Fim da escala 6×1: proposta busca aliviar a dupla jornada das mulheres

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O governo federal intensifica o debate público sobre a possível revisão do modelo de trabalho no Brasil, com foco na redução da jornada máxima de 44 para 40 horas semanais e o fim da escala 6×1, que prevê seis dias de trabalho para um de descanso. A proposta visa estabelecer a jornada 5×2, com cinco dias de trabalho e dois de folga, buscando proporcionar maior qualidade de vida à população, com aumento do tempo disponível para descanso e lazer dos trabalhadores. Essa discussão, que envolve trabalhadores, empregadores e o Congresso Nacional, tem como um de seus pilares o alívio da sobrecarga, especialmente sentida pelas mulheres, que frequentemente enfrentam uma dupla jornada, conciliando o trabalho remunerado com responsabilidades domésticas e de cuidado não remuneradas.

A proposta governamental e a busca por qualidade de vida

A intenção de rever o modelo de trabalho e implementar a jornada de cinco dias de trabalho para dois de folga (5×2) é um dos pilares da agenda governamental que busca promover o bem-estar social. A transição da atual jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, somada ao fim da escala 6×1, é defendida como uma medida essencial para modernizar as relações de trabalho e atender às demandas contemporâneas por um equilíbrio mais saudável entre vida profissional e pessoal.

Detalhes da mudança: 6×1 para 5×2 e 44 para 40 horas

A proposta centraliza-se na alteração do regime de trabalho que tem sido predominante em diversos setores. Atualmente, milhões de brasileiros estão submetidos à escala 6×1, o que significa ter apenas um dia de folga por semana. A mudança para a escala 5×2 garantiria dois dias consecutivos de descanso, proporcionando um respiro mais significativo para os trabalhadores. Paralelamente, a redução da carga horária máxima semanal de 44 para 40 horas complementaria essa medida, liberando mais tempo para atividades pessoais, familiares e de lazer. O governo argumenta que essa flexibilização não apenas melhoraria a saúde mental e física dos empregados, mas também poderia impulsionar a economia por meio do aumento do consumo em setores de lazer e serviços, além de promover maior produtividade no trabalho devido a funcionários mais descansados e motivados.

O cotidiano sob a escala 6×1: depoimentos de trabalhadores

A realidade da escala 6×1 é desafiadora para muitos. Denise Ulisses, cobradora de ônibus no Distrito Federal, de 46 anos, ilustra bem essa rotina. Há 15 anos, ela trabalha seis horas corridas de segunda a sábado, com folga apenas aos domingos. Essa jornada, somada às responsabilidades de casa e o acompanhamento de dois filhos, hoje com 18 e 22 anos, sempre foi extenuante. “Quando as crianças eram pequenas, foi bem pesado”, relata. Com a perspectiva de um modelo 5×2, Denise planeja usar o tempo extra para lazer, como viajar para um sítio de sexta-feira à noite até domingo à noite.

Outro exemplo é Tiffane Raane, auxiliar de serviços gerais no Distrito Federal. Sua rotina inclui trabalho das 7h às 18h, de segunda a sexta, com um sábado ou domingo alternado a cada semana. Fora do emprego, Tiffane dedica-se à casa e ao filho de 7 anos, para quem precisa pagar uma cuidadora. A falta de tempo impede que ela ajude o filho nas atividades escolares e a faz adiar o sonho de retomar a faculdade de educação física, trancada no quarto semestre, visando uma melhor remuneração.

Jeisiane Magalhães Faria, balconista de farmácia em Brasília há cinco anos, também trabalha na escala 6×1 e relata ter perdido a conta de quantos eventos familiares não pôde comparecer devido ao emprego. Jeisiane, que cursa farmácia, almeja mais tempo para estudos e vida pessoal, acreditando que o descanso adicional pode inclusive melhorar seu desempenho profissional, aliviando o cansaço acumulado por longas jornadas e deslocamentos.

O peso da dupla jornada feminina e os impactos sociais

A pauta do fim da escala 6×1 é considerada prioritária pelo governo federal, em grande parte devido ao seu impacto desproporcional sobre as mulheres. A carga de trabalho, especialmente no modelo 6×1, recai majoritariamente sobre os ombros femininos, que frequentemente assumem a dupla jornada: trabalho remunerado e o extenso trabalho doméstico não remunerado.

Dados e a realidade das mulheres no trabalho doméstico

Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua de 2022 confirmam essa realidade. Mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e cuidados de pessoas, enquanto homens dedicam 11,7 horas. Essa diferença de 9,6 horas semanais representa quase o dobro do tempo de dedicação feminina, evidenciando uma desigualdade de gênero estrutural. Para mulheres pretas e pardas, o cenário é ainda mais desafiador, com 1,6 hora a mais de trabalho doméstico não remunerado por semana, em comparação com mulheres brancas.

Sandra Kennedy, da Secretaria Nacional de Articulação Nacional, Ações Temáticas e Participação Política do Ministério das Mulheres, salienta que a desigualdade de gênero é a primeira questão a ser enfrentada para reduzir a sobrecarga feminina. “Na soma entre o trabalho doméstico e o trabalho formal, nós trabalhamos muito mais do que os homens”, destaca. A secretária acredita que o fim da jornada 6×1 pode ter um impacto positivo na divisão de tarefas em casa, enfatizando que “o cuidado tem que ser compartilhado entre homens e mulheres”, e que homens precisam ter mais tempo em casa para essa partilha.

Saúde e desenvolvimento pessoal: o custo da sobrecarga

A sobrecarga de trabalho e a dupla jornada impõem um custo alto à saúde e ao desenvolvimento pessoal das mulheres. Sandra Kennedy aponta que as mulheres estão adoecendo mais devido a essa realidade. “A gente tem menos tempo para estudar, para se qualificar, tem muito menos tempo para conciliar o trabalho pessoal com o trabalho social. O adoecimento é evidente”, afirma. A falta de tempo para a educação continuada e o desenvolvimento de carreira limita as oportunidades de ascensão profissional e de aumento de renda para muitas mulheres, como no caso de Tiffane Raane, que precisou adiar a faculdade.

A mobilização social e o manifesto por dignidade

A insatisfação com as atuais condições de trabalho tem gerado uma forte mobilização social. Em março de 2026, a Articulação Nacional de 8 de Março, apoiada por mais de 300 organizações de movimentos sociais, entregou o Manifesto Nacional do 8 de Março Unificado 2026 ao Ministério das Mulheres. O documento, intitulado “Pela vida das mulheres: contra o imperialismo, por democracia, soberania e pelo fim da escala 6×1”, argumenta que o modelo atual “rouba o tempo, adoece corpos e aprofunda desigualdades”. A defesa do fim da escala 6×1 é vista como a defesa do “direito de viver com dignidade, enfrentando a lógica neoliberal que transforma a vida em mercadoria”.

Além disso, uma petição pública online, lançada em setembro de 2023 pelo Movimento Vida Além do Trabalho (VAT) e direcionada ao Congresso Nacional, ganhou repercussão nacional ao pleitear um modelo de trabalho mais flexível. O texto do abaixo-assinado, que já conta com quase 3 milhões de assinaturas, enfatiza que “trabalhadores saudáveis e satisfeitos são mais produtivos e contribuem para o desenvolvimento sustentável do país”, sugerindo uma reavaliação das práticas que afetam a saúde e o equilíbrio entre vida profissional e pessoal.

O debate econômico: custos versus geração de empregos

Apesar do amplo apoio popular à redução da jornada de trabalho e ao fim da escala 6×1, setores da indústria e do comércio expressam preocupações significativas, projetando impactos econômicos negativos em caso de aprovação da medida.

Preocupações do setor produtivo

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que a medida poderia elevar os custos empresariais em até R$ 267 bilhões ao ano, considerando os empregados formais, o que representaria um acréscimo de até 7% na folha de pagamentos. A CNI também argumenta que, caso as horas não sejam repostas, a redução do limite semanal de horas trabalhadas resultaria em uma queda da atividade econômica.

De forma similar, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) apresentou um estudo apontando que a redução da jornada de trabalho poderia impactar a preservação de 631 mil empregos formais e a competitividade dos negócios. Segundo a entidade, a diminuição do limite constitucional de 44 para 40 horas semanais, com o fim da escala 6×1, poderia elevar o preço dos produtos e serviços consumidos pela população em até 13%. O estudo da CNC conclui que a mudança na legislação resultaria em um aumento de custos da ordem de R$ 122,4 bilhões por ano para o setor de comércio, defendendo que quaisquer alterações sejam feitas por meio de negociação coletiva.

Perspectivas alternativas e o potencial de crescimento

Em contrapartida às projeções dos empregadores, representantes do governo e estudos acadêmicos contestam a inevitabilidade de impactos negativos. Sandra Kennedy, do Ministério das Mulheres, refuta os argumentos de que a melhoria da qualidade de vida do trabalhador levaria ao aumento do desemprego, classificando essa narrativa como uma falácia, historicamente utilizada por aqueles que representam os interesses do capital. Ela relembra que argumentos semelhantes foram levantados em momentos de redução de cargas horárias ainda mais elevadas, como as de 12, 14 ou 16 horas.

O estudo “O Brasil está pronto para trabalhar menos: a PEC da redução da jornada e o fim da escala 6×1”, do Centro de Estudos Sindicais e Economia do Trabalho (Cesit/Unicamp), projeta um cenário diferente. Com base na PNAD Contínua, a pesquisa estima que a aprovação do fim da escala 6×1 beneficiaria pelo menos 37% dos trabalhadores brasileiros. A economista Marilane Teixeira, pesquisadora do Cesit/Unicamp, sugere que a mudança tem o potencial de gerar 4,5 milhões de empregos e elevar a produtividade no país, ao contrário das projeções de perdas do setor produtivo.

Tramitação no legislativo e a urgência da mudança

A questão da redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1 está ativamente em debate no Congresso Nacional, com o governo federal buscando acelerar o processo legislativo.

O avanço da PEC na Câmara dos Deputados

A proposta para a mudança na jornada de trabalho está tramitando na Câmara dos Deputados. Em fevereiro deste ano, o deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), na posição de presidente da Casa, encaminhou uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Após a análise da CCJ, o tema deverá seguir para uma comissão especial, onde será debatido em profundidade. Motta expressou a viabilidade de a proposta ser votada no plenário da Câmara já em maio, demonstrando um desejo de progresso rápido na pauta.

Pressão do executivo para acelerar o processo

O governo federal manifesta pressa na resolução do tema. O ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, já sinalizou que o Poder Executivo poderá enviar um projeto de lei com regime de urgência ao Congresso Nacional. Essa medida seria adotada caso as discussões sobre o tema no parlamento não avancem na “velocidade desejada”, visando unificar as diversas propostas que já tramitam e garantir uma solução célere para a questão da jornada de trabalho no país.

Perguntas frequentes sobre a escala 6×1 e a redução da jornada

O que é a escala 6×1 e como ela mudaria?
A escala 6×1 refere-se a um regime de trabalho onde o empregado trabalha seis dias e folga um. A proposta em debate visa substituí-la pela escala 5×2, que garante cinco dias de trabalho e dois dias consecutivos de folga, além de reduzir a jornada máxima semanal de 44 para 40 horas.

Por que a proposta é considerada mais benéfica para as mulheres?
A proposta é vista como benéfica para as mulheres porque aliviaria a dupla jornada que muitas enfrentam, conciliando o trabalho remunerado com as responsabilidades domésticas e de cuidado não remunerado. Dados mostram que mulheres dedicam significativamente mais horas a essas tarefas do que homens, e a maior folga e menor carga horária lhes proporcionariam mais tempo para descanso, lazer, educação e autocuidado.

Quais são os principais argumentos contra e a favor da medida?
A favor, argumenta-se que a medida melhora a qualidade de vida do trabalhador, reduz o adoecimento, estimula o lazer e o consumo, e pode gerar milhões de novos empregos. Contra, setores da indústria e comércio preveem um aumento significativo nos custos operacionais, possível elevação de preços para o consumidor e impacto negativo na competitividade e na manutenção de empregos formais.

A redução da jornada de trabalho impactará os salários?
A proposta do fim da escala 6×1 e da redução da jornada para 40 horas semanais é defendida sob a premissa de que os salários sejam mantidos. Pesquisas de opinião indicam que a população apoia a medida, desde que não haja perda salarial. Setores empresariais, no entanto, apontam para um aumento nos custos com folha de pagamentos, o que poderia gerar pressão sobre os salários ou a contratação de pessoal adicional. O debate ainda busca um equilíbrio que preserve o poder de compra dos trabalhadores sem inviabilizar a produção.

O debate sobre o fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho reflete uma busca por equilíbrio entre produtividade econômica e bem-estar social. Acompanhar as discussões no Congresso e os desdobramentos dessa proposta é fundamental para entender o futuro do trabalho no Brasil e seus impactos na vida de milhões de cidadãos.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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