No último domingo, 29 de março, a capital paulista foi palco da 6ª edição da Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência do Estado. O evento reuniu centenas de pessoas, incluindo familiares de vítimas e representantes de mais de 30 movimentos de direitos humanos e organizações da sociedade civil, em um poderoso protesto que ligou o passado sombrio da ditadura militar brasileira ao presente das violações estatais. Com o lema “aprender com o passado para construir o futuro”, a Caminhada do Silêncio não apenas recordou os crimes cometidos durante o regime autoritário, mas também denunciou a contínua repetição de violências perpetradas pelo Estado, mesmo após a redemocratização. A iniciativa reforça a urgência de uma democracia mais sólida e igualitária, clamando por memória, verdade e justiça para todos os cidadãos.
O legado da repressão e a atualidade da luta
A concentração para a Caminhada do Silêncio teve início às 16h, em um local de profundo simbolismo histórico: a frente do antigo prédio do Departamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi/SP), na Rua Tutóia. Este edifício, que operou entre 1969 e 1983, é tristemente conhecido por ter sido um dos principais centros de repressão e tortura durante os anos de chumbo da ditadura militar brasileira, que perdurou de 1964 a 1985. Partindo desse ponto carregado de memória, o cortejo silencioso seguiu pelas ruas da zona sul de São Paulo, sob a escolta da Polícia Militar, que circulava entre os manifestantes. A presença policial, embora esperada em um evento público, adicionava uma camada de complexidade ao ato, dada a própria natureza da denúncia contra a violência estatal. O destino final da caminhada era o Monumento em Homenagem aos Mortos e Desaparecidos Políticos, situado no Parque Ibirapuera, um local que reverencia aqueles que pagaram o preço máximo na luta contra a repressão.
Um percurso de memória e denúncia
A organização da Caminhada do Silêncio é fruto da colaboração do Movimento Vozes do Silêncio, uma iniciativa conjunta do Instituto Vladimir Herzog e do Núcleo de Preservação da Memória Política. Essas entidades, ao promoverem o ato, buscam não apenas manter viva a memória das atrocidades passadas, mas também estabelecer uma ponte crucial entre o período da ditadura militar e as persistentes formas de violência de estado que afetam a sociedade brasileira contemporânea. Lorrane Rodrigues, coordenadora da área de Memória, Verdade e Justiça do Instituto Vladimir Herzog, destacou a importância de desmistificar a ideia de que a ditadura é um capítulo encerrado na história. Segundo ela, o imaginário coletivo muitas vezes encapsula esse período como algo estanque, alheio às discussões do presente. “O lema da caminhada traz essa discussão: tentar entender quais são os impactos do período da ditadura militar no presente, no período contemporâneo, pra gente pensar um pouco o futuro”, explicou Lorrane, enfatizando a necessidade de fortalecer uma democracia que, em sua forma atual, ainda não é plenamente igualitária para uma parcela significativa da população. A caminhada, portanto, visa aproximar o passado e o presente de uma maneira objetiva, facilitando a compreensão pública sobre a continuidade das lutas por direitos e justiça.
A persistência da violência e o clamor por justiça
A continuidade da luta por memória, verdade e justiça é um tema central para os organizadores da Caminhada do Silêncio. Rogério Sotilli, diretor executivo do Instituto Vladimir Herzog, ressaltou em nota que a manifestação surgiu como uma resposta coletiva ao autoritarismo e às tentativas de apagar a história. Ele enfatizou que a ditadura militar não apenas deixou um rastro de mortes e desaparecimentos, mas também uma herança perigosa de impunidade, que infelizmente se reflete nas formas de violência de estado que o Brasil ainda enfrenta. A cada edição, o evento busca retomar o sentimento original de mobilização, especialmente em “tempos em que a defesa do Estado democrático de Direito ficou muito delegada às mais altas instituições, mas seguimos enfrentando ataques graves contra a democracia”. A presença nas ruas é, para Sotilli, uma demonstração de força e um lembrete de que a vigilância democrática é uma responsabilidade compartilhada.
Recomendações não cumpridas e o debate sobre a Lei da Anistia
Uma das ferramentas cruciais na busca por resultados no campo da memória, verdade e justiça são as 49 recomendações da Comissão Nacional da Verdade (CNV). Lorrane Rodrigues lamentou que, desde o seu lançamento, essas recomendações ao Estado brasileiro têm sido pouco ou parcialmente cumpridas. O Instituto Vladimir Herzog realiza um monitoramento bienal do cumprimento dessas medidas e, embora observe alguns avanços pontuais, a percepção geral é de que o progresso é insignificante diante da profundidade e abrangência das propostas. A falta de implementação integral destas recomendações permite que a impunidade persista e que as estruturas de violência se mantenham.
Neste ano, um ponto de destaque levantado pelos movimentos foi a possibilidade, defendida pelo ministro Flávio Dino do Supremo Tribunal Federal (STF), de afastar a aplicação da Lei da Anistia aos casos que envolvem crimes permanentes, como a ocultação de cadáver. Essa discussão jurídica é crucial para abrir caminho para a responsabilização de agentes do Estado por violações de direitos humanos cometidas durante a ditadura, um passo fundamental para romper com o ciclo de impunidade e garantir justiça às vítimas e seus familiares. A medida representaria um avanço significativo na interpretação da lei, alinhando o Brasil a padrões internacionais de direitos humanos que não permitem a anistia para crimes de lesa-humanidade.
Um compromisso contínuo com a democracia
Perto do encerramento da 6ª Caminhada do Silêncio, o manifesto do evento foi lido, reiterando a mensagem central do protesto. “Hoje, caminhamos em silêncio, mas não em ausência. Nosso silêncio é a presença viva, é memória que resiste, é a voz que ecoa nos passos de cada pessoa que se recusa a esquecer”, declarava o texto. O manifesto relembrou a partida do antigo DOI-Codi, um lugar “marcado pela dor, onde o Estado torturou, matou e tentou apagar histórias”, e a chegada ao monumento que “insiste em lembrar: as histórias não foram apagadas”. A mensagem é clara: “Nossos mortos não estão no passado. Nossos desaparecidos não são ausência. Cada vítima de violência do Estado é permanência”.
O manifesto e o chamado à ação
O documento articulava a origem da Caminhada do Silêncio na urgência de resistir quando a democracia foi abertamente ameaçada, e reafirmou a necessidade de continuar caminhando porque “a ameaça não desapareceu. Ele se transformou, se reorganizou e segue à espreita”. O manifesto reforçou que “nunca foi tão importante defender a democracia” e que a luta é contínua. As palavras ressoaram com um chamado contundente: “Relembrar para não repetir. Ocupar a memória para não esquecer nossa história. Porque sem memória, a violência se naturaliza. Sem verdade, a mentira se institucionaliza. E sem justiça, a barbárie se repete.” O texto também deixou claro que a violência de Estado não é um resquício do passado e que “lutar por memória, verdade e justiça é afirmar que não aceitamos a impunidade. É exigir a responsabilização de torturadores, de seus cúmplices e daqueles que financiaram o terror”.
O manifesto concluiu com um chamado incisivo: “Às novas gerações que não viveram o terror, mas herdam suas consequências. À sociedade civil que não pode se calar. Às instituições, que precisam ser defendidas, mas também transformadas.” O convite é para uma escolha consciente: “entre esquecer ou lembrar. Entre repetir ou transformar. Entre silenciar ou agir.” E finaliza com a certeza de que “resistir não é apenas lembrar o passado. Mas disputar o futuro. Hoje, nosso silêncio fala. E o que ele diz é simples e inegociável: Para que nunca se esqueça. Para que nunca mais aconteça. Seguiremos caminhando”. Após a leitura do manifesto, os nomes das vítimas de violência de estado, tanto da ditadura quanto dos tempos atuais, foram lidos em voz alta. A cada nome, os manifestantes respondiam em coro, “presente”, um ato de resistência e solidariedade que ecoou a promessa de que suas histórias não serão esquecidas.
Perguntas frequentes
O que é a Caminhada do Silêncio?
A Caminhada do Silêncio é um ato público anual, organizado pelo Movimento Vozes do Silêncio (formado pelo Instituto Vladimir Herzog e o Núcleo de Preservação da Memória Política), que visa lembrar as vítimas de violência do Estado, tanto da ditadura militar quanto do período pós-redemocratização, e cobrar por memória, verdade e justiça.
Qual foi o percurso da 6ª edição da caminhada?
A 6ª edição partiu do antigo prédio do DOI-Codi/SP, na Rua Tutóia, conhecido centro de repressão e tortura durante a ditadura, e seguiu até o Monumento em Homenagem aos Mortos e Desaparecidos Políticos, no Parque Ibirapuera, em São Paulo.
Por que a Lei da Anistia foi mencionada na caminhada?
A Lei da Anistia foi mencionada em relação à proposta do ministro Flávio Dino (STF) de afastar sua aplicação para casos de crimes permanentes, como a ocultação de cadáver. Isso permitiria a responsabilização de agentes do Estado por crimes graves cometidos durante a ditadura, combatendo a impunidade e garantindo justiça às vítimas.
Quais são os principais objetivos da Caminhada do Silêncio?
Os principais objetivos são: manter viva a memória das vítimas da violência estatal, denunciar a repetição de abusos de poder, fortalecer a democracia, exigir o cumprimento das recomendações da Comissão Nacional da Verdade e clamar por justiça e responsabilização dos culpados.
A luta por memória e justiça é contínua e essencial para a construção de um futuro mais justo. Saiba como você pode se envolver e apoiar as iniciativas que defendem os direitos humanos e a memória democrática do Brasil.


