O Ilê Oiá Messã Orum, conhecido como Casa do Pai Bobó, localizado no Guarujá, litoral de São Paulo, iniciou o processo para se tornar o primeiro terreiro do estado a ser tombado como patrimônio histórico e cultural. A iniciativa, que está em fase inicial, visa reconhecer a relevância histórica, cultural e religiosa do espaço, fundado em 1957 por José Bispo dos Santos, o Pai Bobó de Iansã. Este potencial tombamento representa um marco significativo para a preservação das religiões de matriz africana no Brasil, oferecendo proteção e visibilidade a um local que é referência para a comunidade do Candomblé e um importante pilar da identidade cultural paulista e brasileira. A medida sublinha a importância de valorizar e proteger as manifestações culturais e religiosas que compõem a rica diversidade do país.
O caminho para o reconhecimento do patrimônio
O processo de reconhecimento da Casa do Pai Bobó como patrimônio histórico está sob a avaliação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Técnicos do instituto realizaram uma visita inicial ao Ilê Oiá Messã Orum, na Rua Argemiro Genuíno da Silva, no Pae Cará, em Vicente de Carvalho, para dar os primeiros passos rumo ao tombamento. Este encontro crucial reuniu especialistas do Iphan, Luiz Carlos Obalodé, presidente do terreiro, e representantes das secretarias municipais de Direitos Humanos e Cidadania, além da Secretaria de Cultura do Guarujá, evidenciando o apoio institucional e a colaboração multissetorial.
A fase inicial compreende a coleta de dados e o levantamento de informações detalhadas sobre o terreiro e sua trajetória religiosa e social. O Iphan realizará visitas adicionais com especialistas, além de aprofundadas pesquisas e estudos para documentar a história, as práticas e a influência do Ilê Oiá Messã Orum. Estes estudos são fundamentais para determinar a modalidade do reconhecimento, que pode abranger aspectos imateriais – como os rituais, conhecimentos e tradições – ou estender-se também aos aspectos materiais, protegendo a estrutura física do local. O objetivo principal é salvaguardar a memória e a tradição desse terreiro, que se consolidou como um centro vital para a fé e cultura afro-brasileira.
A importância da preservação cultural e religiosa
O tombamento da Casa do Pai Bobó transcende a mera proteção de uma edificação ou de um conjunto de práticas. Ele representa um avanço crucial na luta contra a intolerância religiosa e na valorização das culturas de matriz africana, que historicamente foram marginalizadas e perseguidas no Brasil. Ao reconhecer um terreiro como patrimônio, o Estado brasileiro reafirma seu compromisso com a diversidade cultural e a liberdade religiosa, conferindo dignidade e reconhecimento oficial a uma parte fundamental da identidade nacional.
A preservação do Ilê Oiá Messã Orum como patrimônio servirá de inspiração e precedente para outras comunidades, incentivando o reconhecimento e a proteção de outros espaços sagrados. Tal iniciativa pode fortalecer o debate sobre a importância de políticas públicas que garantam a integridade e a continuidade das tradições afro-brasileiras, assegurando que o legado de Pai Bobó e de tantos outros líderes religiosos não seja esquecido, mas sim celebrado e transmitido às futuras gerações. Além disso, o tombamento pode impulsionar o turismo cultural e a pesquisa acadêmica, ampliando a compreensão pública sobre o Candomblé e suas contribuições para a sociedade brasileira.
A trajetória de Pai Bobó e a Nação Queto
José Bispo dos Santos, carinhosamente conhecido como Pai Bobó de Iansã, foi uma figura central na disseminação do Candomblé baiano para a região Sudeste do Brasil. Nascido na Bahia, ele chegou ao Guarujá em 1957, trazendo consigo sua fé e os fundamentos religiosos que culminariam na fundação do Ilê Oiá Messã Orum. A criação deste terreiro marcou um ponto de virada, estabelecendo-o como o primeiro terreiro da nação Queto fora da Bahia, uma vertente do Candomblé de rito iorubá que se tornaria a maior em número de adeptos e templos no estado de São Paulo.
Pai Bobó dedicou sua vida à expansão e consolidação do Candomblé, atuando não apenas como líder espiritual, mas também como um pilar comunitário. Sua visão e empenho foram cruciais para a formação de uma rede de seguidores e para o enraizamento da religião na Baixada Santista. Falecido em 1993, seu legado perdura na Casa do Pai Bobó e na memória de inúmeros filhos e filhas de santo, cujas vidas foram transformadas por seus ensinamentos. A trajetória de Pai Bobó de Iansã está intrinsecamente ligada à história religiosa e cultural do Guarujá e, por extensão, do estado de São Paulo, configurando-se como um capítulo essencial na narrativa da diversidade religiosa brasileira.
O legado cultural e religioso no Sudeste
A chegada de Pai Bobó ao Guarujá e a fundação do Ilê Oiá Messã Orum em 1957 representaram um momento crucial para a expansão do Candomblé no Sudeste do Brasil. Antes de sua chegada, a presença de casas de Candomblé, especialmente da nação Queto, era menos difundida na região. Pai Bobó atuou como um embaixador cultural e espiritual, introduzindo e adaptando as ricas tradições iorubás em um novo contexto. Sua liderança não apenas estabeleceu um local de culto, mas também criou um centro de irradiação de conhecimento e práticas religiosas, formando novos sacerdotes e sacerdotisas que, por sua vez, fundariam outros terreiros.
Esse movimento de expansão foi vital para a solidificação das religiões afro-brasileiras em São Paulo, ajudando a construir a paisagem religiosa plural que observamos hoje. O Ilê Oiá Messã Orum tornou-se um referencial, um ponto de convergência para muitos que buscavam suas raízes espirituais ou um refúgio de fé. O legado de Pai Bobó reside não apenas na estrutura física do terreiro, mas também na vasta rede de relações espirituais e culturais que ele ajudou a tecer, moldando a presença do Candomblé e contribuindo significativamente para o mosaico cultural e religioso do Sudeste brasileiro.
Perspectivas futuras e o impacto social
O potencial tombamento da Casa do Pai Bobó abre novas perspectivas para a valorização das religiões de matriz africana no Brasil. Além de garantir a proteção legal do espaço e de suas tradições, o reconhecimento como patrimônio histórico pode amplificar a voz da comunidade do Candomblé, combatendo preconceitos e promovendo o diálogo inter-religioso. A visibilidade gerada por essa medida pode inspirar outras comunidades a buscar o reconhecimento e a proteção de seus próprios espaços sagrados, criando uma rede de patrimônios que celebram a diversidade religiosa e cultural do país.
Para o próprio Ilê Oiá Messã Orum, o tombamento pode significar acesso a recursos para manutenção e restauração, bem como a programas de fomento à cultura e educação. É uma oportunidade de transformar o terreiro em um centro ainda mais ativo de difusão do conhecimento, oferecendo à sociedade em geral a chance de aprender sobre a história, a filosofia e as práticas do Candomblé de forma respeitosa e informada. Esse impacto social transcende os muros do terreiro, contribuindo para uma sociedade mais justa, plural e consciente de sua herança cultural.
Perguntas frequentes
1. O que significa o tombamento de um terreiro como patrimônio histórico?
O tombamento é um ato administrativo do poder público que visa preservar bens de valor histórico, cultural, arquitetônico, ambiental e afetivo para a população. No caso de um terreiro, significa que o local, suas tradições e, possivelmente, sua estrutura física, são reconhecidos como de interesse público para a memória e identidade nacional, garantindo sua proteção e conservação para as futuras gerações. Pode envolver aspectos materiais (o imóvel) e/ou imateriais (rituais, conhecimentos, festividades).
2. Qual a importância de Pai Bobó para o Candomblé no Sudeste?
Pai Bobó de Iansã, nascido José Bispo dos Santos, foi fundamental para a expansão do Candomblé da nação Queto no Sudeste do Brasil. Ao fundar o Ilê Oiá Messã Orum no Guarujá em 1957, ele estabeleceu o primeiro terreiro Queto fora da Bahia, tornando-o um polo de irradiação para a religião na região. Sua atuação contribuiu para a formação de uma comunidade vibrante e para a consolidação das tradições afro-brasileiras em São Paulo, deixando um legado duradouro de fé e cultura.
3. O que é a nação Queto no Candomblé e por que o Ilê Oiá Messã Orum é significativo para ela?
A nação Queto é uma das principais vertentes do Candomblé no Brasil, originária dos rituais iorubás da região de Queto, na atual República de Benin. É conhecida por suas tradições específicas, cânticos e vestimentas. O Ilê Oiá Messã Orum é significativo por ter sido o primeiro terreiro dessa nação a ser fundado fora do estado da Bahia, onde o Candomblé se desenvolveu inicialmente no Brasil. Isso o tornou um marco histórico para a expansão do Candomblé Queto e para sua presença em São Paulo.
4. Como o Iphan atua no processo de reconhecimento de patrimônios?
O Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) é o órgão responsável por proteger e promover o patrimônio cultural brasileiro. Seu processo de reconhecimento envolve várias etapas: identificação de bens com valor cultural, visitas técnicas, levantamento de informações históricas e documentais, realização de estudos e pareceres de especialistas, e consulta a comunidades envolvidas. A partir dessas análises, o Iphan decide sobre o tombamento ou registro de um bem como patrimônio material ou imaterial.
Para saber mais sobre a importância da preservação cultural e as contribuições das religiões de matriz africana para a riqueza do Brasil, continue acompanhando as iniciativas de reconhecimento e valorização do nosso patrimônio.
Fonte: https://g1.globo.com


