Samba-enredo: um poderoso enunciado político e voz da democracia

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O samba-enredo, mais do que uma mera expressão cultural, emerge como um potente enunciado político e uma trincheira de resistência na história brasileira, especialmente durante o conturbado Século 20. Diferente da percepção de um desfile impecável, o avanço da democracia no Brasil foi sinuoso, e nesse cenário, carnavalescos e compositores enfrentaram vigilância, censura e prisão. O racismo estrutural intensificou essa repressão contra a população negra, protagonista do carnaval carioca. É nesse contexto que se insere a pesquisa do sociólogo Rodrigo Antonio Reduzino. Sua tese de doutorado, “Enredos da Liberdade: o grito das Escolas de Samba pela Democracia”, desvenda o papel dos enredos do Grupo Especial do Rio de Janeiro na década de 1980, da campanha Diretas Já à eleição de Fernando Collor, revelando a profundidade política por trás das alegorias e da melodia.

O silêncio sobre a resistência do samba e o racismo estrutural

A narrativa histórica sobre a resistência cultural à ditadura militar frequentemente exalta nomes da Música Popular Brasileira (MPB), relegando as escolas de samba a um papel secundário ou inexistente. Rodrigo Antonio Reduzino questiona essa lacuna, apontando para um racismo estrutural que opera o apagamento da palavra, da intelectualidade e da humanidade de setores historicamente marginalizados. Para o sociólogo, a escola de samba, através do samba-enredo, é uma plataforma potente para a crítica e a provocação, um “grande enunciado político” que transcende a breve duração de um desfile.

A dimensão política do samba-enredo

Analisar um enredo crítico à ditadura nos anos 1980, como um grito por “liberdade” ou uma denúncia da tortura, não se resume a uma performance de uma hora e meia. O processo de criação de um samba-enredo é intrínseco à comunidade, levando meses, às vezes um ano, para ser gestado. Essa longa jornada colaborativa infunde nas letras e alegorias uma carga política robusta e um reflexo genuíno das inquietações sociais. Ignorar essa dimensão é minimizar um esforço coletivo e profundamente enraizado, que ousava desafiar um regime autoritário de forma explícita e simbólica, muitas vezes camuflado em metáforas compreendidas pela comunidade.

Repressão, vadiagem e a cultura negra

A repressão estatal contra as escolas de samba não era apenas uma forma de controle político, mas também uma manifestação do racismo intrínseco à sociedade brasileira. Reduzino sugere que o aparato repressivo do Estado aplicava uma camada extra de violência contra as camadas populares, a população negra e periférica, e todos os envolvidos com o samba. O samba, enquanto expressão máxima da cultura negra no Brasil, sempre foi alvo de estigmatização. O histórico Código de Vadiagem, por exemplo, frequentemente usado para criminalizar pessoas negras que portavam instrumentos musicais ou não tinham carteira de trabalho, demonstra como a cultura e a identidade negra foram associadas à marginalidade. Essa associação era uma ferramenta de controle social e racial, mantendo o samba sob uma constante nuvem de suspeita, o que adicionava uma violência simbólica e física à população que o produzia e celebrava.

O mito da democracia racial e a estigmatização das escolas

A complexa relação entre poder, cultura e sociedade se manifesta também na forma como as escolas de samba foram retratadas e, muitas vezes, estigmatizadas. A presença de “mecenas” do jogo do bicho nas agremiações, por exemplo, é frequentemente usada para criminalizar as escolas, ignorando as conexões mais profundas entre o poder público e a contravenção.

Mecenas do jogo do bicho e o poder

A ascensão dos bicheiros como figuras visíveis e “mecenas” nas escolas de samba é um fenômeno que se intensifica justamente durante a ditadura militar. Essa não é uma coincidência. O jogo do bicho, embora anterior, ganhou essa nova roupagem empresarial e de visibilidade no período ditatorial, com figuras que transitavam livremente entre gabinetes de generais e palácios governamentais. A responsabilização exclusiva das escolas de samba por essa associação ignora que esses bicheiros dialogavam e circulavam nos mais altos escalões do poder público, evidenciando uma cumplicidade que ia muito além das quadras de samba. Essa dinâmica complexa desafia a simplificação de que as escolas seriam as únicas responsáveis pela presença de contraventores.

Desmistificando a democracia racial

A ideia de um Brasil como uma democracia racial, forjada intelectualmente por parte da elite brasileira, é um dos pilares da estrutura racista do país. Negar essa realidade, conforme Reduzino, é uma forma de violência profunda. Embora o mito da democracia racial tenha sido, por vezes, ecoado em sambas-enredo celebrando um “grande Brasil”, é crucial reconhecer que essa narrativa ignora dados alarmantes, como a alta taxa de jovens negros mortos a bala ou a violência obstétrica sofrida majoritariamente por mulheres negras. A manutenção desse mito serve para calar as contradições sociais e perpetuar a invisibilidade das desigualdades raciais, fingindo que está tudo bem em um “paraíso” inventado às custas da existência do outro. Pesquisadores e intelectuais negros que questionaram essa narrativa, como Lélia Gonzalez e Clóvis Moura, foram fichados e reprimidos, assim como as próprias escolas de samba que, ao expressar a cultura negra e suas nuances, implicitamente criticavam essa falsa harmonia racial.

A “história oficial” e a suposta alienação do samba

Outra crítica comum às escolas de samba do passado é a de que muitos enredos se baseavam na historiografia oficial, contribuindo para uma suposta alienação do processo histórico. Rodrigo Antonio Reduzino refuta essa visão, argumentando que rotular e estigmatizar a produção cultural do samba é uma forma de diminuir seu valor. A “história oficial” é uma construção da elite acadêmica e do Estado, com grande investimento em sua elaboração e que não surge do nada. Questionar a “alienação” apenas nas escolas de samba, enquanto as instituições que forjaram essa oficialidade permanecem ilesas de tal crítica, é um viés. Além disso, a ideia de que as escolas de samba eram “adesistas” à ditadura é amplamente refutada por dados. Um mapeamento dos enredos da década de 1970 revela que, de 140 enredos, apenas quatro fizeram alguma elegia ou foram ufanistas ao regime militar, e estes estavam restritos a apenas três escolas. Essa narrativa de adesão é mais uma forma de estigmatização, ignorando a vasta maioria de enredos que, de forma direta ou sutil, resistiam e criticavam, e que demonstravam a complexidade política inerente ao carnaval.

O samba-enredo como força de transformação

A pesquisa de Rodrigo Antonio Reduzino ilumina a complexa e muitas vezes subestimada história do samba-enredo como uma poderosa ferramenta de contestação política e social no Brasil. Longe de serem meros espetáculos de entretenimento, os desfiles e suas narrativas musicais representaram uma voz ativa na luta pela democracia, desafiando a censura e o racismo estrutural. O samba-enredo provou ser um espaço vital para a expressão da cultura negra, para a crítica ao autoritarismo e para a desconstrução de mitos como o da democracia racial. Reconhecer seu papel é fundamental para uma compreensão mais completa da resistência e da construção da identidade nacional, revelando as camadas de significado e as lutas sociais que permeiam essa que é uma das maiores manifestações culturais do país.

Perguntas frequentes (FAQ)

Qual o principal argumento da pesquisa de Rodrigo Antonio Reduzino?
A pesquisa de Reduzino argumenta que o samba-enredo é um “grande enunciado político” e uma ferramenta de resistência democrática, especialmente durante a ditadura militar (1964-1985). Ele demonstra como as escolas de samba, por meio de seus enredos, criticaram o regime e expressaram demandas por liberdade e justiça, desafiando a repressão e o racismo.

Por que o papel das escolas de samba na resistência à ditadura militar é pouco reconhecido?
Reduzino atribui esse apagamento a um racismo estrutural na sociedade brasileira que, historicamente, diminui a intelectualidade e a importância da cultura negra. A narrativa dominante sobre a resistência à ditadura frequentemente privilegia outras formas de expressão cultural, ignorando a profundidade política e o processo comunitário por trás da criação dos sambas-enredo.

Como o mito da democracia racial se relaciona com as escolas de samba?
O mito da democracia racial, que prega uma convivência harmônica entre as raças no Brasil, é visto por Reduzino como um pilar da estrutura racista. Embora ocasionalmente cantado em sambas, ele argumenta que o próprio existencialismo das escolas de samba, como expressão de cultura negra e espaço de crítica, contradiz e desmantela esse mito, expondo as desigualdades e a violência racial. Aqueles que questionavam o mito, incluindo membros do samba, foram reprimidos.

Os sambas-enredo eram adesistas à ditadura militar?
A pesquisa refuta a ideia de que as escolas de samba foram “adesistas” ao regime. Um mapeamento dos enredos da década de 1970, por exemplo, mostra que de 140 enredos, apenas quatro podiam ser interpretados como ufanistas ou de apoio à ditadura, e estes estavam restritos a poucas escolas. A maioria dos enredos, de forma direta ou simbólica, mantinha um posicionamento crítico ou explorava temas que desafiavam a narrativa oficial, demonstrando a estigmatização dessa percepção.

Para aprofundar seu entendimento sobre o impacto político e social do samba-enredo, explore o documentário “Enredos da Liberdade” e reveja a história do carnaval com novos olhos, reconhecendo a voz poderosa das escolas de samba na construção da democracia brasileira.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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