Aqui Não Entra Luz: filme expõe a segregação dos quartos de empregada

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A arquitetura brasileira, ao longo de sua história, tem guardado em seus traços e divisões um reflexo de profundas desigualdades sociais e heranças coloniais. O filme “Aqui não entra luz”, de autoria da cineasta Karol Maia, joga luz sobre essa realidade ao abordar a segregação imposta pelos “quartos de empregada” em residências brasileiras. Lançado recentemente, o longa-metragem oferece uma perspectiva íntima e contundente sobre as experiências de mulheres que dedicaram suas vidas ao trabalho doméstico, revelando as dimensões de um espaço físico que ecoa uma complexa trama de relações sociais e econômicas. Através de depoimentos e análises, o filme não apenas expõe a forma como a arquitetura materializa a hierarquia, mas também provoca uma reflexão urgente sobre dignidade, reconhecimento e a necessidade de reparação histórica no Brasil.

O cinema como espelho social: o filme “Aqui não entra luz”

O filme “Aqui não entra luz” emerge como um documento cinematográfico essencial para entender as dinâmicas sociais e arquitetônicas que moldaram e ainda moldam o Brasil. A cineasta paulistana Karol Maia descreve, com acuidade, a localização típica dos “quartinhos de empregada” nos lares brasileiros: “sempre na área de serviço, bem perto do tanque, bem perto da cozinha, e são espaços geralmente menores.” Essa observação inicial é o ponto de partida para seu longa-metragem de estreia, que adentra a vida de cinco mulheres que atuam ou atuaram como empregadas domésticas em diversas regiões do país.

Narrativas pessoais e a visão da diretora

No coração do projeto está a conexão pessoal da diretora. Miriam Mendes, mãe de Karol Maia, é uma das personagens centrais e também coautora do roteiro e direção. As memórias de infância de Karol, passadas ao lado da mãe em ambientes de trabalho, formam a base emocional e intelectual do filme. Ela recorda que a presença da filha no trabalho não era por necessidade, mas por um laço afetivo: “Minha mãe não me levava por necessidade, ela me levava porque queria ficar perto de mim. Ela me amava e queria me ter por perto.” Essa proximidade permitiu à cineasta observar de perto as nuances de uma profissão muitas vezes invisibilizada e, a partir daí, construir uma narrativa que transcende a experiência individual, transformando-a em um retrato coletivo. Ao expor a intimidade e as lutas dessas mulheres, o filme convida o público a uma reflexão profunda sobre a invisibilidade e a desvalorização do trabalho doméstico, um pilar fundamental da estrutura social brasileira.

A persistência de uma herança colonial

A pesquisa para “Aqui não entra luz” teve início em 2017 e revelou a profunda conexão entre a arquitetura contemporânea e o passado colonial brasileiro. Karol Maia direcionou suas investigações para os estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e Maranhão, regiões que historicamente receberam o maior contingente de mão de obra escravizada. Essa escolha não foi aleatória, visando mapear como as dinâmicas econômicas e sociais do período escravocrata ecoam na disposição espacial das casas brasileiras até os dias atuais.

Da arquitetura das senzalas aos quartos de serviço

Durante as visitas a Casas Grandes e Senzalas abertas à visitação, a equipe do filme notou uma discrepância gritante na conservação dos espaços. Enquanto as Casas Grandes eram construídas com materiais nobres e duráveis, as Senzalas, locais de moradia e trabalho dos escravizados, apresentavam uma conservação precária, utilizando materiais de menor qualidade. A diretora denuncia essa falta de projetos públicos para a preservação desses espaços, um momento sensível da história da humanidade. Essa observação se conecta diretamente com a arquitetura moderna: “Essas casas tinham coisas que a gente pode ver hoje como semelhantes em relação à arquitetura moderna, que é o quarto de empregada, as entradas e o elevador de serviço.” Ela exemplifica com uma visita em São Luís, onde a escada principal era de madeira nobre, contrastando com a escada da área de serviço, feita de um concreto mais simples, revelando a persistência de uma hierarquia espacial que segrega pela qualidade e localização.

O desafio da remuneração e a luta por dignidade

O trabalho doméstico no Brasil é uma profissão que, apesar de essencial, enfrenta desafios estruturais, especialmente no que tange à remuneração. A cineasta Karol Maia faz uma observação perspicaz sobre a economia que sustenta essa atividade: “Até as pessoas pobres ou de classe média baixa no Brasil contratam trabalhadoras domésticas. Isso faz a gente avaliar como o trabalho doméstico no Brasil é mal remunerado, né? Porque se uma pessoa que ganha mal está pagando para alguém trabalhar pra ela, então você também está pagando mal essa pessoa.” Essa dinâmica expõe uma realidade onde a subsistência de uns é construída sobre a desvalorização do trabalho de outros, perpetuando um ciclo de desigualdade e precarização.

A trajetória de Rosarinha e a realidade do trabalho doméstico

Uma das vozes que dão vida ao documentário é Maria do Rosário Rodrigues de Jesus, conhecida como Rosarinha, de Minas Gerais. Sua trajetória é um exemplo pungente das promessas não cumpridas e das dificuldades enfrentadas por muitas mulheres. Ainda criança, Rosarinha foi levada para uma cidade próxima ao seu local de nascimento com a promessa de trabalho e estudo, um acordo que jamais se concretizou. Ela reflete sobre a pobreza de sua origem: “As famílias eram muito pobres. E eu até costumo dizer que eu não entendo porque a gente, que é pobre, tem um tanto de filho. Parece que filho era investimento, sabe? Então a gente tinha que começar a trabalhar cedo pra ajudar a cuidar dos irmãos.”

Participar do filme foi, para Rosarinha, motivo de orgulho e uma oportunidade de revisitar um passado árduo. Embora sem mágoas, ela expressa um sentimento de injustiça: “Eu não tenho mágoa, não tenho nada, mas não acho que deveria ser daquele jeito.” Atualmente, Rosarinha vive em Belo Horizonte, casada e com uma filha, e continua no trabalho doméstico, mas em condições muito diferentes. Com casa própria, ela celebra suas conquistas e sonha com a aposentadoria: “Meu sonho agora é ser dona de casa, levantar, fazer meu café da manhã, eu mesma vou lá e faço. Ao invés de fazer o café da manhã pros meus patrões, fazer só pra mim, pra minha filha e pro meu marido.” Sua história é um testemunho de resiliência e da busca incessante por uma vida com mais dignidade e autonomia.

Legislação em pauta: um passo para a reparação histórica

A discussão levantada pelo filme “Aqui não entra luz” encontra eco nas esferas legislativas, evidenciando a crescente consciência sobre a necessidade de desmantelar símbolos e práticas de segregação. Em 22 de abril, a Comissão de Trabalho da Câmara dos Deputados deu um passo significativo ao aprovar o Projeto de Lei Complementar 18/25.

Projeto de lei busca desnaturalizar a segregação

De autoria da deputada Denise Pessôa, o projeto visa proibir o uso das expressões “quarto de empregada”, “dependência de empregada” e termos análogos em projetos arquitetônicos. A iniciativa representa mais do que uma mudança terminológica; é um movimento em direção a uma reparação histórica e cultural. Segundo a Professora Marcivania, uma das relatoras da proposta, a medida é de urgência histórica: “A abolição dessas nomenclaturas é um passo simbólico e prático para desnaturalizar a cultura do ‘quarto de fundos’, promovendo relações de trabalho baseadas no respeito mútuo, e não na servidão.” A aprovação deste projeto de lei sublinha a importância de reconhecer e desconstruir as estruturas que perpetuam a desigualdade, pavimentando o caminho para um futuro onde a dignidade seja o alicerce de todas as relações de trabalho e convivência social.

FAQ

Qual é o tema central do filme “Aqui não entra luz”?
O filme aborda a segregação espacial e social dos “quartos de empregada” na arquitetura brasileira, explorando as histórias e experiências de mulheres que trabalham ou trabalharam como empregadas domésticas.

Como a história pessoal da diretora se relaciona com o filme?
A cineasta Karol Maia baseou o projeto em suas experiências de infância, acompanhando sua mãe, Miriam Mendes (que também é personagem e coautora do filme), no trabalho doméstico. Essa vivência pessoal oferece uma perspectiva íntima e autêntica à narrativa.

Qual é o propósito do Projeto de Lei Complementar 18/25?
O PL Complementar 18/25 visa proibir o uso de expressões como “quarto de empregada” ou “dependência de empregada” em projetos arquitetônicos. Seu objetivo é desnaturalizar a cultura da segregação e promover relações de trabalho baseadas no respeito mútuo.

Para aprofundar a compreensão sobre este tema crucial, assista ao filme “Aqui não entra luz” em cartaz e participe do debate sobre a dignidade no trabalho doméstico e a reparação histórica.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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