A ausência de acesso à internet ou a conexão de baixa qualidade persiste como um dos principais obstáculos para que os cidadãos se mantenham informados no Brasil. Esta realidade foi evidenciada em um estudo recente, que detalha como a precariedade digital e a falta de identificação do público com os veículos de comunicação contribuem para a disseminação da desinformação. A pesquisa ressalta que o desafio vai além de aprimorar formatos ou ampliar o alcance das notícias; exige uma mudança de paradigma, transformando um jornalismo que apenas “fala” em um modelo que “escuta” e constrói a informação em conjunto com a comunidade. Esta análise aprofundada aponta caminhos essenciais para a democratização da comunicação e o fortalecimento do jornalismo em diversas regiões do país.
O desafio da conectividade e a lacuna de informação
O acesso desigual e a qualidade deficiente da internet são barreiras fundamentais que isolam parcelas significativas da população do fluxo de informações relevantes. Em áreas urbanas periféricas, comunidades quilombolas e territórios indígenas, a conectividade precária limita a capacidade dos indivíduos de se engajarem com notícias e conteúdos, impactando diretamente a formação de uma cidadania informada e crítica.
A barreira da qualidade de acesso
Um em cada quatro entrevistados no levantamento apontou a dificuldade de conexão como um entrave para se informar. Esta estatística revela uma falha estrutural na infraestrutura digital do país, onde a mera existência de uma rede não garante acesso efetivo e de qualidade. A baixa velocidade, interrupções frequentes e custos elevados de pacotes de dados forçam muitos a depender de conexões limitadas ou de pontos públicos, inviabilizando o consumo aprofundado de notícias e a verificação de fatos. A dependência de plataformas com consumo de dados gratuito, como aplicativos de mensagem, embora facilite o acesso, também restringe o universo de informações, muitas vezes concentrando o fluxo em conteúdos não verificados ou de baixa credibilidade.
A desconexão com o jornalismo tradicional
Além da barreira tecnológica, há uma crescente desconexão entre o público e os meios de comunicação tradicionais. A pesquisa sugere que muitos se sentem alheios à linguagem, aos formatos e às pautas abordadas pelo jornalismo hegemônico, percebendo-o como distante de suas realidades e prioridades. Esta falta de identificação cultural e social cria um vácuo que é frequentemente preenchido por informações imprecisas ou falsas, que circulam em ambientes mais próximos e informais. A transição para um modelo de jornalismo participativo, que valorize saberes locais e incorpore as vozes das comunidades, emerge como uma estratégia crucial para reconstruir a confiança e fortalecer o vínculo com os cidadãos.
Cenário da desinformação e o papel do jornalismo local
A vulnerabilidade à desinformação é agravada pela rotina exaustiva e pela falta de tempo para discernir a veracidade dos conteúdos. Neste contexto, o jornalismo local, profundamente enraizado nas comunidades, desponta como um antídoto potente.
Dificuldade em discernir a verdade
Dezessete por cento dos moradores das periferias relataram dificuldade em diferenciar uma informação falsa de uma verdadeira. Este dado é alarmante e aponta para a necessidade urgente de educação midiática. A pesquisa também destacou que a falta de tempo, mencionada por 16% dos entrevistados, é um fator crucial. Pessoas com múltiplas funções e rotinas exaustivas, em especial muitas mulheres, dispõem de menos tempo para refletir criticamente sobre o conteúdo que recebem. A sobrecarga diária impede a verificação de fontes, a leitura aprofundada e a comparação de diferentes perspectivas, tornando-os mais suscetíveis a narratives simplificadas, muitas vezes enganosas.
A força do jornalismo de bairro
Em contrapartida, o jornalismo local e comunitário emerge como um pilar de confiança e credibilidade. Sua proximidade com a realidade dos territórios permite que compreenda as nuances, os anseios e os saberes das populações, traduzindo as informações de maneira relevante e contextualizada. Este tipo de jornalismo, que dialoga diretamente com as experiências dos moradores, é visto como uma fonte mais fidedigna e acessível. A coordenadora do estudo, Thais Siqueira, enfatizou que a confiança é construída através de relações, experiências e referências locais, algo que o jornalismo precisa abraçar, em vez de ignorar.
Consumo de notícias, plataformas e a confiança
As motivações para buscar notícias são diversas, mas a compreensão do entorno imediato se destaca, moldando os hábitos de consumo e as plataformas preferenciais.
Motivações e hábitos regionais
A maioria dos entrevistados busca notícias para entender o que acontece em seu próprio bairro (17%), seguido pela necessidade de tomar decisões (14%), compartilhar informações (12%) e ter assunto para conversas (11%). Para satisfazer essas demandas, os aplicativos de mensagens e redes sociais, com destaque para WhatsApp e Instagram, são os meios mais acessados. No entanto, o padrão de consumo varia significativamente entre as regiões. Enquanto em Recife e São Paulo observa-se uma maior diversificação de plataformas, incluindo sites de notícias, em Santarém (PA) o WhatsApp, a TV aberta e o rádio prevalecem. Essa disparidade regional sublinha a importância das mídias tradicionais em locais com acesso digital mais limitado, onde a televisão e o rádio continuam sendo veículos essenciais de informação.
Fontes confiáveis em um mar de dados
O celular é o dispositivo mais utilizado para acessar notícias, seguido pela televisão, computador e rádio. Contudo, quando se trata de fontes confiáveis, o cenário muda. Mídias tradicionais, sites de notícias consolidados, pessoas conhecidas, professores e lideranças comunitárias são apontados como os distribuidores mais fidedignos de informações. Curiosamente, e contrariando expectativas, os influenciadores digitais e até mesmo grupos de WhatsApp figuram no fim da lista de fontes confiáveis, reforçando a ideia de que a proximidade e o reconhecimento local são cruciais para a credibilidade.
Estratégias inovadoras para enfrentar a desinformação
O combate à desinformação vai muito além da simples checagem de fatos, exigindo uma reestruturação profunda da produção e distribuição de conteúdo.
Além da checagem de fatos
A pesquisa destaca que o acesso a meios tradicionais, embora confiáveis, não é suficiente para erradicar a desinformação. A verdadeira batalha contra a falsidade requer a produção de conteúdos que respeitem os saberes locais, a pluralidade de expressões e os modos coletivos de construir e validar o conhecimento. Thais Siqueira argumenta que combater a desinformação exige uma reorganização que inclui o reconhecimento e o financiamento de sistemas próprios de comunicação, que são mais eficazes em dialogar com as realidades locais. Isso abre uma oportunidade para valorizar dinâmicas comunitárias e fortalecer a comunicação de baixo para cima.
Recomendações para um jornalismo engajado
O estudo apresentou 16 recomendações para fortalecer o jornalismo, democratizar a comunicação e combater a desinformação. Entre elas, destaca-se a sugestão de produzir informações em formatos de áudio, vídeos curtos e conteúdos facilmente compartilháveis. Essa abordagem é especialmente benéfica para aqueles que possuem pacotes de dados limitados ou que acessam a internet principalmente via plataformas que consomem menos banda, garantindo que a informação chegue de forma mais acessível e eficaz aos celulares. A capacitação de pesquisadores, jornalistas e comunicadores locais, além do envolvimento de artistas de rua e jovens mães na coleta de dados, demonstra um compromisso com metodologias inclusivas e representativas.
Perspectivas para um futuro informado
A superação da desinformação e a garantia de um acesso equitativo à informação no Brasil dependem de um esforço multifacetado que combine investimentos em infraestrutura digital com uma profunda reavaliação das práticas jornalísticas. É imperativo que os meios de comunicação desenvolvam uma escuta ativa, compreendendo as necessidades e os contextos das comunidades, especialmente nas periferias, em áreas quilombolas e indígenas. O financiamento de iniciativas de comunicação local, a promoção de formatos adaptados às realidades de conectividade e a valorização dos saberes e vozes comunitárias são passos cruciais. Ao invés de uma comunicação unilateral, a construção conjunta de narrativas informativas pode fortalecer a confiança, empoderar cidadãos e, finalmente, construir uma sociedade mais informada e resiliente à propagação de notícias falsas. Este é o caminho para um jornalismo verdadeiramente democrático e representativo.
Perguntas frequentes
Qual é a principal dificuldade para as pessoas se manterem informadas no Brasil?
A principal dificuldade é a falta de acesso à internet ou a conexão de baixa qualidade, além da desconexão do público com os meios de acesso à informação.
O que o estudo sugere para mudar a lógica do jornalismo e combater a desinformação?
O estudo sugere que o jornalismo precisa sair de uma postura que apenas “fala” para uma que “escuta” e constrói a informação junto com as comunidades, valorizando saberes e modos coletivos de validação.
Por que o jornalismo local é considerado tão importante para enfrentar a desinformação?
O jornalismo local detém a confiança da população por sua proximidade e compreensão da realidade dos territórios. Ele dialoga com as experiências e referências locais, construindo uma base de credibilidade que o jornalismo hegemônico muitas vezes não consegue alcançar.
Para aprofundar seu entendimento sobre os desafios da desinformação e as estratégias para um jornalismo mais inclusivo, explore pesquisas e iniciativas que promovem a comunicação comunitária e o acesso democrático à informação.


