Horas antes, o mesmo projeto já havia recebido o aval da Câmara dos Deputados, um feito viabilizado por um acordo político entre o governo e as lideranças do Congresso. A iniciativa visa principalmente mitigar os impactos da volatilidade nos preços internacionais do petróleo, mas sua abrangência foi expandida para incluir diversos segmentos da economia brasileira.
Redução tributária e o contexto econômico
A principal motivação por trás do PLP 114/2026 é a necessidade de atenuar as repercussões econômicas do aumento dos preços dos combustíveis no mercado global. Este cenário foi intensificado por conflitos geopolíticos que afetaram rotas cruciais de exportação de petróleo no Oriente Médio, gerando fortes oscilações nas cotações do barril. Diante dessa realidade, o projeto busca oferecer um alívio direto aos consumidores e à cadeia produtiva, impactando o óleo diesel, biodiesel, gasolina, etanol e querosene de aviação.
Impacto nos combustíveis e biocombustíveis
A redução tributária é projetada para reequilibrar o mercado de combustíveis. Uma preocupação central do setor de biocombustíveis era que os subsídios aplicados à gasolina e ao diesel, em resposta aos preços do petróleo, pudessem eliminar a vantagem tributária do etanol e de outros combustíveis não fósseis. Para evitar essa distorção, o texto prevê que a diferença tributária será restabelecida aos patamares praticados antes do conflito, tanto em termos percentuais quanto absolutos por unidade de medida. Notavelmente, se a tributação federal da gasolina sofrer uma redução de 30% ou mais, as alíquotas aplicadas ao etanol serão zeradas, garantindo sua competitividade.
Além disso, o governo concederá uma subvenção de R$ 1,2 bilhão aos produtores de etanol hidratado, uma medida destinada a assegurar a diferenciação nos preços entre gasolina e etanol. Produtores de etanol, incluindo cooperativas, também poderão compensar até R$ 750 milhões em débitos com a Receita Federal, utilizando saldos credores da contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins. Esse valor será proporcional à produção de etanol hidratado em 2025 pelos contribuintes habilitados.
Expansão dos benefícios fiscais para outros setores
Embora o foco inicial fosse a questão dos combustíveis, o alcance do PLP foi significativamente ampliado pelos parlamentares para conceder benefícios fiscais a uma série de outros setores. Entre os beneficiários estão a produção de fertilizantes agrícolas, a pesquisa de minerais críticos e terras raras, e até mesmo a desoneração de impostos para a FIFA, em virtude da Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2027, que será realizada no Brasil.
Apoio à produção nacional e desenvolvimento
Para os produtores rurais, o projeto reduz de 50% para 30% o limite da receita com exportação, permitindo que mais empresas se enquadrem na suspensão do pagamento do IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e da CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços). Outro benefício fiscal relevante autoriza a União a conceder até R$ 5 bilhões em créditos fiscais para a produção de fertilizantes, matérias-primas, remineralizadores e bioinsumos, distribuídos entre 2027 e 2031, com o limite de R$ 1 bilhão por ano. Esse crédito corresponderá a até 20% dos gastos com a produção desses insumos em território nacional, visando impulsionar a soberania alimentar e a segurança agrícola do país.
Mercadorias destinadas a projetos de desenvolvimento da indústria de fertilizantes e matérias-primas também ficarão isentas do Adicional ao Frete para Renovação da Marinha Mercante (AFRMM), com uma renúncia de receita estimada em até R$ 200 milhões por ano. O projeto ainda autoriza o governo a ampliar em até R$ 2,5 bilhões as despesas do Ministério da Defesa, fora dos limites de gastos, com desconto de orçamentos futuros da pasta. Adicionalmente, permite antecipar até R$ 3 bilhões em despesas temporárias com saúde e educação que seriam programadas apenas para 2027, evidenciando uma flexibilização orçamentária para áreas prioritárias.
Medidas de compensação e controle fiscal
Apesar das extensas reduções tributárias e dos benefícios concedidos, o PLP 114/2026 já prevê mecanismos de compensação para a perda de arrecadação. De acordo com o texto, essa renúncia de receita será compensada pelo aumento extraordinário de receitas da União, obtidas justamente em decorrência do incremento no valor do petróleo, que ampliou os royalties e outras participações federais desde o início do ano. Entre janeiro e março de 2026, a arrecadação federal alcançou R$ 28 bilhões, em contraste com os R$ 9 bilhões registrados no mesmo período de 2025, um crescimento real superior a 200%.
O arcabouço fiscal e a gestão orçamentária
O projeto também inclui dispositivos para atrelar o crescimento de determinadas despesas aos limites do arcabouço fiscal, caso haja previsão de déficit fiscal projetado pelo relatório bimestral de receitas e despesas do governo. Se um déficit for apontado, recursos de fundos importantes, como o Fundo Constitucional do Distrito Federal (FCDF) e o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), só poderão ser corrigidos, no exercício seguinte, pela variação da inflação e um percentual máximo de até 2,5%.
Esse mesmo gatilho pode frear o crescimento dos pisos constitucionais de saúde e educação, atualmente definidos em 15% e 18%, respectivamente, da Receita Corrente Líquida (RCL) da União. Embora o projeto não altere a fórmula de cálculo da RCL e suas vinculações de despesas, ele impede que receitas extraordinárias, especialmente as provenientes do petróleo, sejam utilizadas para ampliar automaticamente despesas cuja evolução está vinculada à RCL. Nesses casos, se houver previsão de déficit fiscal, o crescimento dessas despesas também fica limitado à correção da inflação até o máximo de 2,5%, reforçando a disciplina orçamentária.
Articulação política e o caminho da sanção
A votação deste Projeto de Lei Complementar foi o resultado de uma intensa articulação entre o governo e as lideranças do Congresso Nacional, com a participação ativa dos ministérios do Planejamento e da Fazenda. Pela manhã do dia da votação, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), se reuniram no Palácio da Alvorada para alinhar as prioridades legislativas deste período de esforço concentrado no Parlamento. O encontro também contou com a presença do ministro da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães, e da líder do governo no Senado, Teresa Leitão (PT-PE), indicando o alto nível de coordenação política.
O Congresso Nacional retomou sua agenda legislativa após o recesso parlamentar, com um esforço concentrado para votações em plenário e nas comissões. De acordo com os presidentes da Câmara e do Senado, serão dedicadas duas semanas a esse esforço concentrado antes das eleições: a primeira entre 10 e 14 de agosto, e a segunda entre 31 de agosto e 3 de setembro. Este cronograma demonstra a urgência e a prioridade atribuídas à pauta econômica e fiscal, que agora aguarda a decisão presidencial para entrar em vigor.
Perguntas frequentes (FAQ)
1. Qual o principal objetivo do PLP 114/2026?
O principal objetivo é mitigar os efeitos do aumento dos preços dos combustíveis, decorrente de tensões geopolíticas, por meio da redução de tributos federais sobre diesel, gasolina, etanol e querosene de aviação.
2. Como a perda de arrecadação será compensada?
A perda de arrecadação será compensada pelo aumento extraordinário das receitas da União, obtidas principalmente pelo incremento nos royalties e outras participações federais relacionadas ao valor do petróleo no mercado internacional.
3. Quais outros setores, além dos combustíveis, serão beneficiados?
Além dos combustíveis, o projeto beneficia a produção de etanol, fertilizantes agrícolas, pesquisa de minerais críticos e terras raras, e a FIFA (organizadora da Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2027).
4. O que são os gatilhos para despesas previstos no projeto?
Os gatilhos são mecanismos que atrelam o crescimento de certas despesas aos limites do arcabouço fiscal. Em caso de previsão de déficit, fundos como o FCDF e o FNDCT, e pisos constitucionais de saúde e educação, terão seu crescimento limitado à inflação mais um percentual máximo de 2,5%.
Mantenha-se informado sobre os desdobramentos desta e outras importantes medidas econômicas que afetam o cotidiano e o desenvolvimento do Brasil.


