A recente aprovação de um projeto de lei que autoriza a comercialização, compra e posse de spray de pimenta por mulheres maiores de 16 anos em todo o território nacional, com fins de defesa pessoal, tem gerado amplo debate. Embora a medida possa parecer um avanço na garantia da segurança feminina, especialistas alertam que se trata de uma solução paliativa, distante de uma política pública estruturada e verdadeiramente eficaz. A promotora de Justiça do Ministério Público de São Paulo (MPSP) e presidente do Instituto Pró-Vítima, Celeste Leite dos Santos, classifica a iniciativa como “populismo penal”, que instiga uma falsa sensação de segurança e ignora as complexidades inerentes ao uso do dispositivo. Essa perspectiva crítica levanta questionamentos cruciais sobre a real proteção que o spray de pimenta pode oferecer e os riscos que seu manuseio inadequado pode acarretar.
A aprovação do projeto e suas condições
O projeto de lei que permite a venda e posse de spray de pimenta para mulheres aguarda sanção presidencial para se tornar lei. Conforme o texto aprovado, a aquisição do produto será permitida para mulheres a partir dos 18 anos, mediante a apresentação de documento oficial com foto, comprovante de residência e um certificado de que não possuem antecedentes criminais. Para mulheres entre 16 e 18 anos, a compra exigirá, além desses documentos, autorização dos pais ou responsáveis legais, reconhecendo a necessidade de supervisão parental para menores.
Detalhes da aquisição e uso
O regulamento estabelece que o volume máximo do frasco será de 50 ml. As lojas credenciadas para a venda deverão manter um registro rigoroso dos dados da compra, incluindo a emissão de nota fiscal, para garantir o controle sobre o produto e sua rastreabilidade. O uso do spray de pimenta é estipulado para ser “moderado”, exclusivamente para repelir uma agressão “injusta, atual ou iminente”, configurando a legítima defesa. Em situações de roubo ou furto do spray, a proprietária terá a obrigação de registrar um boletim de ocorrência em até 72 horas, sob pena de sanções. Embora a intenção seja clara em fornecer uma ferramenta de autodefesa, a promotora Celeste Leite dos Santos ressalta que essa medida, por si só, não aborda as raízes da violência de gênero e pode ter consequências não intencionais, transformando uma ferramenta de proteção em um vetor de novos riscos para a própria usuária, dada a complexidade de seu manuseio.
Riscos e desvantagens do uso do spray de pimenta
A promotora Celeste Leite dos Santos enfatiza que a liberação do spray de pimenta sem um programa robusto de treinamento cria uma “ilusão de que a mulher pode se defender facilmente”. Ela adverte que o manuseio do dispositivo não é intuitivo e exige capacitação específica. Um disparo contra o vento, por exemplo, pode fazer com que o produto retorne contra a própria usuária, incapacitando-a e tornando-a ainda mais vulnerável ao agressor, em vez de protegê-la. Da mesma forma, se utilizado a menos de um metro de distância, o agressor pode tomar o spray da vítima, transformando-o em uma arma contra ela mesma. A forma de dispersão do produto, seja em jato ou em névoa, também influencia diretamente sua eficácia e segurança de uso, aspecto muitas vezes negligenciado pelo público em geral. Em ambientes fechados, seu uso é desaconselhável, pois a névoa pode atingir a própria usuária e terceiros inocentes, comprometendo a segurança de todos no local.
O perigo da falsa sensação de segurança
A principal crítica à medida é que ela gera uma “falsa sensação de segurança” na população, sem considerar as consequências práticas e os riscos associados. Segundo a promotora, a simples posse do spray pode levar a um excesso de confiança, negligenciando outras estratégias preventivas e de autodefesa. Celeste Leite dos Santos defende que a compradora deveria ser obrigada a apresentar um certificado de treinamento técnico específico para o manuseio do spray, garantindo que a usuária saiba como e quando utilizá-lo de forma segura e eficaz. A ausência de uma exigência de treinamento, bem como a falta de definição sobre quem ministrará essa capacitação, é um ponto falho crucial da legislação proposta. Essa lacuna expõe as usuárias a situações de perigo, onde a ferramenta de defesa pode se tornar um fator de risco adicional, reforçando a ideia de que a medida é mais simbólica do que efetiva em termos de segurança pública.
Consequências legais do uso inadequado
Além dos riscos físicos, a promotora alerta para as potenciais implicações legais para a mulher que utiliza o spray de pimenta. Caso o dispositivo seja empregado de forma desproporcional à agressão, excedendo os limites da legítima defesa, ou se atingir terceiros inocentes, a vítima de uma tentativa de agressão pode acabar sendo punida pela lei. Nesses cenários, a usuária estaria sujeita a penalidades administrativas, como o pagamento de multas que podem variar de um a dez salários mínimos, conforme a gravidade da infração e o julgamento das autoridades competentes. No âmbito civil, ela poderia ser responsabilizada pelos danos causados a terceiros, tendo que arcar com indenizações. Na esfera criminal, as consequências poderiam ser ainda mais graves, com acusações de lesão corporal ou de uso de força desproporcional à legítima defesa. Essa “inversão de papéis” é um grave risco, onde a busca por segurança pode levar a uma nova vulnerabilidade, desta vez, legal e financeira.
Alternativas e a necessidade de políticas estruturadas
Embora reconheça que o spray de pimenta possa ser útil em contextos específicos de legítima defesa, como em locais ermos onde a intenção de estupro ou roubo é clara e iminente, a promotora Celeste Leite dos Santos enfatiza a existência de outras formas de defesa pessoal, muitas delas preventivas e que não envolvem o uso de armas. Manter uma postura segura, observar a movimentação nas ruas antes de entrar em casa ou no carro, e adotar uma postura corporal firme em transportes coletivos — com cabeça erguida, olhar direto e base corporal pronta para fuga ou reação — são exemplos de comportamentos que demonstram atenção e podem inibir a aproximação de agressores de forma indireta, sinalizando que a potencial vítima está atenta e preparada. Além disso, a capacitação em técnicas de defesa pessoal sem o uso de armas é uma alternativa eficaz que permite às mulheres se desvencilhar de agressores de forma controlada e segura, fortalecendo a confiança e a capacidade de reação sem depender de dispositivos externos.
A falha dos Três Poderes na segurança da mulher
A promotora reitera que, quando se trata de atender às demandas das mulheres por segurança, os Três Poderes do Estado têm apresentado falhas significativas e sistêmicas. O Poder Legislativo, segundo ela, não avança em garantir a igualdade de gênero de forma substancial, focando em medidas pontuais em vez de reformas estruturais. O Poder Judiciário, em muitas ocasiões, demonstra despreparo para lidar com as vítimas, resultando em revitimização e falta de acolhimento adequado. Por fim, o Poder Executivo é criticado por não implementar políticas públicas estruturadas e preventivas que abordem a violência de gênero em suas raízes, como programas de educação, combate à cultura do machismo e investimento em redes de apoio, preferindo medidas que podem ser interpretadas como paliativas ou de “populismo penal”, como a liberação indiscriminada do spray de pimenta sem o devido suporte e capacitação. A segurança feminina, portanto, demanda uma abordagem muito mais complexa e intersetorial do que a mera disponibilização de um dispositivo.
FAQ
Quem pode comprar spray de pimenta após a aprovação da lei?
Mulheres maiores de 18 anos podem adquirir o spray apresentando documento com foto, comprovante de residência e certidão de antecedentes criminais. Para aquelas entre 16 e 18 anos, será necessária autorização dos pais ou responsáveis, além dos demais documentos.
Quais são os principais riscos associados ao uso do spray de pimenta, segundo a promotora?
Os riscos incluem o produto voltar contra a própria usuária se disparado contra o vento, ser tomado pelo agressor em caso de uso a curta distância, ineficácia ou perigo em ambientes fechados, e a possibilidade de atingir terceiros inocentes. A falta de treinamento adequado é um fator crítico.
O uso do spray de pimenta pode gerar consequências legais para a mulher que se defende?
Sim, em caso de uso desproporcional à ameaça ou se atingir terceiros, a mulher pode ser penalizada. As sanções podem incluir multas administrativas, responsabilização civil por danos causados e até mesmo acusações criminais por lesão corporal ou uso de força excessiva.
Quais alternativas de defesa pessoal são sugeridas além do spray de pimenta?
São sugeridas a manutenção de uma postura segura, a observação do ambiente para identificar riscos, a adoção de uma postura corporal firme em locais públicos para inibir agressores, e o treinamento em técnicas de defesa pessoal sem armas.
Reflita sobre as implicações da autodefesa e a necessidade de políticas públicas abrangentes para a segurança feminina. Informe-se e participe do debate para construir um futuro mais seguro para todas as mulheres.


